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2015-05-29

LA ROSA AZUL Juan Ramón Jiménez



¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Se me torna celeste la mano, me contagio de otra poesía
Y las rosas de olor, que pongo como ella las ponía, exaltan su color;
y los bellos cojínes, que pongo como ella los ponía, florecen sus jardines;
Y si pongo mi mano -como ella la ponía- en el negro piano,
surge como en un piano muy lejano, mas honda la diaria melodía.

¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
me inclino a los cristales del balcón, con un gesto de ella
y parece que el pobre corazón no está solo.
Miro al jardín de la tarde, como ella,
y el suspiro y la estrella se funden en romántica armonía.

¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Dolorido y con flores, voy, como un héroe de poesía mía.
Por los desiertos corredores que despertaba ella con su blanco paso,
y mis pies son de raso -¡oh! Ausencia hueca y fría!-
y mis pisadas dejan resplandores.

Juan Ramón Jiménez nasceu em Moguer, no sul da Andaluzia, em 23 de dezembro de 1881, morreu a 29 de maio de 1958 (Foi Prémio Nobel da Literatura em 1956).

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2015-05-28

De profundis - José Craveirinha

Extenso dia taciturno de nuvens.
Nas ramadas passarinhos de mágoa
Lacrimejando chilros. Um braçado
Policromo de flores
Perfumado
De profundis
De coroas.

Tão duro
Assim lacónico
Nosso adeus de rosas, Maria.


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
A Nossa Casa
Gumes de Névoa
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor

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2015-05-27

Palavras Palavra ou o Mito de Midas - I - Luís Veiga Leitão


De rosto vário
a alma é uma sílaba
a arder no inferno
e o corpo - peso interno
do vocabulário

De cada palavra um poeta nasce
- fio de saliva a corda da cítara
e o poema faz-se

in Dispersas,1964

Luís Maria Leitão mais conhecido pelo pseudónimo de Luís Veiga Leitão (n. em Moimenta da Beira, 27 de Maio de 1912 — m. Niterói, 9 de Outubro de 1987)

Do mesmo autor:
Homem
Filho do povo criado nas alturas
Dois epigramas

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2015-05-26

A Árvore - Fábio Montenegro

Hirta, negra, espectral, chora talvez. Responde
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...

Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.

Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!

Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!


Fábio Montenegro nasceu em Santos, SP a 26 de maio de 1891 e faleceu a 21 de agosto de 1920.

Do mesmo autor: Abstração

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2015-05-25

D. Quixote - Maria Virgínia Monteiro

Don Quijote de La Mancha and Sancho Panza,
1863 Gustave Doré

Nunca serás dos escolhidos, dos primeiros
(dos bem amados senhores do Absoluto!).
Vestido chegas de saudade, por janeiros,
e arrastas longos teus farrapos e o teu luto.

Mas não te apontem os caminhos verdadeiros
os que possuem da Verdade o usufruto,
os que mantêm, esforçados cavaleiros,
as torres altas da Mudança por reduto!

Cavaleiro apenas és, de esporas rotas,
sem vitórias conseguidas, de armas botas,
pelos caminhos esgrimindo vacilante,

como bálsamo o choro das derrotas
nas feridas, trespassados elmo e cotas,
D. Quixote sem cavalo Rocinante.

Mª VIRGÍNIA Santos Teles Guerra MONTEIRO nasceu em Espinho a 25 de Maio de 1931. Filha do poeta Oliveira Guerra, licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras do Porto e exerceu o magistério no ensino secundário. Poetisa bilingue, publicou: «Mulher de Loth» (1992), «...Ribeiro, teu indício» (1995), «O Silêncio Todo» (2000), «Ces Quelques Lettres Portugaises» e «As Cinzas e as Brisas» (2002), e «Precário Registo» (2003).

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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