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2017-01-06

SONETO XXXI - Reis Quita



Quando em meu desvelado pensamento
O teu formoso gesto se afigura,
Não sei que afecto sinto, ou que ternura,
Que a toda esta alma dá contentamento.

Ali fico num largo esquecimento,
Contemplando na minha conjectura
De teu sereno rosto a graça pura,
De teus olhos o doce movimento.

Porém logo a inconstante fantasia
Me acorda o entendimento arrebatado,
E desfaz todo o bem que me fingia,

Sendo tal este gosto imaginado,
Que de Amor outra glória eu não queria
Mais que trazer-te sempre em meu cuidado.


Domingos dos REIS QUITA nasceu em Lisboa a 6 de Janeiro de 1728 e aí morreu, tuberculoso, a 26 de Agosto de 1770.

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2017-01-05

Ponderação do Rosto e Olhos de Anarda - Manuel Botelho de Oliveira

Quando vejo de Anarda o rosto amado,
Vejo ao céu e ao jardim ser parecido
Porque no assombro do primor luzido
Tem o sol em seus olhos duplicado.

Nas faces considero equivocado
De açucenas e rosas o vestido;
Porque se vê nas faces reduzido
Todo o império de flora venerado.

Nos olhos e nas faces mais galharda
Ao céu prefere quando inflama os raios,
E prefere ao jardim, se as flores guarda:

Enfim dando ao jardim e ao céu desmaios,
O céu ostenta um sol, dois sóis Anarda,
Um maio o jardim logra; ela dous maios.

Extraído de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora
Manuel Botelho de Oliveira (n. Salvador, Bahia, Brasil, 1636 — m. Salvador, 5 de janeiro de 1711)

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2017-01-04

Quando ?!... - Casimiro de Abreu

Não era belo, Maria,
Aquele tempo de amores,
Quando o mundo nos sorria,
Quando a terra era só flores
Da vida na primavera?
- Era!

Não tinha o prado mais rosas,
O sabiá mais gorjeios,
O céu mais nuvens formosas,
E mais puros devaneios,
A tua alma inocentinha?
- Tinha!

E como achavas, Maria,
Aqueles doces instantes
De poética harmonia
Em que as brisas doudejantes
Folgavam nos teus cabelos?
- Belos!

Como tremias oh! Vida,
Se em mim os olhos fitavas!
Como eras linda, querida,
Quando d'amor suspiravas
Naquela encantada aurora!
- Ora!

E diz-me: não te recordas
- Debaixo do cajueiro -
Lá da lagoa nas bordas
Aquele beijo primeiro?
Ia o dia já findando ...
- Quando?!...

Casimiro José Marques de Abreu (n. na fazenda da Prata, no atual município de Silva Jardim (RJ), em 4 de janeiro de 1839; m. na fazenda do Indaiaçu, no atual município de Casimiro de Abreu (RJ), em 18 de outubro de 1860).

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2017-01-03

o soneto encontrado na garrafa - Vasco da Graça Moura

Ilha desertaIlha deserta foto daqui

é a ti que eu quero nesta ilha deserta:
livro nenhum, quadro nenhum, nem disco
(gosto de tanta coisa que faísco
mas a escolher assim nunca se acerta).

quero trazer-te a ti, ágil, desperta,
despenteadamente a cada risco,
e viver de algas, peixe e marisco
e nunca mais fazer sinais de alerta

e os navios ao longe ver passar,
enquanto a roupa seca na palmeira
(esta ilha tem uma, de maneira
que não é só rochedo e à roda o mar).

e tu entre corais, náufraga e nua,
a boiar no meu peito à luz da lua.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento-Fialho; Ministério dos Livros

Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro, Porto, a 3 de Janeiro de 1942 e faleceu em Lisboa a 27 de abril de 2014.

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2017-01-02

Descansa, borboleta branca - Eduardo Guerra Carneiro

Borboleta Branca


Descansa, borboleta branca,
em minhas mãos abertas e retoma
o teu breve voar de um só dia.
Vens da noite misteriosa, espírito
de outro corpo. Que luz
de súbito se faz nesta loucura?
Melancolia, talvez, morte
chorada. Lanço-te ao vento.
Para que o fogo não volte
a queimar-te as asas.
A medo, terror mesmo, horas passadas,
olho-te tombada nesta sala.
Regressaste aqui, para morrer.
Mas à vida te devolvo. Voa, borboleta!


Eduardo Guerra Carneiro (n. em Chaves, a 4 de outubro de 1942; m. Lisboa a 2 de janeiro de 2004)

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