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2012-04-09

Convite à Viagem - Charles Baudelaire

Minha doce irmã
Que bom que será
Irmos os dois de viagem!
Irmos os dois viver,
Amar e morrer
Num país à tua imagem!
Os sóis molhados
Nos céus nublados
Têm para mim o encanto
Tão misterioso
Do olhar enganoso,
Que brilha no teu pranto.

Lá onde a calma, o luxo e a beleza
E a volúpia se sentam à nossa mesa.

Móveis já velhos
Polidos como espelhos
Decorarão nosso lar;
As mais belas flores
Misturarão os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Lustres cintilantes,
Espelhos distantes,
O esplendor oriental
Hão-de falar
À alma em segredo
A sua língua natal.

Lá onde a calma, o luxo e a beleza
E a volúpia se sentam à nossa mesa.

Vês além no rio
Dormir um navio
De humor vagabundo;
Foi para saciar,
O que possas desejar,
Que veio do fim do mundo.
- À tarde acontece
Que o vale em redor,
O rio, toda a cidade
São jacinto e oiro;
O mundo adormece
Numa quente claridade.

Lá onde a calma, o luxo e a beleza
E a volúpia se sentam à nossa mesa.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
in Qual é a Minha ou a Tua Língua, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Charles-Pierre Baudelaire (n. Paris, 9 de Abril de 1821 — m. Paris, 31 de Agosto de 1867)

 Ler do mesmo autor, neste blog:
Intangível
Correspondências
Um Hemisfério numa cabeleira
A Alma do Vinho

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2011-08-31

Citação do Dia - Charles Baudelaire

Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite contínua. Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do ópio, não tenho outra sede a não ser a de um licor desconhecido na Terra e que nem mesmo a farmacopeia celeste poderia proporcionar-me; um licor que não é feito nem de vitalidade, nem de morte, nem de excitação, nem de nada. Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir, dormir e sempre dormir, tal é actualmente a minha única aspiração. Aspiração infame e desanimadora, porém sincera.

in O Livro das Citações - Eduardo Gianetti, Livros d'Hoje, Publicações Dom Quixote

Charles-Pierre Baudelaire (nasceu a 9 de Abril de 1821 em Paris, m. 31 de Agosto de 1867)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Intangível
Correspondências
Um Hemisfério numa cabeleira

Nota do webmaster: Em condições normais não tenho o sentimento partilhado aqui pelo autor. Mas às vezes, circunstancialmente, apetece desaparecer temporariamente e nada sentir ou seja «suicidar-me por seis meses».

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2011-04-09

A Alma do Vinho - Charles Baudelaire

Barca Velha 1991foto tirada em 6 Abril 2011, dia em que
pela 1ª. vez bebi Barca Velha

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
“Homem, ó desherdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio febris?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada;
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serrei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

Tradução de Guilherme de Almeida

Charles-Pierre Baudelaire (nasceu a 9 de Abril de 1821 em Paris, m. 31 de Agosto de 1867)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Intangível
Correspondências
Um Hemisfério numa cabeleira

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2010-04-09

Intangível - Charles Baudelaire

Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrando-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdém, que te faz mais bonita!

Tradução de Delfim Guimarães

Charles-Pierre Baudelaire (nasceu a 9 de Abril de 1821 em Paris, m. 31 de Agosto de 1867)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Correspondências
Um Hemisfério numa cabeleira

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2009-08-31

Correspondências - Charles Baudelaire

A natureza é um templo em que vivos pilares
falas deixam fluir por incógnitas frestas
e onde o homem perpassa através de florestas
de símbolos, que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos que além juntam os seus rumores
em uma tenebrosa e profunda unidade,
tão ampla como a noite e como a claridade,
correspondem-se os sons, os perfumes, as cores.

Há perfumes que são como a carne da infância,
meigos como os oboés, como a verde distância,
e outros, ricos, triunfais odores corrompidos,

que se expandem assim como as cousas sem fim
como o âmbar, o incenso, o almíscar e o benjoim
que cantam a embriaguês da alma e dos sentidos.

Trad. de Pedro da Silveira
in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Unicepe

Charles-Pierre Baudelaire (nasceu a 9 de Abril de 1821 em Paris, m. 31 de Agosto de 1867)

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2009-04-09

Um Hemisfério Numa Cabeleira - Charles Baudelaire

imagem daqui

Deixa-me respirar longamente, longamente, o aroma dos teus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma nascente, e agitá-los na minha mão como um lenço aromático, para sacudir recordações no ar.

Se pudesses saber tudo aquilo que eu vejo! tudo aquilo que eu sinto! tudo aquilo que eu ouço nos teus cabelos! A minha alma viaja por sobre o perfume como a alma dos outros homens sobre a música.

Os teus cabelos levam um sonho inteiro, cheio de velames e de mastreações; levam grandes mares de monções que me transportam para encantadores climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, de atmosfera perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.

No oceano da tua cabeleira, avisto um porto irrompendo em cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações, e navios de todas as formas recortando arquiteturas finas e complicadas num céu imenso em que preguiça o eterno calor.

Nas carícias da tua cabeleira reencontro as demoras das longas horas passadas num divã, no quarto de um belo navio, embaladas pelo rolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os cântaros refrescantes.

No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco mesclado em ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do horizonte tropical; nas margens sedosas da tua cabeleira embriago-me com os aromas misturadoss do almíscar, do alcatrão e do óleo de coco.

Deixa-me morder demoradamente as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, julgo estar a mastigar recordações.

Trad. de Filipe Jarro, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Charles-Pierre Baudelaire (n. Paris, 9 de Abril de 1821 — m. Paris, 31 de Agosto de 1867)

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