Blog Widget by LinkWithin

2015-01-31

Testamento, entre os pinheiros e o mar - José Fernandes Fafe

Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...

E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...


José Fernandes Fafe nasceu no Porto em 31 de janeiro de 1927

Read More...

2015-01-30

SONHANDO... - Júlio Salusse

Se a nossa vida é um lago de serenas
Ondulações, adormecido quando
Por ele passa alegremente o bando
Das multicores e gentis falenas;

Lago azul, onde a aurora molha as penas
Sempre que se levanta, ora banhando
Na fresca matinal as açucenas;

Meu doce amor, enquanto não morremos,
Como dois cisnes plácidos vaguemos
Sobre as águas tranquilas e azuladas,

Ouvindo ao longe o suspirar do vento
E contemplemos o azul do firmamento
Nas misteriosas noites estreladas.


JÚLIO Mário SALUSSE nasceu em Bom Jardim (RJ) a 30 de março de 1872 e morreu no Rio de Janeiro a 30 de janeiro de 1948

Do mesmo autor o famoso soneto: Os Cisnes

Read More...

2015-01-29

Tudo quanto Sonhei se Foi Perdido - Francisco Bugalho


O que sonhei e antes de vivido
Era perfeito e lúcido e divino,
Tudo quanto sonhei se foi perdido
Nas ondas caprichosas do destino.

Que os fados em mim mesmo depuseram
Razões de ser e de não ser, contrárias,
Nas emoções que, dentro em mim, cresceram
Tumultuosas, carinhosas, várias.

Naqueles seres que fui dentro de um ser,
Que viveram de mais para eu viver
A minha vida luminosa e calma,

Se desdobraram gestos de menino
E rudes arremedos de assassino.
Foram almas de mais numa só alma.

in "Dispersos e Inéditos"

Francisco José Lahmeyer Bugalho nascido a 26 de julho de 1905, no Porto, e falecido a 29 de janeiro de 1949, em Castelo de Vide

Nota do webmaster: Sabia que Francisco Bugalho foi o pai do poeta Cristovam Pavia?

Read More...

2015-01-28

Chama da Vida - Filinto de Almeida (na passagem do septagésimo aniversário do seu desaparecimento)

Dá-me a tua mão, Amiga, e vamos indo
alegremente pela estrada fora.
É já tarde, e o crepúsculo é tão lindo
como foi o dilúculo da aurora.

Vamos subindo devagar, agora;
dá-me o teu braço, assim, vamos subindo...
Repara: é o mesmo Sol de amor de outrora
que ainda no poente ao longe está fulgindo...

Virá depois o luar e, de seguida
clarões de estrelas com que o céu se inflama...
E os clarões, e o luar, e o Sol, querida,

são várias formas de uma mesma chama
que está dentro de nós, - chama da Vida
que rebenta no peito de quem ama.


Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 de dezembro 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1945).

Read More...

2015-01-27

Ode órfica I (estrofes iniciais) - Santo Souza

Era tão clara a tua voz,
e tão limpo o teu canto inaugural, ó noite,
que o tempo adormecia em tuas mãos!
De início, rejeitamos teus conselhos
dissimulados. Nautas fugitivos,
eis que a nave de Orfeu, que pilotávamos,
não nos pertence mais, pois a ofertamos
àqueles que hão de vir colher conosco
a treva e o medo, embora eles, no lago,
com a vida e as águas entre os braços, nos
surpreendam no triângulo da morte,
os olhos florescendo como peixes
que o teu milagre, ó noite, fecundou!

Transportamos pirâmides nos ombros,
para, sobre elas, construir o mundo
que nós, por sermos livres, sugerimos.
De música fizemos nossos mares,
para conter o céu que nos persegue.
Mas somos frágeis para suportar
a cabeça do Eterno, que se inclina
sonhando sobre nós, enquanto vamos,
ladrões famintos, carregando sombras.
Morrer? Não era a morte o que sonhávamos.
Somos pobres demais para morrer
com tanto ouro nas mãos, tanto arco-íris
nos olhos desta aurora que engendramos...


in Ode Órfica

José Santo Souza (n. em Riachuelo, Sergipe a 27 de janeiro de 1919; m. em Aracaju a 18 de abril de 2014)

Read More...