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2017-03-16

Creio nos anjos que andam pelo mundo - Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

Natália de Oliveira Correia (n- Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de setembro de 1923 — Lisboa, 16 de março de 1993)

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2016-03-16

Queixas das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia (música e voz de José Mário Branco)


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

Poesia Completa
Publicações Dom Quixote, 1999

Natália de Oliveira Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 de setembro de 1923; m. em Lisboa a 16 de março de 1993).

Música e Voz: José Mário Branco

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2015-09-13

Poema destinado a haver domingo - Natália Correia

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália de Oliveira Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 de setembro de 1923; m. em Lisboa a 16 de março de 1993).

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2015-03-16

A recusa das imagens evidentes - Natália Correia


foto : Violetas

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo...


Natália de Oliveira Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 de setembro de 1923; m. em Lisboa a 16 de março de 1993).

Ler da mesma autora:
Bilhete para amigo ausente
O Espírito
Queixa das almas jovens censuradas
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o Luar nos dias
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que, rigorosa
Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2014-09-13

Bilhete para amigo ausente - Natália Correia

Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.


in "O Vinho e a Lira"

Natália de Oliveira Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 de setembro de 1923; m. em Lisboa a 16 de março de 1993).

Ler da mesma autora:
A recusa das imagens evidentes
O Espírito
Queixa das almas jovens censuradas
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o Luar nos dias
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que, rigorosa
Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2013-09-13

Mãe Ilha IV - Natália Correia (na passagem dos 90 anos do seu nascimento)

Por lentas alamedas musicais
Chegam-lhe as tuas mãos ledas e leves
Trazem-me a valsa que enchia de cristais
A casa e eras de louça mãe de Sévres.

Lá nas fajãs partiu-te um sopro a mais
Que a morte é cio de belezas breves,
Mas, ó mistério de dedos siderais!,
Um triz de música e uma azália escreves.

Mãos que me levam lácteas pelos cabelos
(Lembras-te? eram anéis dos teus anelos)
Para a ilha. No teu seio o mar arfava.

Mãos doceiras das flores com que cobrias
O meu sono. Mais música! Para os dias
De opala, mãe de mel, falta uma oitava.


Extraído de Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade
Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria
Terramar

Natália de Oliveira Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

Ler da mesma autora:
A recusa das imagens evidentes
O Espírito
Queixa das almas jovens censuradas
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o Luar nos dias
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que, rigorosa
Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2013-05-25

Musical suggestion of the day: Queixas das Almas Jovens Censuradas - José Mário Branco

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

Poema de Natália Correia
Música e Voz: José Mário Branco nascido no Porto a 25 de Maio de 1942

Impressionante poema de Natália Correia numa composição espectacular de José Mário Branco. Como é bela a música portuguesa... e deixo aqui a lembrança de que dista de 1971 (Another brick in the wall dos Pinkfloyd é de 1979! )

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2013-03-16

A recusa das imagens evidentes: na passagem do 20º aniversário do passamento da poetisa açoreana Natália Correia

foto : Violetas

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo...

NATÁLIA CORREIA (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

Ler da mesma autora:
O Espírito
Queixa das almas jovens censuradas
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o Luar nos dias
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que, rigorosa
Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2012-03-16

Espírito - Natália Correia

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí me espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Extraído de Cem Poemas no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Natália de Oliveira Correia (n. Fajã de Baixo, na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)
Ler da mesma autora neste blog:
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que...
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o luar nos dias
Queixa das almas jovens censuradas

Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2011-03-16

Fiz um conto para me embalar - Natália Correia (já lá vão 18 anos do seu desaparecimento!)


Donzelas na praia - Dacha (foto daqui)

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.


Natália Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)
Ler da mesma autora neste blog:
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico

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2010-09-13

Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular - Natália Correia

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
Ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade na linha daquele além.
Guardada na claridade do olhar que a retém.


Natália Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

Ler da mesma autora neste blog:
Boletim Meteorológico

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2010-03-16

Boletim meteorológico - Natália Correia (falecida faz hoje dezassete anos)

Hoje, dia de me concretizar na corda tensa
Do animal com cio que resuma
A minha Eva quebrada ao espelho da evidencia
De para além do espelho não haver Eva nenhuma;

Hoje dia de escrever uma carta como um suicida
Que por sê-lo de facto nunca se chega a matar
E lê-la depois como uma novela muito aborrecida
Onde ninguém tem uma razão para se suicidar;

Hoje, dia de esclarecer este inútil mistério
Duma personalidade com a polícia à vista,
Deixando como um cartão-de-visita em qualquer ministério
A bomba da minha humanidade poética anarquista;

Hoje, dia da tua morte, sejas tu quem fores
Que morreste para que da guerra anónima que travámos
Ficasse como um arco-íris das nossas sete dores
Este poema, onda em que abraçados naufragámos;

Hoje, dia da Maria da Estrela ter toda a razão
Quando me contava que havia uma ilha como um girassol
Que as feiticeiras faziam girar como um pião
Debaixo do mar em que eu me enrolava como num lençol;

Hoje, dia de haver revolução
E todos em casa à espera da primeira granada
Que transformasse este está para ser uma grande nação
No herói que não quer ser nação nem ser nada;

Hoje, dia de mudar de raça – trocar a branca pela violeta?
E sabendo o que sei de mim sendo doutra cor
Seres príncipe que não importa de que planeta
Traz ao círculo da minha insónia a quadratura do teu amor.


in Cem Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Natália Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

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2009-09-13

Na câmara de reflexão IV - Natália Correia

paint Starry Night Over the RhoneStarry Night over the Rhone
Vincent van Gogh, 1888 Oil on canvas;
72.5 cm × 92 cm (28.5 in × 36.2 in)
Musée d'Orsay, Paris

Reúno coisas comovidamente:
Da mãe, o xaile azul, do namorado
Um beijo no Relvão, da avó demente,
O anjo que cantava no telhado;

Da ilha, a hota lassa que ao poente
Rendia o mar a um sono nacarado,
De febris coisas, já no Continente,
Num clarão de ametistas, o amado,

Dos meus passos da cruz, as cicatrizes;
Da minha estrela errante, outros países;
Do breve encontro, um rosto que se esfuma...

Coisas que em busca da sua ligação
Reúno. Absurda sensação
De as juntar e não ter coisa nenhuma.


in Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Natália Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

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2009-03-16

Nictofagia - Natália Correia (que faleceu faz hoje 16 anos)

Starry Night over the Rhone
Vincent van Gogh, 1888 Oil on canvas;
72.5 cm × 92 cm (28.5 in × 36.2 in)
Musée d'Orsay, Paris

Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tecê-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de Junho!


Natália Correia (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

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2008-09-13

De amor nada mais resta... - Natália Correia

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo mistico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


NATÁLIA CORREIA (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)


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2008-03-16

Natália Correia faleceu há 15 anos: Quando um ramo de doze badaladas


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia (n. 13 Set 1923, Fajã de Baixo, Ilha de S. Miguel, Açores; m. 16 Mar 1993 em Lisboa)


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2007-09-13

A luz meridional que, ... - Natália Correia

A luz meridional que, rigorosa,
infunde o mar no mármore, cobiçou
A Musa - júbilo azul! - e a radiosa
matéria no soneto repousou.

Mais mirtos quis Érato e em mais formosa
a tornar Camões se exasperou.
Mas, ó Bocage!, do dom o dano é glosa
e ao Tártaro de versos te imolou

a Musa, porque a Graça a treva a estruma
e de Antero a ideia em sangue escorre,
suicício com anjos por grinaldas;

que não só sol, também a noite espuma
no soneto e Florbela, a maga, morre
cantando uma hemoptise de esmeraldas.

NATÁLIA CORREIA (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

in A Circulatura do Quadrado Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2002


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2007-03-16

A recusa das imagens evidentes - Natália Correia

No aniversário da morte da poetisa Açoreana deixamos aqui mais um belo poema da sua autoria:


foto : Violetas


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo...

NATÁLIA CORREIA (n. na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)

Ler da mesma autora:
O Espírito
Queixa das almas jovens censuradas
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o Luar nos dias

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2006-09-13

A recusa das imagens evidentes - Natália Correia

Na efeméride do nascimento da poetisa Natália Correia que faria hoje 83 anos deixamos aqui mais um dos seus poemas:

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio Alvim

Natália Correia (n. 13 Set 1923, Fajã de Baixo. Ilha de S. Miguel, Açores; m. 16 Mar 1993 em Lisboa)


Ler da mesma autora neste blog:
O espírito
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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2006-03-16

O Espírito - Natália Correia

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

in Sonetos Românticos

Natália Correia (n. 13 Set 1923, Fajã de Baixo. Ilha de S. Miguel, Açores; m. 16 Mar 1993 em Lisboa)

Ler da mesma autora neste blog:

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