Blog Widget by LinkWithin

2020-09-02

Poesia de provérbios

É mais fácil aconselhar do que praticar.
É mais fácil pensar do que dizer.
É mais fácil demolir do que edificar. 
É mais fácil presumir do que saber. 

É mais fácil prometer do que dar. 
É mais fácil tomar que restituir.
É mais fácil um boi voar. 
Falar verdade a mentir. 

Falas-me a gagejar, estás-me a enganar. 
Trigo de Janeiro engorda o carneiro.
Faz bem jejuar depois de jantar.
Não há amor como o primeiro. 


Cada verso é um provérbio! Composição de Fernando Semana 

Provérbios retirados de: Rifoneiro português, Pedro Chaves, Editorial Domingos Barreira 
O Grande Livro dos Provérbios, José Pedro Machado, Círculo de Leitores

Read More...

2020-08-27

Eu vi a linda Estela, e namorado - Alvarenga Peixoto


Eu vi a linda Estela, e namorado 
Fiz logo eterno voto de querê-la; 
Mas vi depois a Nize, e é tão bela, 
Que merece igualmente o meu cuidado. 

A qual escolherei, se neste estado 
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado. 

Mas, ah! que aquela me despreza amante, 
Pois sabe que estou preso em outros braços, 
E esta não me quer por inconstante. 

Vem, Cupido, soltar-me destes laços, 
Ou faz de dois semblantes um semblante, 
Ou divide o meu peito em dois pedaços!


Inácio José de Alvarenga Peixoto (Rio de Janeiro, 1 de fevereiro 1744 — Ambaca, Angola, 27 de agosto 1792 ou 1 de janeiro de 1793)

Read More...

2020-08-16

E a Vida foi, e é assim, e não melhora - António Nobre

E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!
Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do Além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição.
Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz.
Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da Morte e que se chama A Paz

António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi  vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de Março de  1900).

Read More...

2020-06-18

José Saramago, o nosso Nobel da Literatura faleceu há dez anos


Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida:«O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

José de Sousa Saramago nasceu na Azinhaga, Golegã, 16 de novembro de 1922 — f. Tías, Lanzarote, Espanha a 18 de junho de 2010

Read More...

2020-06-16

Canção amarga - David Mourão-Ferreira



Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro 1927 – Lisboa, 16 de junho 1996)

Read More...

2020-05-19

.Quand on ne s'aime plus - Julio Dantas


Ponto final. Adeus. Tinha previsto o fim.
Quiz muito, quiz demais... O culpado fui eu.
Se é que póde morrer o que nunca viveu,
Sinto que morreu hoje o teu amor por mim.

Fiz mal em vir? Talvez. Quizeste vêr-me: vim.
Que placidez a tua e que sorriso o teu!
Amor que raciocina é amor que morreu.
Pode lá nunca amar quem se domina assim!

Tinha de ser. Adeus. Deixas-me triste e doente.
Depois, qual é o amor que vive eternamente?
Tudo envelhece, e passa, e morre como tu.

Nunca mais me verás. É a vida, afinal.
Dá-me o ultimo beijo e não me queiras mal...
Il faut rompre en pleurant quand cn ne s'aime plus.


manteve-se a grafia constante da publicação
in Revista ATLANTIDA, Nº. 1, 15 de Novembro de 1915, Lisboa

Júlio Dantas (Lagos, 19 de maio de 1876 — Lisboa, 25 de maio de 1962)

Read More...

2020-05-05

Anunciação - Luís Amaro


Imprecisa e grácil te imagino
Rasgando de esperança a noite enorme
E iluminando o coração soturno
Que mora, exilado, em mim.

Teu vulto vence a névoa do crepúsculo
e detém meus passos sem destino
A beira da noite hiante e pálida
Com, lá no fundo, a minha imagem
Desfigurada e triste, arrependida...

E tua lembrança é o perdão, a luz,
A vida que desponta nas raízes
Mais íntimas do ser.

Vens, irreal e presente, ao meu encontro,
Cabelos soltos ao vento da manhã,
E dos teus lábios desprende-se a Palavra...

Flui de teus olhos a música das fontes!

in «Poesia 71»,
Porto: Editorial Nova, 1972

Francisco Luís Amaro, nasceu em Aljustrel, em 05 de maio de 1923; m. Lisboa, 24 de agosto de 2018.

Read More...

2020-03-05

PRECE - Pedro Homem de Mello


Talvez que eu morra na praia
Cercado em pérfido banho
Por toda a espuma da praia
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho

Talvez que eu morra na rua
Ínvia por mim de repente
Em noite fria sem lua
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente

Talvez que eu morra entre grades
No meio duma prisão
E que o mundo além das grades
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração

[Talvez que eu morra dum tiro
Castigo de algum desejo
E que à mercê desse tiro
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo]

Talvez que eu morra no leito
Onde a morte é natural
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que morra em Portugal

in Adeus [1951]

Extraído de O Fado da Tua Voz, Amália e os Poetas, Vítor Pavão dos Santos
Bertrand Editora

Read More...

2020-03-04

CIRCE - Eugénio de Castro

Minh'alma, onde se miravam rosas,
É hoje, Lídia do meu coração,
Um altar de primeira comunhão
Enfeitado com plantas venenosas.

Meus desejos, noviças cor de lua,
Passeando andavam entre esbeltos lírios,
Quando apareceste serpentina e nua,
Derramadora de letais delírios.

Viram-te os puros como a aurora,
E, deslumbrados pelo sol do teu cabelo,
Foram atrás de ti, cisnes de prata e gelo,
Atrás da guardadora.

Tu lhes disseste coisas de endoidar
Ascetas e abadessas...
Como em taças de ouro, nas suas cabeças,
Simbólicos jasmins fanaram-se a chorar.

Nos braços das luxúrias condenadas
Foram deitar-se os meus amores,
Como róseas Princesas invioladas
Oferecendo-se aos salteadores.

Minha inocência chora sangue sob os teus beijos,
Como fria cabeça espetada num poste...
Lídia! qual Circe foste:
- Em porcos transformaste os meus puros desejos!

Extraído de 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal

Eugénio de Castro (n. em Coimbra a 4 de março de 1869; m. em Coimbra, a 17 de agosto de 1944)

Read More...

2020-02-25

Eu, que sou feio...- Cesário Verde


Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, Madalena, 25 de fevereiro de 1855 — Lisboa, Lumiar, 19 de julho de 1886)

Read More...

2020-02-22

Nos teus gestos... - Joaquim Pessoa


Nos teus gestos há animais em liberdade
e o brilho doce que só têm as cerejas.
É neles que adormeço, e dos teus dedos
retiro a luz azul dos arquipélagos.

Os teus gestos são letras, sílabas, poemas.
Os teus gestos são páginas inteiras. São
a tua boca a namorar na minha boca,
o cio dos séculos a saudar o tempo.

São os teus gestos que me acordam. Gestos
que vestem o silêncio fundo das ravinas
e assinalam a água dos desertos.

Os teus gestos são música. São lume.
São a respiração do teu olhar. A seara
de espigas que ondula no meu corpo.


Joaquim Maria Pessoa nasceu no Barreiro a 22 de Fevereiro de 1948

Read More...

2020-02-17

O BARÃO E O DOUTOR - Xavier de Novais (que nasceu faz hoje 200 anos)

B. – Senhor Doutor, dá licença? –
D. – Não sei quem é que está aí! –
B. – Seu criado – eu vou entrando…
D. – Oh! Vossência por aqui!

A Senhora Baronesa
Como passa? – Tem saúde?…
Quis ir ontem visitá-la…
Tive que fazer, não pude.

B. – Eu le digo… vai andando;
Mas sempre com suas teimas,
Não quer tomar o remédio
Que le deu pras almorreimas!

Tem-se queixado do Omnibus,
Anda muito incomodada;
Mas tem lá seus carrapichos,
E então, não quer tomar nada.

D. – Pois, Senhor, queira Vossência
Ver se pode resolvê-la
A entregar-se à Medicina,
Que eu amanhã irei vê-la.

Vá-lhe dando alguns passeios,
Roubando-a à meditação;
Que é sempre, nessas moléstias,
Proveitosa a distração.

B. – Ai… bô… bô!… alguns passeios!…
Ela em casa nunca está;
Não há por i uma festa
Onde eu com ela não vá!

Já foi à Foz ver o hydroppico,
E onte fomos ó triato;
E por sinal, que chegamos
No fim do purmeiro acto.

A propósto, meu amigo,
Que me diz à Companhia?
Aquela Lucrécia Borges
Foi bem… apois não iria?

Olhe qu’aquele… o… Finório,
Qu’é cunhado da Jordana,
Canta bem… é bô maritmo,
E nunca… nunca se engana!

E o outro tenor baixito,
Chamo-le o basso profundo,
Tamém é bô … e bem mostra
Que tem pratega do mundo.

E a Jordana! Isso é que canta
Com’eu inda não ouvi!
Não sei por que esses janotas
Dão mais palmas à Ponti!

D. – A Ponti é como artista
Cousa muito sup’rior,
B. – O quê?… melhor qu’a Jordana?…
Nada… nada… não senhor!

A Ponti, não gosto dela;
– Não digo qu’é mau contralto;
Mas é muito presumida…
A outra canta mais alto.

Não faz uns tais gargarejos;
Mas quem sabe o que ela foi?…
Tem um cantar grosso e forte,
Qu’as vezes parece um boi!

Quando, há dias, dava palmas
À Ponti, certo magote,
Enfim – pequenas misérias –
Disse eu lá do cambarote.

É gente que não entende,
Gosta duma bacatela;
A Ponti se é boa dama,
Eu não engraço com ela!

Diga-me – que livro é esse,
Que lia quando eu cheguei?
D. – Era o Hahnemann. – B. – Conheço,
Grande poeta… bem sei!

O Senhor Doutor se lesse
A Fremosa Mangalona,
Havia de gostar muito;
Olhe que é muito ratona!

E quando quiser bons livros
Faça favor d’ir por lá:
Também tenho o Calros Mano…
Eu l’os mandarei pra cá.

D. – São bons livros – eu conheço-o;
Fico obrigado a Vossência;
Mas o tempo que me resta
Emprego-o só na ciência.

B. – Na ciência?… e é bô livro?
E quantos balumes tem?…
Ah!… já sei… eu ‘stava tolo…
São quatro… tenho-os tamém!

Olhe que eu sou dado às letras,
E gosto de me istruir:
Pois de falar?… quando falo
Todos gostam de m’ouvir.

Mas passemos a oitra coisa:
Estes retratos quem são?
Vamos cá dar volta à sala,
E faça-me a explicação.

Daquele estão-me a dar ares;
Não será um meu besinho?
D. – É Lamennais. – B. É o mesmo,
Já lhe merquei muito binho.

Ora diga-me – e aquele
Que tem anéis no cabelo?
Aquele home é estrangeiro,
Que eu não me lembro de vê-lo.

D. – De certo não, que é antigo,
Já não é dos tempos seus;
Nem é possível, Vossência
Ter visto o Rei dos Judeus.

B. – O Rei dos Judeus! – É este? –
Oh que soberbo tratante!
Não sei como quer em casa
Um retrato semelhante!…

Eu cá sou escrupuloso
Nisto de religião:
O Rei dos Judeus! – Arruda!
E na casa dum cristão!…

Este sim… não é o Bispo?…
O D. Jiromeno? … é…
Morreu… coitado… era um home
Em que eu tinha muita fé.

E por via das exéquias…
Por se meter a pregar,
É que se foi… que era rijo,
Inda podia durar.

D. – Eu não sei que lhe viesse
Daí, moléstia de morte!
Com o estudo… a vigília…
Podia bem, que era forte!

B. – Mas olhe cá, meu amigo,
Aqui pra nós: – qu’ é vigília?…
D. – Falta de sono. – B. – Isso, isso…
Tudo por causa da Emília…

Um home que tem idade
E quer fazer de rapaz,
Metido nesses excessos,
Não sabe a asneira que faz!

Enfim, Doutor, vou-me à praça,
Que deve agora estar cheia:
– Até à noite, qu’ habemos
De bêr-nos na Sumboleia.

in A vespa do Parnaso, 1854

Faustino Xavier de Novais nasceu a 17 de fevereiro de 1820, no Porto, e faleceu a 16 de agosto de 1869, no Rio de Janeiro, Brasil.

Read More...

2020-01-27

Ilha dos Amores - Vasco da Gama Rodrigues (nos 111 anos do nascimento)

Lagoa das Sete Cidades, Açores

No vivo Mar Salgado concebida,
Entre remotas ondas balouçando,
E num manto de lendas rrepousando
Persiste oculta a Ilha Adormecida.

Ali onde sonhavam já perdida,
Ansioso de saudade alguém pairando,
Seu belo corpo inerte assinalando
O vê desnudo sem o Ar da Vida.

Sitiado pelo Reino do Ocidente,
- Lugar de Morte deste mundo certo -
Desfeito o Inferno irrompe o Oriente.

E neste espaço após o fim das dores
- Manhã nova doirando o Mar aberto
- Reluz sagrada a Ilha dos Amores.

(in «O Cristo das Nações», Sintra, 1995)


Vasco da Gama Rodrigues (nasceu em Paul do Mar, concelho da Calheta, Ilha da Madeira a 27 de janeiro de 1909; m. em 3 de Maio de 1991).

Read More...

2019-12-04

MISTERIOSA - Filinto de Almeida


— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?

— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Supondo-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.

De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.

Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.

Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.

Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.

Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.

De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...

Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.

É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.

Nada mais sei. Será uma fada? algum génio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.

Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.

Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 de dezembro de 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1945).

Read More...

2019-11-06

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS - Sophia de Mello Breiner Andresen (no centenário do seu nascimento


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

in Dual

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de novembro de 1919; m. Lisboa, 2 de julho de 2004. Recebeu, entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio de Poesia Max Jakob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana 2003.

Read More...

2019-11-02

Uma Pequenina Luz (no centenário de Jorge de Sena)


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

Read More...

2019-10-17

NASCIMENTO ÚLTIMO - António Ramos Rosa nasceu há 95 anos


Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

Extraído de "Antologia Poética"

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de outubro de 1924; faleceu em Lisboa, 23 de setembro de 2013)

Read More...

Love Godess - Rita Hayworth


Rita Hayworth

Rita Wayworth [Margarita Carmen Cansino] was born on Ocober 17 in Brooklyn, New York, 101 years ago. The Love Goddess left us on May 14, 1987, when she died from Alzheimer's disease.

She was married for five times: Edward C. Judson, Orson Welles, Dick Haymes, Prince Aly Khan and the film director James Hill.

Her Filmography is very extensive and wide: since comedy until drama, since crime until musical. In 1964 she won the Best Actress Golden Glob Award for her play in Circus World.

Let's remember her in The Lady from Shanghai

Rita Hayworth - Please Don't Kiss Me


Read More...

2019-10-01

Morangos - Rui Pires Cabral


No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a música e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
Não estamos mais sábios, não temos
melhores razões. Na viagem necessária
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

in 'Longe da Aldeia'

Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros.

Read More...

2019-09-11

Despondency - Antero de Quental

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade…
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram…

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram…

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa…

Deixá-la ir, a nota desprendida
D’um canto extremo… e a última esperança…
E a vida… e o amor… Deixá-la ir, a vida!


in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade
Selecção, organização e intriodução de José Fanha e José Jorge Letria
Terramar

Antero Tarquínio de Quental (n. Ponta Delgada, S.Miguel, Açores a 18 de abril de 1842; m. em Ponta Delgada a 11 de setembro de 1891)

Read More...