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2017-12-11

A Velocidade da Luz - Manuel Gusmão


Há uma rotação do teu corpo
ou de uma parte dele que está pelo todo
e fora dos eixos do mundo.
Rodas a partir da cintura, estendes um braço,
há um músculo que se ilumina, uma onda
vertical em que tu própria te subisses;
então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta
oblíquo sobre o mundo que nesse instante
se suspende.

Há uma rotação do teu corpo –
Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio
um rumor que alumia a sombra silenciosa;
na sala, o homem quase surdo quase cego
ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.

Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:
há uma rotação no teu corpo
que me exclui do mundo e
entretanto é feita para mim; atinge-me
à velocidade da luz.
E eu o homem quase surdo quase cego
sou tomado pelo vento do fogo que me consome
até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz
o incêndio restante sob a exausta crosta da terra

Estavas, estiveste ali.
O tempo recomeça.
Apareces e desapareces.
Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas
ou como o anúncio luminoso do prédio em frente
que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.
Quando voltará?

É como se soubesses
que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.
Quando, e se voltar, serei eu talvez
quem já lá não está. Quando
é quando?
Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar
à possibilidade dessa forma?

Estes corpos que somos são estranhas
invenções delirantes: tu não tens rodas e contudo
rodaste como se uma hélice te elevasse
só de um lado, te aspirasse até um outro estrato
aéreo, ou como se tu própria, folha aérea,
folheasses o ar e o mundo estremecesse
fora dos eixos.

Isso imprime-se nas areias do cérebro.

Depois, viesse um vento
e desfaria as dunas desse mapa:
a impressão ondula, muda de lugar, mas
resiste. É uma fotografia desfocada
uma tatuagem a outra sobreposta
uma cicatriz que esqueceu a ferida.

Interrompe-se aqui e ali
deixa de ser uma linha fina, um risco
no mundo, para ser uma corda que se entrança
e entrança o mundo.
Há qualquer coisa de movente fixo:
por mais que o tentes, o programa não deixa
que se apague toda e para sempre.
Desligas a máquina, mas o sulco permanece
no écran. Escreves-lhe em cima:
não desaparece, mas troca automática
mente algumas letras;
Encharcas-te em álcool, tabaco e comprimidos
mas a coisa insiste movida pelo fluxo
e refluxo das imagens, das águas, das areias, das sombras.

Há, houve uma rotação do teu corpo
e há qualquer coisa de irreparável
que me fizeste quando rodaste no mundo –
o quase homem aposta tudo em que voltará.
Joga tudo em que o mundo regressará
a essa forma de uma onda suspensa na música
a essa rotação fora dos eixos.

Porque é que dizes então «irreparável»?
Irreparável aponta para onde?
Irreparável é o mesmo que antiquíssima
e não idêntica?
A cicatriz é irreparável porque a ferida é perpétua,
esquecida e perpetua?
Tocas-lhe a milímetros de distância,
como quem não quer
a coisa,
e tu devias dar e não dar por isso.
Dir-se-ia que o ar se moveu, que uma coluna
do tempo se deslocou, dançou como a luz por entre nuvens
na parede verde de um canavial.

Há uma rotação irreparável do teu corpo
irreparável quer dizer que já não a podes parar
irreparável é alumbrada a alegria
o ar fugindo todo o mar subindo até ocupar
todo o campo do céu e
contudo
pudesses respirar o ar irrespirável.
Contra todas as evidências em contrário, a alegria

in Teatros do Tempo, Lisboa: Editorial Caminho, 2001

Manuel Gusmão nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

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2015-12-11

Uma pedra na infância - Manuel Gusmão (na passagem do septuagésimo aniversário)


Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância
Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas e o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite no poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.

in Migrações do Fogo, Editorial Caminho, Lisboa, 2004.

Manuel Gusmão nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
O rio divide-te
Já ali não estavas
As Claras Imagens
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2014-12-11

AS CLARAS IMAGENS - Manuel Gusmão

Supõe aquele homem sentado na redonda brancura
de um pátio em que o sol chove as paredes transparentes.
Ele olha a tremenda e maligna glória do dia: sim,
sou uma pedra de sob o sol, mas uma pedra cheia de noite.
Então, as máquinas de cena apagam toda a luz e acendem
uma imagem semovente e fixa do universo;

da noite do universo;

o homem, esse, é aqui um velho braço de mar; uma bicicleta
incompleta em que o vento inventa a música agreste
e frágil; um rádio antigo continuando a soar enquanto
vai caindo pelos degraus da última casa. Este homem
é um cão cego; uma repetição inútil; uma cadeira
baloiçando vazia ao pé de um candeeiro cuja luz decai.

A última irmã (na ordem da invenção)
trouxe uma cadeira para o pátio com a palmeira
inventada ao centro e pensa para ele:
Dizemos que as nuvens do outono se despedem
por música
da glória do oiro incendiado alto.
Vivemos tempos que não merecíamos. Há muito
que te pressentia assim: um homem afogado e
depositado na praia. Um homem a quem secaram
toda a música. Mas porquê tão cedo?
Porquê das claras imagens tão cedo te perdeste?
Respiras demasiado alto, oiço o teu esforço
e é contra esse som que te digo: Diz-me
o que queres. Se quiseres virei sentar-me
aqui mesmo, de frente para ti. Como agora.
Sim, fico,
ficarei à espera de te ver a entrar nela.
Estarei cá -
demasiado tarde mas um pouco antes -
virei a tempo de te ver entrar
na tua morte.
Guardarei em mim a tua figura vacilante firme
a desaparecer entrando nela.
Guardarei essas imagens e esquecê-las-ei tão fundo
quanto puder, até as ter no cinema do sangue, nas
mãos que te inventaram, até as ter em dedos.
E mais tarde voltarei então ao lugar da tua ausência
e sílaba por sílaba cantarei por ti
cantarei em direcção a ti
as claras imagens em que morrias.
E escreverei no piano
das águas
as provas de que viveste, de que estiveste vivo
um dia.

"Migrações do Fogo", 2004

 MANUEL GUSMÃO nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
O rio divide-te
Já ali não estavas
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2013-12-11

O rio divide-te... - Manuel Gusmão

O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.

[in Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, 2013]

MANUEL GUSMÃO nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
Já ali não estavas
As Claras Imagens
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2012-12-11

Já ali não estavas - Manuel Gusmão

Já ali não estavas.
Quando te pedi já nunca tinhas existido;
nem eu nem a rocha
na pequena praia onde estivéramos.
Depois foram todos os nomes do corpo:
eu tentava mas não conseguia reuni-los.
Ficariam como os pedaços daquele vaso que não se pode reconstruir todo
porque é menor que as suas partes.
E depois foram desaparecendo, levando-me o próprio nome e a fala do mundo.
Já não existiam nem eu existia já.
Já nunca tínhamos existido agora.

MANUEL GUSMÃO nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
As Claras Imagens
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2011-12-11

As Claras Imagens - Manuel Gusmão

Supõe aquele homem sentado na redonda brancura
de um pátio em que o sol chove as paredes transparentes.
Ele olha a tremenda e maligna glória do dia: sim,
sou uma pedra de sob o sol, mas uma pedra cheia de noite.
Então, as máquinas de cena apagam toda a luz e acendem
uma imagem semovente e fixa do universo;

da noite do universo;

o homem, esse, é aqui um velho braço de mar; uma bicicleta
incompleta em que o vento inventa a música agreste
e frágil; um rádio antigo continuando a soar enquanto
vai caindo pelos degraus da última casa. Este homem
é um cão cego; uma repetição inútil; uma cadeira
baloiçando vazia ao pé de um candeeiro cuja luz decai.

A última irmã (na ordem da invenção)
trouxe uma cadeira para o pátio com a palmeira
inventada ao centro e pensa para ele:
Dizemos que as nuvens do outono se despedem
por música
da glória do oiro incendiado alto.
Vivemos tempos que não merecíamos. Há muito
que te pressentia assim: um homem afogado e
depositado na praia. Um homem a quem secaram
toda a música. Mas porquê tão cedo?
Porquê das claras imagens tão cedo te perdeste?
Respiras demasiado alto, oiço o teu esforço
e é contra esse som que te digo: Diz-me
o que queres. Se quiseres virei sentar-me
aqui mesmo, de frente para ti. Como agora.
Sim, fico,
ficarei à espera de te ver a entrar nela.
Estarei cá -
demasiado tarde mas um pouco antes -
virei a tempo de te ver entrar
na tua morte.
Guardarei em mim a tua figura vacilante firme
a desaparecer entrando nela.
Guardarei essas imagens e esquecê-las-ei tão fundo
quanto puder, até as ter no cinema do sangue, nas
mãos que te inventaram, até as ter em dedos.
E mais tarde voltarei então ao lugar da tua ausência
e sílaba por sílaba cantarei por ti
cantarei em direcção a ti
as claras imagens em que morrias.
E escreverei no piano
das águas
as provas de que viveste, de que estiveste vivo
um dia.


"Migrações do Fogo",2004

Manuel Gusmão nasceu em Évora a 11 de Dezembro de 1945

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2009-12-11

A Terceira Mão - Manuel Gusmão

A terceira mão é uma outra hipótese
tentada: a reunião por um anel de fogo
de dois que nada nem outrém ligariam,
a terceira mão é a mão que te empurra
para território desconhecido e aquela
que te guia em terra de ninguém: no pavor
que abala a noite do teu corpo,
que abalado fora antes pela alegria;
o susto erguido do desequilíbrio
a vibrar por dentro das cordas
que te emprestam -
por quanto tempo mais? - o equilíbrio;
a desesperada repetição do sonho
em que olhas para trás
e nada vês já
a não ser
a extensão da neve
que rápida e elástica apagou
os vestígios do corpo
que nela se abatera.

Manuel Gusmão (nasceu em Évora a 11 de Dezembro de 1945)

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2008-12-11

A velocidade da luz (excerto) - Manuel Gusmão

Corpo feminino daqui

Há uma rotação do teu corpo
ou de uma parte dele que está pelo todo
e fora dos eixos do mundo.
Rodas a partir da cintura, estendes um braço,
há um músculo que se ilumina, uma onda
vertical em que tu própria te subisses;
então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta
oblíquo sobre o mundo que nesse instante
se suspende.

Há uma rotação do teu corpo –
Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio
um rumor que alumia a sombra silenciosa;
na sala, o homem quase surdo quase cego
ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.

Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:
há uma rotação no teu corpo
que me exclui do mundo e
entretanto é feita para mim; atinge-me
à velocidade da luz.
E eu o homem quase surdo quase cego
sou tomado pelo vento do fogo que me consome
até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz
o incêndio restante sob a exausta crosta da terra

Estavas, estiveste ali.
O tempo recomeça.
Apareces e desapareces.
Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas
ou como o anúncio luminoso do prédio em frente
que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.
Quando voltará?

É como se soubesses
que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.
Quando, e se voltar, serei eu talvez
quem já lá não está. Quando
é quando?
Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar
à possibilidade dessa forma?

Manuel Gusmão (nasceu em Évora a 11 de Dezembro de 1945).

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