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2016-03-19

Poema Suspirado - Rui Diniz

Coimbra Night View - by adores (daqui)

Algures, num momento de silêncio,
neste campo aberto que é a minha vida,
de noite,
sempre de noite – quando a magia acontece,
surge uma forma no vento
e nele,
um poema suspirado.
É certo que os poemas são mesmo efémeros
e as palavras um dia serão nada,
desaparecerão no esquecimento das eras
tal como as peles que vestimos
e os nomes que ostentamos.
O poema que é teu,
trazido pela brisa que na relva fresca te desenha,
um dia não será mais que outra coisa,
acompanhando-nos,
na impiedosa sucessão de formas e sabores
que provamos
e temos de largar.

Mas esse teu suspiro
e essa tua forma
e esse teu poema
e esse teu sentido (tão próximo do meu)
pintaram-se no quadro do horizonte
deste campo aberto que é a minha vida…
e de noite, sempre de noite – quando a magia acontece,
a realidade perceptível da ilusão do universo
colidirá com nossos fogos,
ardendo em uníssono,
dançando no mesmo vento
que agora desenha nós os dois,
que agora suspira o ar quente da cama embriagada,
que nesse momento se deixa entregar…
no mesmo campo aberto que é a nossa vida
e de noite – quando a magia acontece,
àquela pequena parte de um segundo
de uma eternidade passageira.


in Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano, recolha, selecção e organização de Inês Ramos, prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros

Rui Diniz nasceu a 19 de Março de 1979 em Almada