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2015-10-29

DA MITOLOGIA - Zbigniew Herbert

Primeiro era um deus da noite e da tempestade, ídolo negro e sem olhos, diante do qual saltavam nus e lambuzados de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, eram imensos os deuses,com mulheres, filhos, camas desconjuntadas e raios que explodiam inofensivos. Por fim só os neuróticos supersticiosos carregavam nos bolsos pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. À época nao havia maior deus.
Vieram então os bárbaros. Também eles tinham em alta estima o pequeno deus da ironia. Esmagavam-no sob os calcanhares, adicionando-o depois aos seus manjares.

Tradução de Rui Knopfli

Zbigniew Herbert (n. Lviv, Polónia (hoje Ucrânia) , 29 de outubro de 1924 - m. em Varsóvia, Polónia, 28 de julho de 1998)

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2010-08-10

Amor das Palavras - Rui Knopfli

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor de teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.


Rui Knopfli (n. em Inhambane, Moçambique, 10 de Agosto de 1932 - m. Lisboa, 25 de Dezembro de 1997)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Nenhum Monumento
Testamento

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2009-08-10

Testamento - Rui Knopfli

Se por acaso eu morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

Rui Knopfli [n. em Inhambane, Moçambique a 10 Ago 1932; m. em Lisboa, 1997]

Ler do mesmo autor, neste blog: Nenhum Monumento

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2007-08-10

Nenhum Monumento - Rui Knopfli

Não são aparentes em ti as marcas da grandeza,
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.
A escassez de ogivas, arcobotantes,
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer

da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,

não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva,
fala por ti apenas o tempo.


Rui Knopfli [n. em Inhambane, Moçambique a 10 Ago 1932; m. em Lisboa, 1997]

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