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2010-03-22

Canção - Cabral do Nascimento

Papoilaimagem daqui

Fui ao mar buscar sardinha
E encontrei uma sereia
«Agora», pensei, é «minha.
Virei mais logo à tardinha
Quando, nos longes da areia,
A negra sombra caminha.»
Mas rompeu a lua cheia
E todos viram que eu vinha...
«Adeus», disse eu. E larguei-a.

Fui ao trigal já maduro
E achei um lindo botão
De papoila, ardente e puro.
«É meu!» declarei então.
«Beijá-lo-ei pelo escuro
nesta vasta solidão.»
Mas vieram, de roldão,
Segadores de olhar duro
Com suas foices na mão.

Fui pelas fragas do monte
E vi a água corrente.
«Hei-de beber desta fonte»,
Disse eu. «É tão transparente!
Oxalá não se amedronte.
Não há nada aqui defronte,
Ninguém nos vê, certamente.»
Mas que quereis que vos conte?
Fui-me embora. Vinha gente.

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil
Adeus
Canção


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