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2016-01-28

Os Treze Anos (Cantilena) - António Feliciano de Castilho

Já tenho treze anos,
Que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me,
Com Pedro gaiteiro.

Já sou mulherzinha;
Já trago sombreiro;
Já bailo ao domingo
Co’as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
Como era primeiro,
Sou a senhora Ana,
Que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
Nas feiras já feiro,
Já não me dá beijos
Qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
E as deito ao ribeiro,
Olho tudo à roda
De cima do outeiro,

E só se não vejo
Ninguém pelo arneiro,
Me banho co’as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas
Rostinho trigueiro,
Que mata d’amores
A muito vaqueiro.

Miro-me olhos pretos
E um riso fagueiro,
Que diz a cantiga
Que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
Já por derradeiro
Me vejo mui outra
Da que era primeiro.

O meu gibão largo
D’arminho e cordeiro
Já o dei à neta
Do Brás cabaneiro,

Dizendo-lhe – Toma
Gibão domingueiro,
D’ilhoses de prata,
D’arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
E a ti te é laceiro;
Tu brincas co’as outras,
E eu danço em terreiro.

Já sou mulherzinha,
Já trago sombreiro;
Já tenho treze anos,
Que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
Sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me,
Com Pedro gaiteiro.

Não quero o sargento,
Que é muito guerreiro,
De barbas mui feras,
E olhar sobranceiro.

O mineiro é velho;
Não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
Que todo o dinheiro.

Tão pouco me agrado
Do pobre moleiro,
Que vive na azenha
Como um prisioneiro.

Marido pretendo
De humor galhofeiro,
Que viva por festas,
Que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando
Co’o tamborileiro,
Logo se alvorote
O lugar inteiro.

Que todos acorram
Por vê-lo primeiro;
E todas perguntem
Se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
Romeira e romeiro,
Vivendo de bodas,
Bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
Ai céu verdadeiro!
Ai Páscoa florida,
Que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
De Deus vos requeiro;
Casai-me hoje mesmo
Com Pedro Gaiteiro.

António Feliciano de Castilho, 1.º visconde de Castilho (Lisboa, 28 de janeiro de 1800 — Lisboa, 18 de junho de 1875)



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2010-06-18

O Acalentar Da Neta - Xácara - António Feliciano de Castilho

Dorme, dorme, minha neta,
Senão não sou tua amiga;
Dorme que eu te embállo o berço,
E te canto uma cantiga.

Vai a bella Dona Auzenda
Caminho de Palestina,
Leva traje de romeiro,
Com seu bordão e esclavina.
Dona Auzenda, Dona Auzenda,
Em sabendo que és fugida,
Tua mãe cairá morta,
E tuas irmans sem vida.
Pouco importa a Dona Auzenda
Quem na Hespanha morra ou viva,
Vai em busca de sua alma
Que em Palestina é cativa.
De lá lhe vieram cartas,
E uma carta lhe dizia:
"Teu amigo Dona Auzenda
"Chora de noite e de dia.
"As cadêas não lhe pezam,
"Pezas-lhes tu, porque scisma
"Que ha de morrer sem mais ver-te,
"Nem ver-te quer na mourisma."


Dorme, dorme, minha neta,
E tu fuzo, fia, fia:
Eu canto á minha candêa,
Ao pé da Virgem Maria.

Vendeu joias e arrecadas,
Comprou bordão e esclavina,
E trajada de romeiro
Já demanda a Palestina.
Vai pedindo pelas portas,
Por sóes e chuva caminha,
Trabalhos não a quebrantam,
Com elles vai mais azinha.
Uma tarde, era sol posto,
Quando avistou uma ermida,
Era de Nossa Senhora,
Mãe dos homens se appellida.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia:
Eu canto á minha candêa,
Mercê da Virgem Maria.

Os sóccos descalça á porta,
E ajoelha com fé viva,
Pedindo lhe restitua
Sua alma que jaz cativa.
Os olhos da Virgem Sancta
Deram mostras de afligida,
Ergueu-se um vento da serra
Que toda tremeu a ermida.
Coitada de Dona Auzenda,
Mais triste sáe do que vinha:
Cerrou-se-lhe logo a noite,
E ella nos bosques sósinha !
Queria andar, e não pôde
Que o grande escuro a tolhia,
Necessitava encostar-se.
Tinha medo, e não dormia
N'uma raiz pousa a face,
O corpo em folhas reclina,
Com suas penas conversa,
Coitada da peregrina.
Perdi a terra e o palácio,
Perdi a mãe que lá tinha,
Perco-me agora a mim mesma,
E o que procurando vinha.
D. Giraldo, D. Giraldo,
Só a fé não é perdida.
Pois tu sabes que eu te adoro,
E eu sei como sou querida.
Peço ao meu anjo da guarda,
Se hei-de aqui ficar perdida,
Que vá levar-te por sonhos
Esta minha despedida.
Assim dizia a formosa
Dona Auzenda de Molina,
E ao dizer anjo da guarda,
Lembrou-lhe a irman pequeninha.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia:
Eu canto á minha candêa,
Eu sou da Virgem Maria.

Então dos olhos cançados
Lhe borbotou a dor viva,
E ouviu folhas abanadas,
E viu uma luz esquiva.
Logo para aquella parte,
Porque o pavor a conquista,
Em joelhos com mãos postas
De relance estende a vista.
E viu uma sombra grande,
Que mui devagar caminha;
Quiz rezar, benzeu se errado,
Não deu Co'a Salve Rainha.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa,
Guarde-me a Virgem Maria.

O andar do fantasma branco
Nenhum ruído fazia,
Parou, e poz nella os olhos
Mas eram terra, não via.
Estendeu-lhe os braços longos,
E com uma voz, como briza,
Lhe diz = "Eu sou D. Giraldo,
"Que em mim já se não divisa.
"Tu buscavas o cativo,
"Eu procuro a peregrina,
"Tua alma quer Deus que esteja
"Com meu corpo em Palestina.
"Os nossos anjos da guarda
"Deram palavras sem língua,
"Que á meia noite aqui mesmo
"Findaria a nossa mingua.
Deus, á alma envia um corpo,
E ao corpo uma alma envia ..."
Já estas finaes palavras
Dona Auzenda não ouvia.

Dorme, dorme, minha a neta,
E tu, fuzo, fia, fia :
Que eu canto ao pé da candêa
Que accendo á Virgem Maria.

Tinha dado a meia noite,
E Dona Auzenda caíra :
Ai! Jaz morta a Dona Auzenda
Que tantas penas sentira !
Quem ha de enterrar seu corpo
N'essa noite desabrida,
Ou quem aos pés da Senhora
A irá sepultar na ermida?
E a alma de D. Giraldo,
Que tão solitária fica,
Não terá padre que rese
O que por almas se applica !
Mas nunca mais na floresta
Nenhuma cousa foi vista,
Os que o sitio tem buscado
Nunca lhe acharam a pista.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa,
E reso á Virgem Maria.

N'essa noite á meia noite,
Indo o sete-estrello acima,
Callou de repente as vozes
Môcho que magoas lastima.
E o gallo que por taes horas
Com seu canto á reza excita,
Bateu as azas callado
Ao pé do leito do ermita.
Tocou sem mão a sineta,
Abriu-se a porta da ermida,
As vellas do altar accezas,
A Senhora mui garrida.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa,
E vejo a Virgem Maria.

E entrou a orar um estranho
Peregrino, ou peregrina,
Que de todo dava mostras,
E fallava em Palestina.
Se ía ou vinha, nunca o disse,
Quando o ermita o requeria,
Que ora fallava em ser volta,
Ora fallava que se ía.
E disse : a Deus me encommenda
Por tres, mais tres, e tres dias
Que ao cabo d'uma novena
Findarão mil agonias.
Ora n'essa mesma noite
Quiz a bondade divina,
Que outra novidade grande
Succedesse em Palestina.
Da cova de D. Giraldo,
Á meia noite precisa,
Surgiu um corpo defuncto
Que a todos atemorisa.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa,
Ouça me a Virgem Maria.

E veio uma alma voando,
Que pelos ares foi vista,
Nossa Senhora a guiava,
Vinha-lhe um anjo na pista.
Metteu-se dentro ao finado,
E o finado cobrou vida,
Poz-se c'o anjo a caminho,
A Senhora era já ida.
Como a novena acabava,
Ao cabo do nono dia,
Vinha pela ermida entrando
Outro romeiro á porfia.
E este assim como o primeiro
Muito ao velho desatina,
Que também não cae na conta
Se é romeiro ou peregrina.
Os dois romeiros se olhavam,
E a Mãe dos homens sorria,
O ermita estava pasmado,
E um padre moço apar'cia.
Por debaixo do roquete,
Que era neve sem mentira,
Reluziam duas azas
Ambas de prata e safira.
Tomou-lhes as mãos direitas
Com signaes de muita estima,
E disse: conjungo vos:
E poz-lhe a estóla por cima.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa
Louvor á Virgem Maria.

Nove annos eram passados
E apôz nove annos um dia,
Quando ao dar da meia noite
Lá na porta se batia.
Como se abriu a Capella
Logo entrou por ella acima
Um caixão com dois defunctos,
Todo de obra muito prima.

Dorme, dorme, minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia :
Eu canto á minha candêa,
E estou co'a Virgem Maria.

Vinham ambos abraçados,
Com mostras de quem dormia,
Com coroas de flores brancas,
E ninguém as lá trazia.
Mãos que pegavam á argola
Eram mãos que se não viam,
Nem se enxergava pessoa
Nos cantares que se ouviam.

Dorme, dorme minha neta,
E tu, fuzo, fia, fia:
Eu canto á minha candêa,
Ao pé da Virgem Maria.

Foi escripta esta memoria.
Numa taboa bem polida,
Qu'inda agora na Biscaya
Se vae ver aquella ermida.
A campa ficou sem nomes
Mas toda a gente dizia,
Que era Auzenda e D. Giraldo,
Filhos da Virgem Maria.
Por devoção que um e outro
Com o sancto rosário tinha,
Inda por morte casaram,
Sendo a Senhora Madrinha.

Dorme, dorme, minha neta,
Que tenho a rocada linda :
Ámanhaã, querendo a virgem,
Te direi outra mais linda.


in O PANORAMA, Jornal Literário e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, número 74, Setembro 29, 1838

António Feliciano de Castilho, primeiro visconde de Castilho (n. Lisboa, 28 de Janeiro de 1800 — m. Lisboa, 18 de Junho de 1875)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Visão
Convite para a Felicidade
A Ermitagem da Montanha

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2010-01-28

A Visão - António Feliciano de Castilho

Ao longo de uma ribeira
eu passeava sozinho;
e um pássaro ouvi cantando
sobre um ramo, ao pé do ninho.

A esposa guardava os filhos
co' as asas agasalhados;
todo o vale era em silêncio;
e eles ambos sem cuidados.

De sua vida amorosa
concebi toda a doçura;
e achei-me sozinho à beira
da corrente que murmura.

Afastei-me tristemente;
e um zéfiro de passagem
que trouxe um cheiro de flores
dentre a próxima folhagem

E eu disse-lhe: "Este hálito doce
do seio dos esposos vem;
mais de uma florinha virgem
agora se torna mãe".

Vi que estava solitário;
e deste aroma o prazer
junto à beira da corrente
mais me veio entristecer.

0 sol ia quase a pôr-se;
e a frouxa luz que espargia,
as águas, e o campo, e o bosque,
tudo em púrpura tingia.

Ao longe, ouvia as pastoras,
que os seus rebanhos levavam;
eles bailavam contentes,
elas de amores cantavam.

O sol se escondeu de todo;
e da aldeia sobre a ermida,
ao longe, o sino saudoso
deu ao dia a despedida.

Os campos ficaram tristes:
só, de momento em momento,
se ouvia um cão em distância,
ou brando agitar-se o vento.

E eu me achei só assentado
ao pé d'água que fugia;
e os sons da tarde em minh' alma
dobraram melancolia.

Já tinha nascido a lua
no céu formoso de estrelas;
quando boiava água abaixo
barco sem rumo nem velas.

E o barqueiro ia cantando
não sei que saudosas mágoas...
assentado sobre a popa,
debruçado sobre as águas;

e quando ele interrompia
seu cantar, e assobiava,
mulher, que vinha com ele,
em voz mui doce cantava.

A noite, as auras, a lua,
rouxinóis a gorjear,
me inspiraram sentimentos
que não tive a quem narrar.

Então co'o pranto nos olhos,
no coração a tristeza,
"Que faz a flor no deserto?
perguntei à natureza,

que faz um astro brilhando
em país desabitado?
que presta um cabeço fértil
no meio do mar salgado?

Porque me fazes num vago,
inútil fogo abrasar,
se não acho neste mundo
uma só que eu deva amar?"

E eu voei co' o pensamento,
qual relâmpago ligeiro,
aos muros silenciosos
de solitário mosteiro.

Melancólico e silvestre
era todo esse lugar:
de um lado, montanhas ermas;
do outro, pinhais, e o mar!

E eu entrei ao mesmo tempo
no fundo do santuário;
das campas o surdo estrondo
movi com pé temerário!

Por toda a parte achei noite,
e o silêncio mais profundo:
nenhuma voz! nenhum passo!
nenhum dos filhos do mundo!

Só do mocho sobre o tecto
o triste piar se ouvia,
que pela abóbada extensa
se alongava, e se perdia.

Logo o relógio da torre
meia-noite fez ouvir;
do templo os ecos acordam,
e tornam logo a dormir.

Depois um sino, tocado
por forte, invisível mão,
chamou, triste, os pensamentos
para a nocturna oração.

Do coro, até 'li deserto,
foram cheios os lugares;
no ar, até 'li calado,
reinaram ternos cantares.

A hora, o lugar, as trevas,
e aquelas vozes suaves,
reuniram na minh' alma
à ternura ideias graves.

Ao tronco de uma coluna
pensativo me encostei
Muito mais triste que dantes,
e muito mais só me achei.

Emudeceu todo o coro;
eis as luzes se retiram;
bateu a porta ao fechar-se;
as santas irmãs saíram.

Da lâmpada veladora
o lume, já quase extinto,
de mil trémulos fantasmas
encheu do templo o recinto.

Logo o relógio da torre
umas hora fez ouvir;
do templo os ecos acvordam,
e tornam logo a dormir.

Afastei-me horrorizado,
e veloz nesse momento
ao dormitório tranquilo
me arrojei co' o pensamento.

Mão na face, e olhos na lua,
vi, dentro de escura cela,
chorosa virgem, sentada
às grades de alta janela.

Conheci por seus cabelos,
e seus trajes seculares,
que não era das votadas
eternamente aos altares.

Conheci que um pensamento
nutria triste e profundo;
e eu disse: "Qual eu me vejo,
se vê sozinha no mundo!"

E todos quantos afectos
sua alma encerrados tinha,
num profético delírio
foram presentes à minha.

Apertei-lhe a mão com força,
e chegando ao coração:
"Ambos achámos" - lhe disse -
"o que buscámos em vão".

"Por este céu me protesta,
que eu juro por este céu,
tu, ser minha eternamente;
eu, ser para sempre teu."

O céu ouviu nossos votos;
viu-nos a lua abraçar
e ambos juntos, assentados,
ficamos a conversar.

Logo o relógio da torre
duas horas fez ouvir;
os ecos de novo acordam,
e tornam logo a dormir.

Mas esta virgem, quem era?
Porque entrou na solidão?
Donde o seu ar pensativo?
Donde a interna agitação?

Alta noite!... ela sozinha!...
porque razão não tremeu?
ao mortal desconhecido
como súbito se deu!

Onde existe esse mosteiro,
esse encantado lugar?
De um lado, montanhas ermas!
Do outro, pinhais, e o mar!

Homens, deixai meu segredo;
Baste saber que eu sou dela,
seja onde for seu retiro,
seja quem for esta Bela.

Mulheres, este fantasma
vos excede nos encantos.
Serão dele eternamente
o meu amor e os meus cantos.


Extraído de "Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI. Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis Sá e Rui Lage- Prefácio de Vasco Graça Moura. Porto Editora".

António Feliciano de Castilho, primeiro visconde de Castilho (n. Lisboa, 28 de Janeiro de 1800 — m. Lisboa, 18 de Junho de 1875)

Ler do mesmo autor neste blog Convite para a Felicidade; A Ermitagem da Montanha

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2009-06-18

A Ermitagem da Montanha - António Feliciano de Castilho

(...)
Sim, Júlia, querida Júlia;
Ah! pudesse o meu amor
Dar-te da sua violência
Uma prova inda maior!

Atravessar por desertos
A extensão da imensidade;
Passar mil séculos juntos
No meio da tempestade;

Fender todo inteiro a nado
De fogo um mar infinito;
-Júlia, eu te amo, eu te amo, ó Júlia
Ninguém me ouvira outro grito.

extraído de Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Filho, Ministério dos Livros 2009

António Feliciano de Castilho (n. 28 Jan 1800; m. 18 Jun 1875)

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2005-06-18

Convite para a Felicidade - António Feliciano de Castilho

Ditoso, Júlia, ditoso,
quem livre de inquietação
come os frutos que semeia,
e dorme no seu torrão;

que desconhece das cortes
intriga, esperança e receios,
que julga acabar-se o mundo,
onde acabam seus passeios.

Penúria e riqueza ignora,
dois escolhos da virtude,
e tira do seu trabalho
bens, prazer, vigor, saúde.

De iguais rodeado vive,
e só tem por superior
seu Criador no outro mundo,
na paróquia o seu pastor.

As aras jamais incensa
de Astreia, Minerva ou Marte,
mas Baco e Pomona e Ceres
lhe riem de toda a parte.

Mais apertado não vive
na avita cabana herdada,
que o rico em salões de estuque,
de alta, soberba fachada.

Em vez de jardins estéreis,
faz consistir seu prazer
em lhe à porta verdejarem
as couves que fez nascer.

Dorme em colmo um sono inteiro,
enquanto, em doirado leito,
o nobre se volve, e geme,
de aflição ralado o peito.

Ao lado lhe dorme a esposa,
fiel, inocente e bela;
o filhinho, imagem sua,
dorme em paz ao seio dela.

Se ela lhe diz: - eu te adoro,
eu te amarei toda a vida! -
de ser verdade o que escuta
nem um momento duvida.

Sabe que a fé, que a virtude,
virtude pura, ilibada,
dons mais belos que a beleza,
são numes da sua amada.

Ela não vive no meio
da corrupta mocidade,
que adorna, envenena, empesta,
das cortes a sociedade.

Não quer brilhar nos passeios,
nem de mil adoradores
vai disputar nos teatros
os suspiros e os louvores.

Passa a noite ao pé do esposo,
entre os filhos passa o dia,
o trabalho a ocupa sempre:
ser infiel poderia?

Da sua família é toda,
nela concentra a afeição,
que as damas à intriga, às festas,
ao jogo, aos enfeites dão.

Quer-se ornar nos santos dias?
Não se assenta ao toucador
em vez de jóias brilhantes
procura singela flor.

Para arranjar seus cabelos,
nem corre ao cristal da fonte;
não carece de outro espelho,
tem seu consorte defronte.

Ele lhe ensina a maneira
por que lhe ficam melhor;
ele lhe diz em que sítio,
e como lhe ajusta a flor.

Se lhe agrada, está contente;
e vai de inocência cheia
entrar com ele nas festas,
nas festas simples da aldeia.

Ah, Júlia! Que sorte a de ambos!
Sem longas filosofias,
sabem melhor do que os sábios
desfrutar serenos dias.

Os princípios, os sistemas,
sonhos de estéril vaidade,
jamais tornaram ditosa
a mesquinha humanidade..

Se existe o bem sobre a terra,
se queres, Júlia, este bem,
uma aldeia... uma cabana...
ternura... inocência... Ah, vem!


António Feliciano de Castilho (n. 28 Jan 1800; m. 18 Jun 1875)

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