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2012-05-12

Soneto - Manuel Alegre

É preciso saber porque se é triste
é preciso dizer esta tristeza
que nós calamos mas tantas vezes existe
tão inútil em nós tão portuguesa.

É preciso dizê-la é preciso despi-la
é preciso matá-la perguntando
Porquê esta tristeza como e quando
e porquê tão submissão tão tranquila.

Esta tristeza que nos prende em sua teia
esta tristeza aranha esta negra tristeza
que não nos mata nem nos incendeia

antes em nós semeia esta vileza
e envenena o nascer de qualquer ideia.
É preciso matar esta tristeza.

in Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, Círculo de Leitores

Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Grega
E alegre se fez triste
Coisa Amar
Uma Flor de Verde Pinho
Trova do Vento que Passa
As facas
Coração Polar
Trova do Amor Lusíada

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2012-05-11

Velando - Augusto Casimiro

Junto dela, velando... E sonho, e afago
imagens, sonhos, versos comovido...
Vejo-a dormir... O meu olhar é um lago
em que um lírio alvorece reflectido...

Vejo-a dormir e sonho... Só de vê-la
meu olhar se perfuma e, em minha vista,
há um céu de Amor a estremecê-la
e a devoção ansiosa dum Artista...

- Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
das montanhas do céu, - ó sono leve,
hálito de jasmim, lírio, luar...

Respiração de flor, doçura, prece...
- Ó rouxinóis, calai! Fonte, adormece!...
Senão o meu Amor pode acordar!...

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal

Augusto Casimiro dos Santos (n. em Amarante a 11 Maio de 1889; m. em Lisboa a 23 Set. 1967)

Ler do mesmo autor, neste blog:
I A Hora da Prece
Do Primeiro Regresso
O Poeta e a Nau
Sangue de Inês
Velando

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2012-05-10

ACORDAR NA RUA DO MUNDO - Luiza Neto Jorge


madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas, os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam
o azul dos azulejos. assoma à janela

quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou
e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário.

(A LUME, 1989)
Extraído de Poemas Portuguesas Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Luiza Neto Jorge nasceu a 10 de Maio de 1939 em Lisboa, onde faleceu a 23 de Fevereiro de 1989.

Ler da mesma autora, neste blog:
Nas Cidades do Sul
Baixo-Relevo
Desinferno II
Minibiografia
As casas vieram de noite
O poema ensina a cair
Magnólia
Ritual

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2012-05-09

MISTICISMO - Ascenso Ferreira

Na paisagem da rua calma,
tu vinhas vindo… vinhas vindo…,
e teu vestido era tão lindo
que parecia que tu vinhas envolvida na tu’alma…

Alma encantada;
alma lavada
e como que posta ao sol para corar…

E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casar…!

─ Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira,
com fios de luz, no tear do luar…
no tear do luar…

O teu vestido que parece o de Maria Borralheira
quando foi se casar…

─ "Cor do mar com todos os peixinhos…!
─ Cor do céu com todas as estrelas…"!

E vinhas vindo… vinhas vindo…
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu’alma…

Poema recolhido daqui


Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (Palmares, 9 de maio de 1895 — Recife, 5 de maio de 1965)

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2012-05-08

Tríptico - Edgar Carneiro

Nunca digas adeus
Sem ver se tens contigo
A chave do regresso



Não creias na lua;
O céu acende estrelas
Para ti.


A noite recolhe
As pérolas soltas
Da concha do dia.



In Périplo. Poema extraído daqui


Edgar Carneiro nasceu em Chaves em 8 de Maio de 1913 e faleceu no Hospital de V. N. de Gaia em 15 de Janeiro de 2011.



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