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2017-05-30

O Longe e o Perto - Ribeiro Couto

Jardim à Noite Uploaded on flickr.com by kapa jota

Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.

Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.

Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.


Ribeiro de Almeida Couto (n. Santos, São Paulo a 12 de março de 1898; m. em Paris a 30 de maio de 1963)

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2014-05-30

Monólogo da noite - Ribeiro Couto

Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...

A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.

Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.

Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).


Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos (SP) a 12 de Março de 1898 e faleceu em Paris a 30 de Maio de 1963.

Ler do mesmo autor: Noite de Tormenta; Santos; O Longe e o Perto; Elegia; Fado de Maria Serrana; 

No Jardim da Penumbra

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2013-05-30

No Jardim da Penumbra - Ribeiro Couto (na passagem dos 50 anos sobre o seu desaparecimento)

foto: Jardim silencioso


Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos (SP) a 12 de Março de 1898 e faleceu em Paris a 30 de Maio de 1963. Foi jornalista em São Paulo (1915/18) e, após concluído o curso de Direito (1919), no Rio (1919/22). Promotor público dos estados de São Paulo (1924/ 25) e de Minas Gerais (1926/28), acabou por se dedicar à carreira consular, a partir desta última data: Marselha, Paris, Haia, Lisboa, Belgrado. Estreou-se em livro com os «Poemetos de Ternura e Melancolia» (1924), dando origem ao penumbrismo (confidência, surdina, suavidade e meios tons). O seu avô materno era português e ele próprio ainda era primo do escritor Adolfo Casais Monteiro, o que provocou o volume de «Correspondência de Família» (1933). Quando permaneceu em Portugal como secretário de embaixada, reuniu as suas produções poéticas de 1914 a 1943 no volume «Dia Longo» (1944) e publicou também «Uma Noite de Chuva e outros contos». Depois, editar-se-iam ainda «Entre Mar e Rio» (1952) e «Sentimento Lusitano» (1963).

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

Ler do mesmo autor: Noite de Tormenta; Santos; O Longe e o Perto; Elegia; Fado de Maria Serrana
 

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2012-03-12

Fado de Maria Serrana - Ribeiro Couto

Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?

Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.

Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.

Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.

Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.

Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.

Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.425

Extraído daqui

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos (SP) a 12 de Março de 1898 e faleceu em Paris a 30 de Maio de 1963. Foi jornalista em São Paulo (1915/18) e, após concluído o curso de Direito (1919), no Rio (1919/22). Promotor público dos estados de São Paulo (1924/ 25) e de Minas Gerais (1926/28), acabou por se dedicar à carreira consular, a partir desta última data: Marselha, Paris, Haia, Lisboa, Belgrado. Estreou-se em livro com os «Poemetos de Ternura e Melancolia» (1924), dando origem ao penumbrismo (confidência, surdina, suavidade e meios tons). O seu avô materno era português e ele próprio ainda era primo do escritor Adolfo Casais Monteiro, o que provocou o volume de «Correspondência de Família» (1933). Quando permaneceu em Portugal como secretário de embaixada, reuniu as suas produções poéticas de 1914 a 1943 no volume «Dia Longo» (1944) e publicou também «Uma Noite de Chuva e outros contos». Depois, editar-se-iam ainda «Entre Mar e Rio» (1952) e «Sentimento Lusitano» (1963).

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

Ler do mesmo autor: Noite de Tormenta; Santos; No Jardim em Penumbra; O Longe e o Perto; Elegia

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2011-05-30

SANTOS - Ribeiro Couto



Nasci junto do porto ouvindo o barulho dos embarques.
0s pesados carretões de café
Sacudiam as ruas, faziam trepidar o meu berço.

Cresci junto do porto, vendo a azáfama dos embarques.
O apito triste dos cargueiros que partiam
Deixava longas ressonâncias na minha rua.

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.
Os grãos de café, perdidos no lajedo,
Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,
Faziam sonhar (tantas mercadorias!)
E me ensinavam a poesia do comércio.

Sou também teu filho, ó cidade marítima,
Tenho no sangue o instinto da partida,
O amor dos estrangeiros e das nações.

Oh, não me esqueças nunca, ó cidade marítima,
Que eu te trago comigo por todos os climas
E o cheiro do café me dá tua presença.

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto (n. Santos, São Paulo a 12 Mar 1898; m. em Paris a 30 de Mai de 1963)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2010-05-30

Elegia - Ribeiro Couto

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...


Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto (n. Santos, São Paulo a 12 Mar 1898; m. em Paris a 30 de Mai de 1963)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2009-05-30

O longe e o perto - Ribeiro Couto

Jardim à Noite Uploaded on flickr.com by kapa jota


Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.


Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.


Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.


Ribeiro de Almeida Couto (n. Santos, São Paulo a 12 Mar 1898; m. em Paris a 30 de Mai de 1963)

Ler do mesmo autor, neste blog: No Jardim Em Penumbra; Santos; Noite De Tormenta

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2008-05-30

Santos - Ribeiro Couto

Café foto daqui

Nasci junto do porto ouvindo o barulho dos embarques.
0s pesados carretões de café
Sacudiam as ruas, faziam trepidar o meu berço.

Cresci junto do porto, vendo a azáfama dos embarques.
O apito triste dos cargueiros que partiam
Deixava longas ressonâncias na minha rua.

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.
Os grãos de café, perdidos no lajedo,
Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,
Faziam sonhar (tantas mercadorias!)
E me ensinavam a poesia do comércio.

Sou também teu filho, ó cidade marítima,
Tenho no sangue o instinto da partida,
O amor dos estrangeiros e das nações.

Oh, não me esqueças nunca, ó cidade marítima,
Que eu te trago comigo por todos os climas
E o cheiro do café me dá tua presença.


Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto (n. em Santos (SP) a 12 de Março de 1898; m. em Paris a 30 de Maio de 1963).

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2008-03-12

Noite de Tormenta - Ribeiro Couto

A mão do vento é má e me procura;
fria, contra o meu rosto a não quisera,
mão que saiu de alguma sepultura
da mais perdida, mais remota era.

Nenhuma porta mais está segura:
o vento trouxe alguém que ali me espera,
alguém que, com cicios de conjura,
ri escarninho do pavor que gera.

Em noites de tormenta como esta,
penso na mão que outrora me acudia,
meigamente pousada em minha testa.

Cessou a chuva. O vento já não ouço.
A casa é como um berço… Principia
seu brando movimento de balouço…

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos (SP) a 12 de Março de 1898 e faleceu em Paris a 30 de Maio de 1963. Foi jornalista em São Paulo (1915/18) e, após concluído o curso de Direito (1919), no Rio (1919/22). Promotor público dos estados de São Paulo (1924/ 25) e de Minas Gerais (1926/28), acabou por se dedicar à carreira consular, a partir desta última data: Marselha, Paris, Haia, Lisboa, Belgrado. Estreou-se em livro com os «Poemetos de Ternura e Melancolia» (1924), dando origem ao penumbrismo (confidência, surdina, suavidade e meios tons). O seu avô materno era português e ele próprio ainda era primo do escritor Adolfo Casais Monteiro, o que provocou o volume de «Correspondência de Família» (1933). Quando permaneceu em Portugal como secretário de embaixada, reuniu as suas produções poéticas de 1914 a 1943 no volume «Dia Longo» (1944) e publicou também «Uma Noite de Chuva e outros contos». Depois, editar-se-iam ainda «Entre Mar e Rio» (1952) e «Sentimento Lusitano» (1963).

Soneto e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2007-05-30

No Jardim em Penumbra - Ribeiro Couto

foto: Jardim silencioso


Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto (n. Santos, São Paulo a 12 Mar 1898; m. em Paris a 30 de Mai de 1963)

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