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2016-12-30

KAKEMONO - Luís da Câmara Cascudo



imagem daqui

Deixa, meu fino lírio japonês
Que o vento ulule fora da vidraça.
Tens o corpo sonoro de uma taça
E o teu quimono
Que envolve tua cinta esguia e fina
Dá-te um ar de princesa de neblina
Num castelo de outono...
Bem vês
Que o vento ulula fora da vidraça
E a chuva passa
Para ver-te, meu lírio japonês...


Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 30 de dezembro 1898 e faleceu na mesma cidade, em 30 de julho de 1986

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2016-12-29

Poema Eterno - Maria Azenha

A descoberta da terra, 1941. Pintura mural no edifício da
Biblioteca do Congresso, Washington, DC.
Cândido Torquato Portinari (n. Brodowski, São Paulo
29 dez 1903 — m. Rio de Janeiro, 6 fev 1962



ouço a tua voz nas folhas do jardim
que ainda existe por detrás da casa,
as tuas frágeis sílabas gravadas nas flores,
que hoje dá na luz inclinada do terraço
onde os pássaros vêm pela manhã poisar
e cantar no estendal para comer...

e eu fico calada na memória das tuas gargalhadas
entre o baloiço onde brincavas e o som das ruas
onde te foste para sempre esconder.

ouço a sinfonia das gotas de água ao cair da tarde
as nuvens no seu manto negro de anoitecer...
subo então silenciosamente por uma escada feita de cinza e aves
até ao coração da água
que vem em mim morrer ...

fico ao longe solitária
seguindo as tuas lágrimas,
as minhas mãos cresceram tanto que saíram para fora da estrada...

agora posso tocar-te e falar-te sem tu veres…
recolher as estrelas que o vento me traga,
e as palavras que procuro
até adormecer,

enquanto os pássaros vêm aninhar-se no meu colo...

Maria Azenha, nasceu em Coimbra em 29 de dezembro de 1945.

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2016-12-28

OS FAZEDORES DE PROMESSAS - Armando Artur


Como destilar verdades
nestas palavras com odor de mofo?
Até eu poderia emprestar-lhes um ar de sândalo
não fosse a febre noturna dos búzios.
Há muito que os fazedores de promessas
emigraram sem que ninguém os lembrasse
dos gestos obscenos deixados para trás.
Quantos sonhos cabem numa palavra?
Quantos sonhos cabem numa cabaça?
Diziam-me que o mundo era uma pertença de todos.
E enganaram-me quando não acreditei.
Pois as palavras já não enchem a panela de barro.
Só o inverno sabe o quão é difícil
suportar as folhas caídas nas estepes.
Mas nenhuma ausência os entristece?
Nem mesmo a dor que os alucina.

Armando Artur nasceu em Alto Molócuèna, Zambézia, Moçambique a 28 de dezembro de 1962

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2016-12-27

No Pó Dos Livros - Domingos de Oliveira



Um olhar pela estante, lá do pó
traz-me ao olhar as cartas dela, fico
de pé folheando aqui, ali, respigo
palavras do prazer entre as de dor
vazia a boca e ainda o amor
falando do desejo num gemido,
rasgando a carne,ou um grito
a vida inteira vivo em morto corpo.
Por um instante no claustro sou
a alma desolada de mariana, sinto
uma lágrima, só, queimar-me o livro
por onde inadvertido vou.
E porque me comove uma tal paixão
sorrio-me admitindo ser ficção.

in Devastações e Outros Fastos, poemas escolhidos de Domingos Oliveira, Unicepe

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2016-12-26

Cruel - Vespasiano Ramos (na efeméride do centenário da morte do poeta)

Ah, se as dores que eu sinto ela sentisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse;
talvez nunca um momento me negasse
tudo que eu desejasse e lhe pedisse!

Talvez a todo instante consentisse
minha boca beijar a sua face,
se o caminho que eu tomo ela tomasse,
se o calvário que eu subo ela subisse!

Se o desejo que eu tenho ela tivesse,
se os meus sonhos de amor ela sonhasse,
aos meus rogos talvez não se opusesse!

Talvez nunca negasse o que eu pedisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse
e se as dores que eu sinto ela sentisse!...


Joaquim Vespasiano Ramos (n. em Caxias, Maranhão a 13 de agosto de 1884; m. em Porto Velho, Rondônia a 26 de dezembro de 1916)

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