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2013-03-29

ANTÓNIO DE OLIVEIRA - Fernando Pessoa

ANTÓNIO DE OLIVEIRA Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem…

ESTE SENHOR SALAZAR
é feito de sal e azar
Se um dia chove,
a água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica o azar, é natural…

Oh, c’os diabos
Parece que já choveu…

29-3-1935

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2013-03-28

Estou aqui. Há quanto tempo - Luís de Miranda Rocha

Estou aqui. Há quanto tempo,
já não sei. Minha memória,
sobre ti me reclino, o meu olhar
já tão deserto. E povoado.


Do livro As Mãos no Ar, 1976

Luís de Miranda Rocha, jornalista, crítico literário e poeta nasceu em Mira em 1947 e faleceu em Coimbra a 28 de Março de 2007

Ler do mesmo autor: Se te falasse se me ouvisses eu

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A jantar, tarde - Fernando Semana

Estava a jantar,
tarde,
a comer
arroz de legumes;
de repente,
o olhar
- que não mente -
arde
a ver tudo verde,
e as couves a converterem-se
em facas de dois gumes.

Fernando Semana, economista, nasceu em 12 de outubro de 1957, em Valbom do concelho de Gondomar

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2013-03-27

Cilada Verbal - Affonso Romano de Sant'Anna

Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
– envenenada.

Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
– na sintaxe da emboscada.

Affonso Romano de Sant'Anna (Belo Horizonte, 27 de março de 1937)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Homem e a Morte
Silêncio Amoroso
Arte-final

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2013-03-26

O saber do poeta - Mário Cabral

O Saber do Poeta consiste em ter na mão uma gema de ovo
Ver na gema de ovo o sol e sofrer queimadura de terceiro grau
Ter a palma da mão puro espelho reflexifulgente
Obrigar, portanto, a linguagem, como se vê, a reflectir
A reflexão do Poeta é a que vê mais perto:
Vai da gema para o sol, vai da gema para a pedra preciosa
Vai da gema para as chagas de Cristo
Vai da gema para o Conhecimento gemelar de todo o Ser.
E pela queimadura da mão entra no corpo o sol
Incendeia a mente do Poeta que, porque mente
E a esta escala, não pode ser levado muito a sério
Por quem se encontre em patamar inferior da escada.
O Poeta grita alto, ele avisa do alto do altíssimo:
- Não se aproximem dos ovos! E o eco justamente repercute:
- Aproximem dos olhos! Aproximem dos olhos!
Ao mesmo tempo mostra a palma da mão livre. Pretende exemplificar
O Universo inteiro está nas linhas deste mapa que respira.
De algum modo o povo reconhece o Saber do Poeta
Há que ser apenas um a salvar o Pai sol do anonimato;
Reconhece o sangue frio do toureiro e, por conseguinte, nos dias de festa
O Poeta deixa a cozinha, enverga o traje da Luz, entra na arena
Uma arena é ainda uma gema, percebe-se pelo som das palavras.
Vitorioso, a corrida é paga com cestas e cestas de ovos e ovos
Que o Poeta leva para o alto, para o altíssimo
Vai acompanhado por um aprendiz que deixa a família a chorar
No alto do altíssimo vai chocar os ovos e de cada ovo
Uma estrela e é por isso que nesta língua circular
Se chamam céus estrelados aos céus da felicidade
Da plena felicidade, da plena felicidade.

Mário Cabral, nasceu na ilha Terceira, em 1963

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