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2017-09-27

Crianças - Rodrigues de Abreu (na efeméride dos 120 anos do nascimento)

Somos duas crianças! E bem poucas
no mundo há como nós: pois, minto e mentes,
se te falo e me falas; e bem crentes
somos de nos magoar, abrindo as bocas...

Mas eu bem sinto, em teu olhar, as loucas
afeições, que me tens e também sentes,
em meu olhar, as proporções ingentes
do meu amor, que, em teu falar, há poucas!

Preza aos céus que isto sempre assim perdure:
que a voz engane no que o olhar revela;
que jures não amar, que eu também jure...

Mas que sempre, ao fitarmo-nos, ó bela,
penses: "Como ele mente" e que eu murmure:
"quanta mentira tem os lábios dela!".


Benedito Luís Rodrigues de Abreu (n. Capivari (SP) a 27 de setembro de 1897; m. em Bauru (SP) a 24 de novembro de 1927)

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2016-09-27

As Andorinhas - Rodrigues de Abreu


Bastou para eu amá-las isto apenas:
Uma tarde chegando ao meu recanto
Deram momentos de alegria e encanto,
Calor de ninhos, maciez de penas...

E homem de fel, tornei-me bom e santo!
Charco imundo, coalhei-me de açucenas
— Só por elas, sem pejo e sem espanto,
A mim baixarem do alto céu serenas.

E do alto céu sereno elas trouxeram
Todo o mundo vibrante das cantigas
Dos que hoje gozam e que já sofreram,

Povoando do meu ser a soledade,
Vivendo nele, eternamente amigas,
Na perpétua presença da saudade.

Benedito Luís Rodrigues de Abreu (n. Capivari (SP) a 27 de setembro de 1897; m. em Bauru (SP) a 24 de novembro de 1927)

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2015-09-27

Casa Destelhada - Rodrigues de Abreu

A Plínio Salgado


A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.

(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)

A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...

(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente
na terra molhada do meu coração.)

Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!

Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!

(Do livro: "Casa Destelhada")

Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Litania das Minhas Noites
A Vida
Mar Desconhecido
Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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2014-09-27

Numa Tarde Macia - Rodrigues de Abreu

Quando a tarde agoniza, eu sonho. E então levanto
o meu sonho de amor para o céu, como santo,
pois sei que uma mulher vem, mansa como a brisa,
colher meu sonho bom, quando a tarde agoniza...

Como uma procissão de freiras tristes, passa
a lenta procissão das sombras. No ar esvoaça
tênue aroma, sutil sonho da terra mansa
que adormece em silêncio e em incerta esperança...
Na tarde, as flores têm desejos de pecar:
o Desejo desdobra as asas, voa no ar,
quando a primeira estrela aparece no fundo
do firmamento, para enamorar o mundo...
O céu é um grande espelho embaciado de sangue...
E há no céu e há na terra uma tão pura e langue
agonia de sons, que, nessa hora, parece
que o Mundo se ajoelha em postura de prece!

O Santo Sonho plange, em soluços, nos sinos,
e erra, brancas, no espaço as almas dos violinos...
A tarde, na agonia, interpreta, sonora,
Schumann, Schubert, Chopin, pois uma tarde chora...

Como eu, o vale pensa, e no alto, a nuvem pensa...
A mesma alma que vem do céu e, triste e imensa,
erra na tarde, vive em mim, cheia de sono:
minha alma é tarde triste e musical de Outono...

Quando a tarde agoniza e suave chora, quanto
envolve as coisas, numa angústia, a alma do pranto,
os anjos descem do alto, abraçando violetas
e colhem, suavemente, os sonhos dos poetas...
Foi numa tarde assim, quando os anjos desciam
do céu e os sonhos bons, suavemente, colhiam,
que uma mulher tomou a forma de anjo e veio,
entre os anjos, colher a flor do meu anseio...
E ela veio, e colheu meu sonho, e, comovida,
se tornou a minha Ânsia e a Só na minha vida...

Eis porque, quando a tarde agoniza, eu levanto
o meu sonho de amor para o céu como um santo:
pois ela sempre vem, nas asas de uma brisa,
colher meu sonho bom, quando a tarde agoniza...


(A Sala dos Passos Perdidos)


Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU (nasceu em Capivari (SP) a 27 de setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de novembro de 1927).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Casa Destelhada
Mar Desconhecido
Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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2012-09-27

Litania das minhas noites - Rodrigues de Abreu

Doçura estranha da minha mágoa!
Tristeza sutil da mocidade!
Meus olhos, sem motivo, rasos de água!

O fel violento que bebi na vida!
Minha esquisita vida de saudade!
Saudade vaga em lágrimas diluída!

A doçura do sangue em minha boca!
Minha inquietude cheia de ansiedade!
Longas insônias da minha alma louca!

Meu desejo feroz de humilhação!
Não ter um movimento de bondade,
apesar de rezar tanta oração!

Manhãs de cinza, dias de neblina,
noites sem lua, na visualidade
nevoente de quem toma cocaína!

Ah!, julguei que sentisse assim a vida
porque tivesse a sensibilidade
de uma alma sutil, desconhecida...

E em vez, isso provém deste mal físico:
a minha enorme sensibilidade
nasce das minhas vibrações de tísico!

Oh! saudade do tempo em que era doente
e em que desconhecia a enfermidade
e em que chorava à toa, inutilmente...

Já perdi a beleza de sofrer.
Minha tristeza vem deste mal físico.
Foi-se o bem de ser doente sem saber...

Antes nunca soubesse que sou tísico!

(Casa Destelhada)
in Suplemento Literário de "A Manhã" - Vol. V, 1943

Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Casa Destelhada
Mar Desconhecido
Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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2011-11-24

Casa Destelhada - Rodrigues de Abreu

A Plínio Salgado


A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.

(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)

A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...

(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente
na terra molhada do meu coração.)

Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!

Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!


(Do livro: "Casa Destelhada")

Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

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Mar Desconhecido
Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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2011-09-27

A Vida - Rodrigues de Abreu

A longa espera...
A chegada...
A partida...
Eis toda a minha primavera,
toda a felicidade sonhada,
toda a tristeza... A Vida!

Uma tarde (e como canta a saudade daquela
tarde fecunda, tarde solene de verão!),
nos céus distantes cada uma
das duas palavras de amor acordava uma estrela,
enquanto em minha alma, num voo de pluma,
criava a tortura de nova Ilusão...

Agora esta vida é uma noite sombria
de um vento soturno de desolação!
Para onde levaste as estrelas que estavam na noite brilhando?

Sem tuas palavras a noite está fria, minha alma está fria!


Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

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Ao Luar
Suprema Glória
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2010-09-27

Mar Desconhecido - Rodrigues de Abreu

A Batista Pereira

Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!

Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.

Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...

Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.

Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.

Com um golpe rijo cortarei as amarras
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.

Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATE A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.


Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

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Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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2009-09-27

Ao Luar - Rodrigues de Abreu

Os santos óleos, do alto, o luar derrama...
Eu, pecador, ao claro luar ungido,
Sonho: e sonhando rezo comovido
E arrebatado na divina chama.

Deus piedoso, consolo do oprimido,
Se compadece, à voz que ardente clama,
Porque meu coração, impura lama,
É um brado intenso para os céus erguido!

E o divino perdão desce da altura:
Grandes lírios alvíssimos florescem
Sob a lua, floresce a formosura...

E nessa florescência, imaculados
Raios longos do luar piedoso descem,
Choram comigo sobre os meus pecados.

Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927).

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Suprema Glória
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2008-09-27

Suprema Glória - Rodrigues de Abreu

Seja, depois de tanto amar, corrido,
como um pária, às pedradas; e, às pedradas
fugindo, deixe, triste, essas estradas,
por onde eu for, cheias do meu gemido!

E, soluçando, o coração ferido
sangre, exposto do público às risadas…
E, esquecido de ti, entre as amadas
a maior, vá de todos esquecido…

Embora! Nesta dor, a recompensa
levo de todo o horror desta descida
do sonho à lama; levo a glória imensa

que às outras glórias todas anteponho:
amei!… E, ao menos um momento, a vida
glorifiquei, em cantos, no meu Sonho…

Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU nasceu em Capivari (SP) a 27 de Setembro de 1897 e morreu tuberculoso em Bauru (SP) a 24 de Novembro de 1927. Em vão buscara alívio para o seu mal em Campos do Jordão... Ex-seminarista, foi professor e escriturário de cartório. Poeta neo-romântico «crepuscular», os seus versos são confidências a meia-voz e meia-luz. A sua principal obra intitula-se «Casa Destelhada» (1927).

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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Crianças
As Andorinhas

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2007-09-27

As Andorinhas - Rodrigues de Abreu

foto: Duas andorinhas

Bastou para eu amá-las isto apenas:
Uma tarde chegando ao meu recanto
Deram momentos de alegria e encanto,
Calor de ninhos, maciez de penas...

E homem de fel, tornei-me bom e santo!
Charco imundo, coalhei-me de açucenas
— Só por elas, sem pejo e sem espanto,
A mim baixarem do alto céu serenas.

E do alto céu sereno elas trouxeram
Todo o mundo vibrante das cantigas
Dos que hoje gozam e que já sofreram,

Povoando do meu ser a soledade,
Vivendo nele, eternamente amigas,
Na perpétua presença da saudade.

Benedito Luís Rodrigues de Abreu (n. Capivari (SP) a 27 Set 1897; m. em Bauru (SP) a 24 Nov 1927)

Ler do mesmo autor: Crianças

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2006-09-27

Crianças - Rodrigues de Abreu

Somos duas crianças! E bem poucas
no mundo há como nós: pois, minto e mentes,
se te falo e me falas; e bem crentes
somos de nos magoar, abrindo as bocas...

Mas eu bem sinto, em teu olhar, as loucas
afeições, que me tens e também sentes,
em meu olhar, as proporções ingentes
do meu amor, que, em teu falar, há poucas!

Preza aos céus que isto sempre assim perdure:
que a voz engane no que o olhar revela;
que jures não amar, que eu também jure...

Mas que sempre, ao fitarmo-nos, ó bela,
penses: "Como ele mente" e que eu murmure:
"quanta mentira tem os lábios dela!".


Benedito Luís Rodrigues de Abreu (n. Capivari (SP) a 27 Set 1897; m. em Bauru (SP) a 24 Nov 1927)

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