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2015-07-17

Uma Vida Pequena - João José Cochofel

Uma vida pequena
para que é que serviu?
Rasto de poeira
em tarde de estio.

Que sonhos, que pragas,
que fogos em vão
calcados de terra
reacenderão?

Chora a infância, chora.
Não a que tiveste.
Mas a que na troca
do tempo apetece.

in 'Os Dias Íntimos' 1944-1958

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor:
Pórtico
Tarde
O Verão Estala Por Todos os Poros
Sensibilidade
Mói Música um Realejo
Breve
Ânsia
Sensibilidade

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2014-07-17

Paraíso Perdido - João José Cochofel

Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?

Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.

Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.

(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.


João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor:
Pórtico
Tarde
O Verão Estala Por Todos os Poros
Sensibilidade
Os Dias Íntimos
Breve
Ânsia
Sensibilidade

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2014-03-14

Pórtico - João José Cochofel

Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
— ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo duma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.
(Um ócio grande. Morre tudo
dum morrer suave e brando...)

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm ...

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)



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2013-07-17

Tarde - João José Cochofel



Teus olhos húmidos eram lagos
em que nosso desejo se mirava.
Tua boca entreaberta era a mensagem
do teu corpo moço que se dava.

Teu hálito quente
embrulhado de desejo
vinha de não sei lá que profundezas
em que de amor tuas entranhas se abrasavam.

E havia, amor, a envolver-nos,
essa solidão enorme
entre pinheiros, céu e terra quente
da tarde que dorme ...


João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 jul 1919, m. Lisboa a 14 mar 1982
Ler do mesmo autor:
O Verão Estala Por Todos os Poros
Sensibilidade
Os Dias Íntimos
Breve
Ânsia
Sensibilidade

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2010-07-17

O Verão estala por todos os poros - João José Cochofel

Bar RefaeliBar Refaeli

O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Breve
Ânsia
Sensibilidade
Os Dias Íntimos
Tarde

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2009-07-17

Na passagem do 90º. aniversário de João José Cochofel e 27º. do meu casamento


Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo.

Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.

Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

Em 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores


João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor: Ânsia; Sensibilidade; Os Dias Íntimos; Tarde

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2008-07-17

Ânsia - João José Cochofel

Há uma ave que rompe do teu corpo
e desaparece a voar.
Gaivota, andorinha, cotovia?
Veio beber e soltou-se.
Deixa uma ânsia latente
a estremecer no ar.


João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor: Tarde; Sensibilidade; Os Dias Íntimos

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2008-03-14

Tarde - João José Cochofel


Teus olhos húmidos eram lagos
em que nosso desejo se mirava.
Tua boca entreaberta era a mensagem
do teu corpo moço que se dava.

Teu hálito quente
embrulhado de desejo
vinha de não sei lá que profundezas
em que de amor tuas entranhas se abrasavam.

E havia, amor, a envolver-nos,
essa solidão enorme
entre pinheiros, céu e terra quente
da tarde que dorme ...

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

Ler do mesmo autor:
Sensibilidade
Os Dias Íntimos

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2007-07-17

Mói Música Um Realejo - João José Cochofel



Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.

Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,

Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.

Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.


in Os Dias Íntimos

João José de Mello Cochofel Aires de Campos (n. em Coimbra a 17 Jul 1919, m. em, Lisboa a 14 de Mar de 1982)


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2006-07-17

Sensibilidade - João José Cochofel

photo: Ladybug resting; author: Cassandra Poe


Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?

Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranquilo e caricioso
como um sol de Outono.

A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.

Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.


João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)

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