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2011-06-11

O Coveiro - Gonçalves Crespo

A Alberto Braga

Ele entrou cabisbaixo e silencioso
Na imunda tasca, e foi sentar-se a um canto,
Deram-lhe vinho, recusou, o espanto
Cresceu no olhar do taberneiro oleoso.

Ele era o mais antigo e o mais ruidoso
Dos fregueses da casa: ao obscuro canto
Ninguém prestava mais lascivo encanto
Ao som magoado de um violão choroso.

Mas o velho sentara-se distante
Da alegre turba, a vista lacrimante
Mergulhada nas chamas do brasido...

Disse um da roda: "espanta-me o coveiro!"
- Morreu-lhe há pouco a filha... - distraído
Volveu da bisca um contumaz parceiro.


in Poemas Portugueses Antologia das Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

António Cândido GONÇALVES CRESPO nasceu nos subúrbios do Rio de Janeiro a 11 de Março de 1846 e morreu, tuberculoso, em Lisboa, a 11 de Junho de 1883.

Ler do mesmo autor:
Na Aldeia
O Relógio
Nunca eu te lesse, balada!
Na Roça
Mater Dolorosa