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2013-03-26

O saber do poeta - Mário Cabral

O Saber do Poeta consiste em ter na mão uma gema de ovo
Ver na gema de ovo o sol e sofrer queimadura de terceiro grau
Ter a palma da mão puro espelho reflexifulgente
Obrigar, portanto, a linguagem, como se vê, a reflectir
A reflexão do Poeta é a que vê mais perto:
Vai da gema para o sol, vai da gema para a pedra preciosa
Vai da gema para as chagas de Cristo
Vai da gema para o Conhecimento gemelar de todo o Ser.
E pela queimadura da mão entra no corpo o sol
Incendeia a mente do Poeta que, porque mente
E a esta escala, não pode ser levado muito a sério
Por quem se encontre em patamar inferior da escada.
O Poeta grita alto, ele avisa do alto do altíssimo:
- Não se aproximem dos ovos! E o eco justamente repercute:
- Aproximem dos olhos! Aproximem dos olhos!
Ao mesmo tempo mostra a palma da mão livre. Pretende exemplificar
O Universo inteiro está nas linhas deste mapa que respira.
De algum modo o povo reconhece o Saber do Poeta
Há que ser apenas um a salvar o Pai sol do anonimato;
Reconhece o sangue frio do toureiro e, por conseguinte, nos dias de festa
O Poeta deixa a cozinha, enverga o traje da Luz, entra na arena
Uma arena é ainda uma gema, percebe-se pelo som das palavras.
Vitorioso, a corrida é paga com cestas e cestas de ovos e ovos
Que o Poeta leva para o alto, para o altíssimo
Vai acompanhado por um aprendiz que deixa a família a chorar
No alto do altíssimo vai chocar os ovos e de cada ovo
Uma estrela e é por isso que nesta língua circular
Se chamam céus estrelados aos céus da felicidade
Da plena felicidade, da plena felicidade.

Mário Cabral, nasceu na ilha Terceira, em 1963

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2012-03-26

Essa praia... esse mar... esse céu que me enleia... - Mário Cabral

Praia da Atalaia, Aracaju (imagem daqui)

Essa praia... esse mar... esse céu que me enleia...
Essas dunas, sonhando, à carícia da aragem...
Essas ondas, rolando em franjas pela areia
Essas nuvens, passando, em rebanho selvagem...

Em seu quimão de prata a lua é uma sereia
Que me traz, pelo azul, a mais linda mensagem
Uma vela perdida, alvacenta vagueia,
Como um lenço do adeus decorando a paisagem...

Coqueiros a acenar... Canções em murmúrio
A beleza da vida em tudo exuberando
Mo suave esplendor dessa noite de estio...

A dúvida, porém, de súbito me invade
E mudo triste, quedo, eu fico palpitando
Entre o ser e o não ser, entre o amor e a saudade.


(poema extraído daqui)

Mário Cabral nasceu em Aracaju, Sergipe, em 26 de março de 1914 e faleceu em 2 de abril de 2009 em Salvador

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