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2017-03-14

Passaste como a estrela matutina - José Maria Amaral

imagem daqui

Passaste como a estrela matutina,
que se some na luz pura da aurora;
da vida só viveste aquela hora
em que a existência em flor luz sem neblina.

Ver-te e perder-te! De tão triste sina
não passa a mágoa em mim, antes piora;
sem ver-te já, minh'alma 'inda te adora
em triste culto que a saudade ensina.

Não vivo aqui; a vida em ti só ponho.
Na fé, de Cristo filha, a dor abrigo;
futuro em ti no céu vejo risonho!

Neste mundo, meu mundo é teu jazigo;
dizem que a vida é triste e falaz sonho;
se é sonho a vida, sonharei contigo.

JOSÉ MARIA DO AMARAL nasceu no Rio de Janeiro a 14 de Março de 1813 e faleceu em Niterói (RJ) a 23 de Setembro de 1885. Diplomado em Direito e Medicina por Paris, seguiu a carreira diplomática (Paris, Washington, capitais sul-americanas). Foi conselheiro do Império e deixou toda a sua obra dispersa por jornais e revistas. No fim da vida, a dúvida e o desespero atormentaram-no. O soneto, que incluímos, é dedicado à morte de uma filha.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2017-03-13

Itervm - Tristão da Cunha

Há muito tempo já que eu vou perdendo
os sonhos, um a um, pelo caminho:
- Sangue dum anho ingênuo, cor d'arminho,
de calvário em calvário perecendo.

No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
diante de mim cantando como um ninho,
fria beijou-me o rubro desalinho,
e atrás de mim no escuro foi descendo.

Hoje os olhos se voltam como preces
para as memórias, em que há luas mortas,
e tu, morta, que morta não pareces!

Sobre esta alma de dúvida e agonias
caia a luz desses olhos, dessas portas
onde esperam o sol as almas frias.


Tristão da Cunha (n. no Rio de Janeiro em 13 de Março de 1878; m. a 29 de Junho de 1942).

TRISTÃO DA CUNHA foi o pseudónimo escolhido por José Maria Leitão da Cunha F.º, que, em 13 de Março de 1878 nasceu no Rio de Janeiro, onde morreu a 29 de Junho de 1942. Aluno da faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, concluiu o bacharelato em 1900. Advogado, poeta e prosador (contos e ensaios), redigiu de 1910 a 1928 a secção brasileira da revista simbolista «Mercure de France». Tímido e arredio, conciliava um ideário político democrático com uma sensibilidade aristocrática, o requinte esteticista e o refinamento da linguagem com uma espontaneidade e fluência eivada de melancolia. Um título significativo: «Torre de Marfim» (1901).

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2017-03-10

Noite - Vasco de Lima Couto [na voz de Max]

Sou da noite um filho noite
Trago ruas nos meus dedos
De guardarem os segredos
Nas altas pontes do amor

E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor

Refrão:
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

Oh minha mãe de arvoredos
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
A minha voz soluçar

Dei-te um corpo de segredos
Onde arrisquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia ao luar

Refrão:
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

Letra de Vasco Lima Couto, Música de Max

Vasco de Lima Couto (n. Porto, 26 de novembro de 1923 - m. Lisboa, 10 de março de 1980)

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2017-03-09

A NAU PERDIDA - Álvaro Feijó



Pobre, lá vai! Que rombo no costado!
Como a água a penetra aos borbotões!
Açoita-a, em fúria, o Mar. Adorna ao lado.
Anda à mercê das vagas, dos tufões!
Mas segue, segue em frente. O vento a ajuda!
Galga nas ondas, que doidinha, olhai!...
Julga-se, ainda, a nau que dantes era,
por levar, no porão, uma quimera,
por ir, do vento na refrega aguda,
ovante e sem saber per'onde vai!

Julga-se, ainda, a nau que dantes era...
– o que passa não torna...
Na pobre nau perdida
a água entra e a adorna.
Vai sendo, aos poucos, pelo mar sorvida.

Na agonia estrebucha. Num desejo
de vida e luz, arfante, desesperada,
busca furtar-se ao comprimente beijo
do Mar que a envolve. – Após, é o Mar e nada...

Doirado como um astro,
haste esquecida em campo onde as mondas
colheram tudo, o topo do seu mastro
fica esperando ainda sobre as ondas.

Na rota pelo mundo
– ao deus-dará na vaga azul e infinda –
nós vamos – nau perdida em Mar profundo –
joguetes do tufão;
mas conservando, ainda,
na última Esperança a última Ilusão.

Álvaro Feijó nasceu em Viana do Castelo em 5 de julho de 1916 e faleceu em Coimbra em 9 de março de 1941

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2017-03-08

TENTAÇÃO - Ruy Cinatti


A noite incandescente e turva
de luzes de néon, de portas que se abrem
e penetram o escuro de uma noite
que julga estar subindo escadas,
afigura-se-me oculta
como tantas outras infinitas coisas
— vozes vindas dos corredores da infância.

in tempo da cidade, Lisboa: Editorial Presença, colecção forma, 1996

Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes (Londres, 8 de março de 1915 — Lisboa, 12 de outubro de 1986)

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