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2014-10-05

Soneto [Que aziago que foi, que dia infausto] - Cruz e Silva

Que aziago que foi, que dia infausto
Aquele, em que vi tua formosura!
Em que cheio de amor e de ternura
Esta alma te ofertei em holocausto!

Teus olhos m'o fizeram ter por fausto,
Teus belos olhos cheios de doçura,
Mas logo me fez ver minha loucura
Teu peito de rigores nunca exausto.

Ai! e quão mesquinho é, quão desgraçado
Aquele, que como as mostras vão se engana
De um angélico rosto sossegado!

Pois mil vezes encobre a vista humana
Qual áspide cruel florido prado,
Um coração uma alma desumana.


António Dinis da Cruz e Silva (n. em Lisboa a 4 Jul 1731, m. no Rio de Janeiro a 5 Out 1799)

Do mesmo autor:
É estas porventura a praia amena

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2014-10-04

O Vento - José-Alberto Marques


o vento a estrada prefiro a estrada
o vento a tarde prefiro o sol
o vento o sol pássaros voando
a estrada a esperança construo o tempo

o vento o risco prefiro o sangue
o sangue o verde prefiro a árvore
o vento o homerm invoco o tempo
o tempo o sangue construo a esperança

os braços lábios prefiro a voz
os braços vento prefiro os braços
espaços canto invento o sonho
o sonho pássaros vento cantando

o sino a tarde encontro a noite
crepúsculo a tarde prefiro o sul
o sino o vento o vento encontro
na estrada pássaros voando azul

José Alberto Marques nasceu em 4 de outubro de 1939 em Torres Novas.

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2014-10-03

SONETO FUTURISTA - Carlos de Laet

Noite. Calor. Concerto nos telhados.
Cubos esferoidais. Gatas e gatos.
Vênus. Graças. Aranhas. Carrapatos.
Melindrosas. Poetas assanhados.

Rabanetes azuis. Sóis encarnados.
Comida no alguidar. Cuspo nos pratos.
Três rondas a cavalo. Mil boatos.
Prosa sesquipedal. Tropos safados.

Avenida deserta. Bondes. Grama.
Chopes Fidalga. Leite. Pão-de-ló.
Carros de irrigação. Salpicos. Lama.

Vacas magras. Esfinge. Triste. Só.
Tumor mole. São Paulo. Telegrama.
Dois secretas. Cubismo. Xilindró.


Este soneto satírico teria por alvo o futurismo representado por Graça Aranha, a propósito duma conspiração abortada (segundo Idel Becker, Graça Aranha enviara a São Paulo um telegrama cifrado, anunciando o imediato estouro dum movimento revolucionário. Dizia o telegrama: "Tumor mole virá a furo esta noite". A polícia traduziu corretamente; e prendeu o Graça Aranha. Laet comentou, então: "O Aranha publicou um livro simbólico, CANAÃ, que ninguém compreendeu... Agora faz um telegrama secreto, que todo o mundo decifrou. Obscuro, quando quer a claridade; diáfano, quando busca o mistério. Que estilista!")

Extraído daqui

Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (Rio de Janeiro, 3 de outubro de 1847 — Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1927)

Ler do mesmo autor: Triste Filosofia

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2014-10-02

¿Para qué? - Xosé María Díaz Castro


EU ámote. E noustante,
non sei por que entras ti na
miña vida,
ti tan branca e tan fría.
¿Eu sempre a patinar sobre o
teu xelo?
¿Sempre a xogar contigo? Pro
¿pra qué?

Extraído de Cartafol de Traducións e Outros Poemas. Homenaxe do Consello da Cultura Galega, XXIV

Xosé María Díaz Castro, nascido em Guitiriz (Galiza) em 19 de fevereiro de 1914 e falecido em Lugo em 2 de outubro de 1990

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2014-10-01

Perdi-te numa manhã clara de junho... - José Rui Teixeira (na passagem do 40º aniversário)

perdi-te numa manhã clara de junho em
que imaginei que estarias comigo
corrias num horizonte azul
que só mais tarde descobri ser teu
e dei comigo enraizado na terra
de um sonho em que julguei que fosses minha


in Quando o Verão Acabar, Vila Nova de Famalicão, Quasi edições, 2002

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
Trago dentro de mim um mar imenso

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