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2016-02-17

INSTRUÇÕES DUM BARÃO NOVO, A UM CRIADO VELHO - Xavier de Novais


Ó João!... anda cá, quero falar-te,
Pra ensinar-te a viver d’hoje em diante;
E nada tens depois pra desculpar-te,
Se um dia eu te chamar tolo ou tratante!
Ora olha se escutas bem!
Hein?...

No modo de tratar é mister que andes
Com mais delicadeza, e com cuidado:
Olha que já não sou Sê Zé Fernandes,
Como sempre até’qui me tens chamado!
Se não és homem capaz...
Zás!...

E não te queixes! – graças aos sob’ranos,
Sou hoje Sê Barão de cascas d’alhos:
Já servi, como tu – e há poucos anos
Que pra sempre deixei esses trabalhos! –
Inda tu serás barão,
João!

E não te rias! – olha que o dinheiro
É capaz de fazer virar-se o mundo!
Não hás de ser barão ou conselheiro,
Só porque outrora foi carreiro imundo
Teu pai ou teu avô?...
Bô!...


Não chames a tua ama – Sêra Aninhas,
Que ela agora é também – Sê Baronesa;
Se vier a Maria das Soquinhas,
Ou outra minha irmã, Ana Teresa,
“’Stá cá o meu irmão?”
– Não! –

Que não saiba ninguém que essas mulheres
São irmãs dum fidalgo tão distinto;
E previne-as tu lá, como puderes,
Que ouvir delas um – tu – já não consinto!
Que elas o não saibam já,
Vá!

Carreiros todos são os meus parentes,
E não sabem tratar com gente nobre;
Mas quando traga algum roupas decentes,
E tu vejas que à porta se descobre,
E – “O sê Barão ‘stá cá?”
– ‘Stá! –

Sempre à porta estarás – e tem paciência,
Que para outros serviços te não chamo:
Darás a toda a gente uma excelência,
Pra que saibam, assim, que a tem teu amo;
E se algum se rir de mau,
Pau!...

E quando no portal juntos estejam
À espera de teu amo, alguns sujeitos;
Embora malcriados eles sejam,
E conversem, notando-me defeitos,
Tu, como quem não ouviu,
Siu!...

Inda mesmo que algum mais atrevido
Diga que rico sou por ser tratante,
Que sou por grande parvo conhecido,
E, por minha conduta degradante,
Na nobreza um labéu,
Chéu!...

Não te esqueças, João, do que te digo,
Nem faltes ao programa um só momento;
Bem vês que hoje um Barão é grande amigo!
E atende a que o teu regulamento,
Sem falta começará
Já!

Se um vosmecê me dás, ou à tua ama,
Tomando contra ti, por mariola,
Vingança que esse crime atroz reclama,
Fecho-te... lanço mão duma pistola,
E sem ter pesar algum,

Pum!...

Faustino Xavier de Novais nasceu a 17 de fevereiro de 1820, no Porto, e faleceu a 16 de agosto de 1869, no Rio de Janeiro, Brasil.


Nota do Webmaster: Afinal, como se vê, o mundo não muda muito. Aplica-se com toda a propriedade a episódios atuais!...

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2015-02-17

O BARÃO E O DOUTOR - Xavier de Novais

B. – Senhor Doutor, dá licença? –
D. – Não sei quem é que está aí! –
B. – Seu criado – eu vou entrando…
D. – Oh! Vossência por aqui!

A Senhora Baronesa
Como passa? – Tem saúde?…
Quis ir ontem visitá-la…
Tive que fazer, não pude.

B. – Eu le digo… vai andando;
Mas sempre com suas teimas,
Não quer tomar o remédio
Que le deu pras almorreimas!

Tem-se queixado do Omnibus,
Anda muito incomodada;
Mas tem lá seus carrapichos,
E então, não quer tomar nada.

D. – Pois, Senhor, queira Vossência
Ver se pode resolvê-la
A entregar-se à Medicina,
Que eu amanhã irei vê-la.

Vá-lhe dando alguns passeios,
Roubando-a à meditação;
Que é sempre, nessas moléstias,
Proveitosa a distração.

B. – Ai… bô… bô!… alguns passeios!…
Ela em casa nunca está;
Não há por i uma festa
Onde eu com ela não vá!

Já foi à Foz ver o hydroppico,
E onte fomos ó triato;
E por sinal, que chegamos
No fim do purmeiro acto.

A propósto, meu amigo,
Que me diz à Companhia?
Aquela Lucrécia Borges
Foi bem… apois não iria?

Olhe qu’aquele… o… Finório,
Qu’é cunhado da Jordana,
Canta bem… é bô maritmo,
E nunca… nunca se engana!

E o outro tenor baixito,
Chamo-le o basso profundo,
Tamém é bô … e bem mostra
Que tem pratega do mundo.

E a Jordana! Isso é que canta
Com’eu inda não ouvi!
Não sei por que esses janotas
Dão mais palmas à Ponti!

D. – A Ponti é como artista
Cousa muito sup’rior,
B. – O quê?… melhor qu’a Jordana?…
Nada… nada… não senhor!

A Ponti, não gosto dela;
– Não digo qu’é mau contralto;
Mas é muito presumida…
A outra canta mais alto.

Não faz uns tais gargarejos;
Mas quem sabe o que ela foi?…
Tem um cantar grosso e forte,
Qu’as vezes parece um boi!

Quando, há dias, dava palmas
À Ponti, certo magote,
Enfim – pequenas misérias –
Disse eu lá do cambarote.

É gente que não entende,
Gosta duma bacatela;
A Ponti se é boa dama,
Eu não engraço com ela!

Diga-me – que livro é esse,
Que lia quando eu cheguei?
D. – Era o Hahnemann. – B. – Conheço,
Grande poeta… bem sei!

O Senhor Doutor se lesse
A Fremosa Mangalona,
Havia de gostar muito;
Olhe que é muito ratona!

E quando quiser bons livros
Faça favor d’ir por lá:
Também tenho o Calros Mano…
Eu l’os mandarei pra cá.

D. – São bons livros – eu conheço-o;
Fico obrigado a Vossência;
Mas o tempo que me resta
Emprego-o só na ciência.

B. – Na ciência?… e é bô livro?
E quantos balumes tem?…
Ah!… já sei… eu ‘stava tolo…
São quatro… tenho-os tamém!

Olhe que eu sou dado às letras,
E gosto de me istruir:
Pois de falar?… quando falo
Todos gostam de m’ouvir.

Mas passemos a oitra coisa:
Estes retratos quem são?
Vamos cá dar volta à sala,
E faça-me a explicação.

Daquele estão-me a dar ares;
Não será um meu besinho?
D. – É Lamennais. – B. É o mesmo,
Já lhe merquei muito binho.

Ora diga-me – e aquele
Que tem anéis no cabelo?
Aquele home é estrangeiro,
Que eu não me lembro de vê-lo.

D. – De certo não, que é antigo,
Já não é dos tempos seus;
Nem é possível, Vossência
Ter visto o Rei dos Judeus.

B. – O Rei dos Judeus! – É este? –
Oh que soberbo tratante!
Não sei como quer em casa
Um retrato semelhante!…

Eu cá sou escrupuloso
Nisto de religião:
O Rei dos Judeus! – Arruda!
E na casa dum cristão!…

Este sim… não é o Bispo?…
O D. Jiromeno? … é…
Morreu… coitado… era um home
Em que eu tinha muita fé.

E por via das exéquias…
Por se meter a pregar,
É que se foi… que era rijo,
Inda podia durar.

D. – Eu não sei que lhe viesse
Daí, moléstia de morte!
Com o estudo… a vigília…
Podia bem, que era forte!

B. – Mas olhe cá, meu amigo,
Aqui pra nós: – qu’ é vigília?…
D. – Falta de sono. – B. – Isso, isso…
Tudo por causa da Emília…

Um home que tem idade
E quer fazer de rapaz,
Metido nesses excessos,
Não sabe a asneira que faz!

Enfim, Doutor, vou-me à praça,
Que deve agora estar cheia:
– Até à noite, qu’ habemos
De bêr-nos na Sumboleia.

in A vespa do Parnaso, 1854

Faustino Xavier de Novais nasceu a 17 de fevereiro de 1820, no Porto, e faleceu a 16 de agosto de 1869, no Rio de Janeiro, Brasil.

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