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2014-02-02

Afirmas que brigámos... - Rosa Lobato de Faria

Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
E vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens
Não te devolvo – é minha – a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
Não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
Que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.


in Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Rosa Maria de Bettencourt Rodrigues Lobato de Faria (nasceu em 20 de Abril de 1932 - m. 2 de Fevereiro de 2010)

Ler da mesma autoria, neste blog:
Quem me Quiser
Primeiro a tua mão sobre o meu seio


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