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2014-08-31

Intangível - Charles Baudelaire

Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrando-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdém, que te faz mais bonita!


Tradução de Delfim Guimarães
in As Flores do Mal

Charles-Pierre Baudelaire (nasceu a 9 de Abril de 1821 em Paris, m. 31 de Agosto de 1867)

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2014-08-29

O QUERER - Manuel Machado



Tua boca rubra e fresca
beijo, e a sede não se apaga:
que em cada beijo quisera
beber toda a tua alma.

Enamorei-me de ti;
e é doença tão má
que dizem os que se amam
que nem com a morte acaba.

Ponho-me louco se escuto
o rumor da tua saia;
e o roçar da tua mão
dá-me vida e depois mata-me.

Eu quisera ser o ar
que toda inteira te abraça;
eu quisera ser o sangue
que corre em tuas entranhas.

São as linhas do teu corpo
modelo das minhas ânsias,
o caminho dos meus beijos
e o íman do meu olhar.

Sinto, ao cingir tua cinta,
uma dúvida que mata:
quisera ter, num abraço,
todo o teu corpo e tua alma.

Estou doente de ti;
da cura não tenho esperança:
na sede deste amor louco
és minha sede e minha água.

Maldito seja o momento
em que entrei em tua casa,
em que vi teus olhos negros,
beijei-te a boca escarlate.

Maldita seja esta sede,
maldita seja esta água!..
Maldito seja o veneno
que envenena e que não mata!


in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento - Documenta Poética, Assírio & Alvim

Manuel Machado y Ruiz (n. Seville, 29 ago. 1874; m. Madrid, 19 jan. 1947)

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2014-08-28

Cantiga - Sá de Miranda

Azulejos in Casa do Barreiro, Gemieira, Viana do Castelo Portugal.

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
de vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?



Francisco de Sá de Miranda n. em Coimbra a 28 de agosto 1481 - m. em Amares a 15 de março de 1558)

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Happy Birthday: Sarah Roemer


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2014-08-27

ESTELA E NIZE - Alvarenga Peixoto

Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços,
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!

Inácio José de Alvarenga Peixoto (Rio de Janeiro, 1 de fevereiro 1742/1744 — Ambaca, Angola, 27 de agosto 1792 ou 1 de janeiro 1793)

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