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2014-04-03

Camões e a Pátria - Augusto Emilio Zaluar

Peregrino, sê bem vindo!
Quem teus passos encaminha?
    A saudada, linda virgem,
    Saudades da pátria minha!

Donde vens? - De longes terras.
    Tua família? - Morreu,
E uma lágrima ao romeiro
Dos olhos se desprendeu.

Triste sorte a do proscrito
A vagar em terra estranha!
E dentro d'alma a saudade!
E que saudade tamanha!

Mas diz-me, qual é teu nome?
    Sou Camões! - disse a gemer.
E que procuras agora?
    Um abrigo para morrer!

Achaste-o pois, bardo luso!
Vem abraçar-te comigo!
Vem, que juntos morreremos,
Que a Pátria morre contigo!

Augusto Emílio Zaluar (Lisboa, 14 de fevereiro de 1826 – Rio de Janeiro, 3 de abril de 1882)

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2013-04-03

Malmequer - Augusto Emílio Zaluar



Malmequeres? - Bem me queres?
Que respondes, meiga flor?
Diz-me tu, sibila de alma,
A sina do meu amor!

Quero ler o meu fadário
Nesta flor inocentinha
Não me enganes - Não me iludas,
Malmequer, esperança minha!

Na primeira tua folha,
Não sou eu afortunado!..
Bem me quer, diz a segunda;
Folga peito, que és amado!

A terceira, diz o muito!
Umas e uma vou contando;
Esta alegre me sorrindo
Aquela triste esfolhando!

Ai! Assim és vida minha!
Já desprezos, já carinhos;
Hoje grinalda de rosas
Amanhã coroa de espinhos!

E contei-as, contei todas,
Acabou dizendo, nada
Cada folha era uma esperança!
Triste vida, malfadada!

Procurei ler a minha sina
Nos aracanos desta flor
Encontrei o desengano
Onde queria achar amor!

in Dores e Flores, Poesias
Rio de Janeiro, Tipografia de F. Paula Brito, 1851
(com adaptação, atualizando a grafia)

Augusto Emílio Zaluar nasceu em Lisboa a 14 de fevereiro de 1826 e faleceu no Rio de Janeiro em 3 de abril de 1882








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2012-02-14

É tarde! - Augusto Emílio Zaluar

É forçoso... não posso por mais tempo
Conter a acerba dor que me lacera;
Tem limites o humano sofrimento,
Que há-de ao coração dizer - espera?

Esperar! Quando sinto a cada instante
As minhas ilusões desvanecer-se;
E de meu peito ao arquejante abalo
Pouco a pouco a existência desprender-se!

Esperar! Quando vejo que a fortuna
Que sonhava tão alto em meu transporte
Se converte em promessa enganadora,
Pois onde cria a vida, encontro a morte!

Esperar! Tu não sabes o que pedes;
Não pesaste o valor dessa palavra!
É tarde! é muito tarde! Agora em chamas
O incêndio fugaz devora e lavra!

E tiveste a coragem reflectida,
De fria calcular os meus tormentos,
E rir do meu sofrer! rir de ti mesma!
E zombar dos mais santos pensamentos?!

Tão moça e tão descrente! Onde aprendeste
Essa lição fatal do desengano?
A dúvida que pousa junto ás campas,
Revelou-te no berço o negro arcano?

Oh! não, não acredito em teus receios:
O meu provado amor já não se ilude;
Tu pões a glória tua em ser-me infensa
Eu em ser-te fiel minha virtude?

Tu calculas, invocas mil pretextos,
Pensas, reflectes com sossego e calma;
Sujeitas à razão teus sentimentos;
Os meus são espontâneos da minh'alma.

És feliz! Foste tu quem o disseste:
Goza em paz essa máxima ventura;
Não irão perturbar os teus prazeres
Os queixumes da minha desventura!

Um dia, talvez digas, se a memória
Do meu amor na mente conservares;
"Extremos como os seus nunca mais tive!
Matou-o o meu desprezo e seus pesares!

Augusto Emílio Zaluar (n. Lisboa, 14 de fevereiro de 1826 – m. Rio de Janeiro, 3 de abril de 1882

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