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2016-08-05

AUTORRETRATO - Antonio Miranda


Às vezes sou um, às vezes sou outro:
todo mundo é assim, ou é assado.

Eu, sem fugir à regra, transgredi.

Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro
—um para dentro, outro para os outros
mas, confesso, sou igual a todos
num disfarce que é a outra face
de uma falsa dicotomia.

Maniqueísmos? Planger ou prazer?

Nem religioso eu sou, nem romântico,
muito menos ideólogo ou assumido
de qualquer coisa, na minha infidelidade,
falta de fé. E, no entanto, obstinado
quase otimista porque realista
- na reversão da contradição.

Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf
o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray
fui herói de histórias em quadrinhos
namorei estrelas de Hollywood ou,
mais terrestre, da Vera Cruz e da Atlântida
ganhei o Prêmio Nobel, a Comenda Maior
da Confraria dos Poetas Ególatras e Suicidas.

Li uma montanha inexpugnável de livros
tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade
subi, letra a letra, degraus estonteantes
delirantes, construindo arquiteturas etéreas
no círculo vicioso das virtualidades banais.

Deveria rasgar todas as frases deletérias
todas as imprecações, todas as contrafações
verbais e venais que produzi – lixo execrável.

Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez
de minha insensatez, minhas impropriedades
mas sempre tenho a firmeza dos inseguros
enquanto os crédulos, os convictos
não resistem às próprias contradições.

Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.
No mais, sou casto na minha perversidade.
Sou beato na minha mais íntima heresia.
E mais despretensioso do que a minha soberba.

Quero dizer: no fundo sou inseguro e fiel
a princípios de que nem participo.

Deu para entender? Nem Deus pressente
aquela dor que finjo que deveras sinto
ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.

Vou na contra-mão da ordem estabelecida
mas, disfarçando, eu vou é de costas
e não estou sozinho, participando assim
de uma nova modalidade olímpica ou acadêmica.

Os que são de Bacabal que me sigam
os que usam botas de ferro, brinco de osso
que rezam constrangidos, os desamados
os sem-biblioteca, os sem sentido.

Extraído daqui

Antônio Lisboa Carvalho de Miranda (Bacabal, Maranhão, 5 de agosto de 1940)