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2017-01-03

o soneto encontrado na garrafa - Vasco da Graça Moura

Ilha desertaIlha deserta foto daqui

é a ti que eu quero nesta ilha deserta:
livro nenhum, quadro nenhum, nem disco
(gosto de tanta coisa que faísco
mas a escolher assim nunca se acerta).

quero trazer-te a ti, ágil, desperta,
despenteadamente a cada risco,
e viver de algas, peixe e marisco
e nunca mais fazer sinais de alerta

e os navios ao longe ver passar,
enquanto a roupa seca na palmeira
(esta ilha tem uma, de maneira
que não é só rochedo e à roda o mar).

e tu entre corais, náufraga e nua,
a boiar no meu peito à luz da lua.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento-Fialho; Ministério dos Livros

Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro, Porto, a 3 de Janeiro de 1942 e faleceu em Lisboa a 27 de abril de 2014.

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2016-04-27

sinais - Vasco Graça Moura

eu estou na casa das nuvens
do terraço faço cais
passa uma nuvem e outra
e mais outra e vêm lá mais
quero apanhar uma delas
mas não sei em qual tu vais
chega a uma das janelas
e daí faz-me sinais


in poesia reunida, vol. 2 1997-2010
Quetzal poesia


Vasco Navarro da Graça Moura (Foz do Douro, Porto, 3 de janeiro de 1942 — Lisboa, 27 de abril 2014)

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2016-01-03

soneto dos sonetos - Vasco Graça Moura

catorze versos tem este soneto
de dez sílabas cada, na contagem
métrica portuguesa; de passagem,
o esquema abba dá esqueleto

aos versos do começo: a engrenagem
podia ser abab, mas meto
aqui baab: destarte, preto
no branco, instabilizo a sua imagem.

teria, isabelino, uma terceira
quadra, cddc e ee final,
em vez de dois tercetos com quilate

sempre de ouro no fim, de tal maneira
porém o engengrei continental
que em duplo cde tem seu remate.

in poesia reunida, vol. 2, Quetzal

Vasco Graça Moura nasceu na freguesia da Foz do Douro, no Porto, a 3 de Janeiro de 1942; faleceu no dia 27 de abril de 2014, em Lisboa

Ler do mesmo autor, neste blog:
mas nem se sabe, amor
blues da morte de amor
do tempo que passa
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima






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2014-01-03

Mas nem se sabe, amor - Vasco Graça Moura


uma corrente surda que nos lava
e leva de palavras uma tanta
respiração mordida se enobrece
(andamentos do tempo, lucidez)
mas por baixo dos lagos que reflexo
na cerrada retícula que somos
de vísceras opacas e dos centros
da dor e do prazer uma corrente

ontem, amor, em si se iluminaram
discretamente as pálpebras bebidas
se humedeceu assim o abandono
correndo o púbis enumero a cama
a cércea a relva as silvas tudo junto
ao meu desassossego e adejaram
cortinas nunca mais que espelho a viu
perdendo-a nos meus olhos, amor, ontem

dessas perguntas vário afago e vento
desvelada avidez e toque enxuto
tantas coisas, amor, unicidades
desejo do desejo as utopias
de miúdos vagares tão amiúde
do dia não direi; desperta a noite
assim em toda a vida irei mordendo
mas nem se sabe, amor, dessas perguntas

Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
blues da morte de amor
do tempo que passa
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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2013-01-03

visto da margem sul do rio o porto - Vasco Graça Moura


visto da margem sul do rio o porto não explode
sob a tarde de verão. a água reflecte
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

são estes sons de nada, estes voos que perpassam,
estas estrias da sombra de ninguém
sobre io curso do rio, como nuvens para esta hora, a
encrespar-lhes de leve a superfície.

enquanto parte algum comboio atrasado,
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham,
quero um barco pequeno para a minha travessia,
para a minha chegada e para a minha partida,

para andar entre as margens ou seguir a corrente
até s. joão da foz ver as últimas gaivotas
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras
se mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.

in Vasco Graça Moura, poesia reunida, vol. 2, 1997-2010, Quetzal

Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
blues da morte de amor
do tempo que passa
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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2012-01-03

do tempo que passa - Vasco Graça Moura

nós que vivemos graves junto da madeira
velha de nossas casas mastigando
alguns talos de couve mal cozida
e pano de lençol nos dentes já usados

nós que transcrevemos as manchas e rasgamos
rascunhos muito antigos e alguns nossos projectos
recuperando móveis e faianças
e todas as maçãs onde habitámos

nós que temos cimento ferramentas greves
e um pouco de corelli e um sistema
respiratório e caracteres de imprensa
e um plano geral de arruamentos

e que temos livros e que estamos vivos
podemos construir alguma coisa

(Semana Inglesa, 1965)

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora

Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Blues da Morte de Amor
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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2011-01-03

Blues da Morte de Amor - Vasco Graça Moura

Jazz Painting by Valerie Vescovi daqui

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.


in Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa, Organização e Prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote.

Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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2010-01-03

o soneto encontrado na garrafa - Vasco Graça Moura

Ilha desertaIlha deserta foto daqui

é a ti que eu quero nesta ilha deserta:
livro nenhum, quadro nenhum, nem disco
(gosto de tanta coisa que faísco
mas a escolher assim nunca se acerta).

quero trazer-te a ti, ágil, desperta,
despenteadamente a cada risco,
e viver de algas, peixe e marisco
e nunca mais fazer sinais de alerta

e os navios ao longe ver passar,
enquanto a roupa seca na palmeira
(esta ilha tem uma, de maneira
que não é só rochedo e à roda o mar).

e tu entre corais, náufraga e nua,
a boiar no meu peito à luz da lua.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento-Fialho; Ministério dos Livros

Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog: Soneto do amor e da morte; Lamento por Diotima

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2009-01-03

Soneto do amor e da morte - Vasco Graça Moura

Na passagem do 67º. aniversário do poeta

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura (nsceu na Foz do Douro, Porto, a 3 de Janeiro de 1942)

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2008-01-03

Lamento por Diotima - Vasco Graça Moura

Couple by Emil Schildt from here


O que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fuzilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

Vasco Graça Moura (n. na Foz do Douro a 3 de Janeiro de 1942; ~ )
(extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote)

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