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2012-06-19

Idílio - IV - Roberto de Mesquita

Sentámo-nos num largo, ao luar divino.
Eu fitava no céu pupilas sonhadoras.
No profundo silêncio um clamoroso sino
Com solene vagar bateu então dez horas.

Depois de acompanhar-te ao ninho onde tu moras,
Erguido num jardim virente e pequenino,
Fiquei a relembrar o teu corpo airoso e fino
E esses olhos de moura, escuros como amoras.

Por longo tempo ainda eu divaguei absorto
Entre prédios sem luz, dum ar soturno e morto,
Ouvindo ao longe o mar num salmo sonolento.

E ao mórbido luar, que ao sono nos impulsa,
A minh’alma bebia essa saudade avulsa
Que dimana da noite assim como o relento…


Augusto de Mesquita Henriques (n. em Santa Cruz das Flores, Açores a 19 de Jun 1871; m. em Santa Crus das Flores em 31 Dez 1923)

Ler do mesmo autor neste blog:
Abandonadas
Aves do Mar;
Universalidade II
Spleen

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2011-06-19

Abandonadas - Roberto de Mesquita

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Old abandoned house


A velha casa, onde eu morei outrora
e que há muito está desabitada,
silenciosa envolveu-me, ao ver-me agora,
num triste olhar de amante abandonada.

Com que amargor no íntimo lhe chora
uma alma sensitiva e ignorada,
que não tem voz para queixar-se, embora
se veja só, de todos olvidada!

Casa deserta e fria, que envelheces
ao desamparo sem uma afeição,
bem sinto que me vês, que me conheces

e relembras os dias que lá vão...
Eu esqueci-te, amiga, e tu pareces
toda magoada dessa ingratidão.

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edição Unicepe, Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL , 2004

Augusto de Mesquita Henriques (n. em Santa Cruz das Flores, Açores a 19 de Jun 1871; m. em Santa Crus das Flores 31 Dez 1923)

Ler do mesmo autor neste blog:
Aves do Mar;
Universalidade II
Spleen






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2010-12-31

SPLEEN - Roberto de Mesquita

Ilha das Flores Imagem daqui

Dezembro, dia pluvioso. Vem
Deste céu de burel um spleen mortal
Onde as almas se atolam como alguém
Que caísse num vasto lodaçal.

Olho em torno de mim: as cousas mesmas
Têm um ar de desgosto sem remédio...
E as horas vão, morosas como lesmas,
Rastejando por sobre o nosso tédio.

O véu cinzento e denso que se espalha
Lá por fora, empanando as perspectivas.
Dir-se-á também que as almas amortalha
E afoga as suas vibrações mais vivas.

Almas Cativas e Poemas Dispersos
Lisboa, Edições Ática, 1973 (1ª ed.)

Roberto Augusto de Mesquita Henriques (n. Santa Cruz das Flores, 19 de Junho de 1871 — m. Santa Cruz das Flores, 31 de Dezembro de 1923)

Ler do mesmo autor neste blog:
Aves do Mar
Abandonadas
Universalidade II

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2009-06-19

Universalidade II - Roberto de Mesquita

Casa de Montanha imagem daqui

Enquanto se detém o vosso olhar
à tona dos aspectos, impotente,
no âmago de tudo, claramente,
eu descubro um espirito a cismar.

Deleita-se a minha alma a respirar
os afectos das coisas: a dolente
nostalgia dum cerro olhando o mar,
a oração das paisagens ao morrente

Sim, eu respiro como essência estranha
a orfandade que exala uma montanha
quando o outono a junca de destroços.

E esses casais, dispersos pelo monte,
sinto-os pensar, cravando no horizonte
os seus olhos humanos como os nossos.


Roberto Augusto de Mesquita Henriques (nasceu em Santa Cruz das Flores, Açores a 19 de Junho de 1871 e aí faleceu, de síncope cardíaca, a 31 de Dezembro de 1923).

Ler do mesmo autor neste blog Aves do Mar; Abandonadas

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2008-06-19

Aves do Mar - Roberto de Mesquita



Aves do mar que em ronda lenta
Giram no ar, à ventania,
Gritam na tarde macilenta
A sua bárbara alegria.

Incha lá fora a vaga escura,
Uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
Este ar de Inverno, este ar doente?

Alma que vogas a gemer
Na tarde anémica, de vento,
Como se infiltra no meu ser
O teu esparso sofrimento!

Que viuvez desamparada
Chora no ar, no vento frio
Por esta tarde macerada
Em que a esp’rança se esvaiu!”..


Roberto Augusto de Mesquita Henriques nasceu em Santa Cruz das Flores (Açores) a 19 de Junho de 1871 e aí faleceu, de síncope cardíaca, a 31 de Dezembro de 1923. Depois dos estudos liceais em Angra do Heroísmo e na Horta, começou como secretário de Finanças, em 1896, para chegar, em 1919, a chefe de repartição da Fazenda Pública. Era irmão de Carlos de Mesquita (1870-1916), que, além de também poeta, foi professor da universidade de Coimbra e o mais notável crítico do movimento simbolista. A poesia do irmão mais novo evoluiu do parnasianismo ao simbolismo e decadentismo, acabando por inflectir num sentido classicizante, à semelhança de Eugénio de Castro. Como o seu autor só abandonou o arquipélago natal para uma breve visita ao continente, em 1904, tal obra passou despercebida (apenas editada postumamente, «Almas Cativas», em 1931) e foi outro poeta de origem açoriana, Vitorino Nemésio, quem para ela chamou a atenção, salientando como a solidão, a sonolência e o tédio são características da insularidade.

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler do mesmo autor Abandonadas

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2007-06-19

Abandonadas - Roberto de Mesquita


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Old abandoned house


A velha casa, onde eu morei outrora
e que há muito está desabitada,
silenciosa envolveu-me, ao ver-me agora,
num triste olhar de amante abandonada.

Com que amargor no íntimo lhe chora
uma alma sensitiva e ignorada,
que não tem voz para queixar-se, embora
se veja só, de todos olvidada!

Casa deserta e fria, que envelheces
ao desamparo sem uma afeição,
bem sinto que me vês, que me conheces

e relembras os dias que lá vão...
Eu esqueci-te, amiga, e tu pareces
toda magoada dessa ingratidão.

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edição Unicepe, Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL , 2004

Roberto Augusto de Mesquita Henriques (n. em Santa Cruz das Flores, Açores a 19 de Jun 1871; m. 31 Dez 1923)

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