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2016-11-21

Canção de Todos - Raul de Leoni (na efeméride dos 90 anos do seu desaparecimento)



Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel das ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1895; m. Itaipava, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1926)

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2011-11-21

Ingratidão - Raul de Leoni

Amendoeiras em flor imagem daqui

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
e em meu velho quintal, ao sol nascente,
plantei, com a minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre o muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido, semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
e florescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…


RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ). Bacharel em Direito (1916) pela universidade do Rio, tentou a carreira diplomática mas, após três meses em Montevideu (Uruguai), desistiu, alegando não poder viver longe do Brasil. Então, tornou-se inspector de uma companhia de seguros e veio a ser deputado à assembleia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É um poeta de transição, enamorado da Grécia antiga, de Roma, de Florença, das cidades da Renascença italiana, da cultura mediterrânica e do mundo clássico. Céptico e irónico, a sua poesia é estético-filosófica. O seu autor, quando adolescente, viajara pela Europa. Fora depois ginasta e campeão de natação, mas acabou por morrer tuberculoso. A sua obra, porém, representa uma evasão no espaço e no tempo e não trai a doença, como acontecia com os românticos.

Ler do mesmo autor neste blog:
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus
Sei de Tudo...

Soneto e nota biobibliográfica acima extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2010-11-21

Crepuscular - Raul de Leoni

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...


RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ).

Ler do mesmo autor neste blog:
Ingratidão
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus
Sei de Tudo...

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2009-11-21

Sei de Tudo - Raul de Leoni

Sei de tudo o que existe pelo mundo.
A forma, o modo, o espírito e os destinos.
Sei da vida das almas e aprofundo
O mistério dos seres pequeninos.

Sei da ciência do Espaço, sei o fundo
Da terra e os grandes mundos submarinos,
Sei o Sol, sei o Som e o elo profundo
Que há entre os passos humanos e os divinos.

Sei de todas as cousas, a teoria
Do Universo e as longínquas perspectivas
Que emergem da expressão das cousas vivas.

Sei de tudo e – oh! tristíssima ironia! -
Pelo caminho eterno por que vou,
Eu, que sei tudo, só não sei quem sou…

RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ).

Ler do mesmo autor neste blog:
Ingratidão
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

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2008-11-21

Ingratidão - Raul de Leoni

Amendoeiras em flor imagem daqui

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
e em meu velho quintal, ao sol nascente,
plantei, com a minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre o muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido, semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
e florescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…


RAUL DE LEÔNI Ramos nasceu a 30 de Outubro de 1895 em Petrópolis (RJ) e faleceu a 21 de Novembro de 1926 em Itaipava (RJ). Bacharel em Direito (1916) pela universidade do Rio, tentou a carreira diplomática mas, após três meses em Montevideu (Uruguai), desistiu, alegando não poder viver longe do Brasil. Então, tornou-se inspector de uma companhia de seguros e veio a ser deputado à assembleia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É um poeta de transição, enamorado da Grécia antiga, de Roma, de Florença, das cidades da Renascença italiana, da cultura mediterrânica e do mundo clássico. Céptico e irónico, a sua poesia é estético-filosófica. O seu autor, quando adolescente, viajara pela Europa. Fora depois ginasta e campeão de natação, mas acabou por morrer tuberculoso. A sua obra, porém, representa uma evasão no espaço e no tempo e não trai a doença, como acontecia com os românticos.

Ler do mesmo autor neste blog:
Decadência
História Antiga
Pudor
Canção de Todos
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

Soneto e nota biobibliográfica acima extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2008-10-30

Decadência - Raul de Leoni

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...

Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...

Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, a 21 Nov 1926)

Ler outros poemas de Raul Leoni no Nothingandall

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2007-11-21

História Antiga - Raul de Leoni

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube porque foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, a 21 Nov 1926)

Ler outros poemas de Raul Leoni no Nothingandall

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2006-11-21

Canção de todos - Raul de Leoni

Na efeméride da morte de Raul de Leoni, se transcreve aqui este poema:

Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel das ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog:
Pudor
Legenda dos dias
Soneto I de Sob Outros Céus

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2006-10-30

Legenda dos dias - Raul de Leoni

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

Raul de Leoni Ramos (n. Petropolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ler do mesmo autor:
Soneto I de Sob outros céus
Pudor

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2005-11-21

Soneto I de Sob Outros Céus - Raul de Leoni

Eu vim ao mundo para ter saudade...
Ter saudade é sentir a natureza
Sob a etérea e inefável claridade
Do crepúsculo errante da tristeza.

Um vago enlevo espiritual invade
Minha imaginação que, de surpresa,
Céus distantes, memórias de outra idade
Revive, então, num sonho de pureza.

Sinto que essa emoção indefinida,
Povoando de visões meus pensamentos,
Provém da eterna comunhão da vida

É a alma das cousas que se evola, em calma,
Da vida conjugal dos elementos
E se reflete dentro de minha alma.

Soneto I de Sob Outros Céus
Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, 30 Out 1895; m. Itaipava, 21 Nov 1926)

Ver do mesmo autor neste blog Pudor

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2005-10-30

Pudor - Raul de Leoni

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer...

Raul de Leoni (n. Petrópolis RJ, 30 Out 1895; m. Itaipava RJ 21 Nov 1926)
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959

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