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2013-01-04

Soneto, feito pouco depois de receber o sagrado viático - Dª Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre

Grande Deus, que do alto desse trono
Lanças o braço ao pecador contrito,
Escuta do remorso o humilde grito,
Das tuas leis perdoa o abandono.

Tu, da graça eficaz somente o dono,
Que nunca a pena iguala ao delito,
Dá-me sossego ao coração aflito,
Tão próximo a dormir o eterno sono.

Debaixo duma mágica aparência
Encobri os requintes da maldade;
Mas qual é hoje a triste consequência?

Não me negues, Senhor, Tua piedade;
Tira-me do abismo da impudência,
Dá-me uma venturosa eternidade.

Extraído daqui (pdf)
Dª Catharina Michaela de Souza Cézar e Lencastre, dama da
Ordem de S. João de Jerusalém, primeira Viscondessa de Balsemão, nasceu em Guimarães a 29 de Setembro de 1749 e faleceu no Porto a 4 de Janeiro de 1824

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2013-01-03

visto da margem sul do rio o porto - Vasco Graça Moura


visto da margem sul do rio o porto não explode
sob a tarde de verão. a água reflecte
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

são estes sons de nada, estes voos que perpassam,
estas estrias da sombra de ninguém
sobre io curso do rio, como nuvens para esta hora, a
encrespar-lhes de leve a superfície.

enquanto parte algum comboio atrasado,
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham,
quero um barco pequeno para a minha travessia,
para a minha chegada e para a minha partida,

para andar entre as margens ou seguir a corrente
até s. joão da foz ver as últimas gaivotas
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras
se mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.

in Vasco Graça Moura, poesia reunida, vol. 2, 1997-2010, Quetzal

Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
blues da morte de amor
do tempo que passa
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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METAMORFOSES - Emiliano Perneta

A Mme. Georgine Mongruel.

Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!


Ilusão 1911 (soneto extraído daqui)

Emiliano David Perneta (Pinhais, Paraná, 3 de janeiro de 1866 — Curitiba, Paraná, 19 de janeiro de 1921)

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2013-01-02

Origem dos sonhos esquecidos - Mário-Henrique Leiria

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo


in A Única Real Tradição Viva
Perfecto E. Cuadrado
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
Assírio & Alvim

Mário-Henrique Leiria (nasceu em Lisboa a 2 de Jan. 1923 - m. em Cascais, 9 Jan. 1980)

Do mesmoautor no Nothingandall:
Rifão Quodidiano
Cegarrega para crianças

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2013-01-01

À CASUARINAS DO CEMITÉRIO DE DILI - Alberto Osório de Castro

Sonho escuro dos mortos embalai,
Prece das casuarinas!
Vozes vagas dos mortos, ciciai
Nas folhagens franzinas!
Já no céu, resplandece esmorecendo
A púrpura do dia.
Passa a aragem do pântano gemendo
Na romagem sombria.
Que murmuram as bocas das raízes
Aos mortos a sonhar?
Que lhes dizes, ramagem? Que lhes dizes,
A reza e a embalar?

(Lahane, Timor, Abril de 1908).
in A Ilha Verde e Vermelha de Timor
Extraído daqui

Nota: Casuarinas, é uma árvore, casuarina junghuniana, em Tetun: Ai-kakeu. Nalgumas zonas, o arvoredo do Kakeu serve para ensobrear os cafezais; a madeira é usada em postes, vigas e larazes

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1 de Março de 1868 - Lisboa, 1 de Janeiro de 1946)

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