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2021-05-05

INTERMÉDIO - Luís Amaro


Alguém que se ignora
Passeia a sua mágoa
Lá pela noite fora.
Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,
Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)


De Luís Amaro é também exte excerto:

Quando vier a tristeza, 
Faz que ela tenha uma grandeza. 
Quando vier a rara alegria, 
Faz que ela seja pura
como a luz do dia.


Francisco Luís Amaro nasceu em Aljustrel em 5 de maio de 1923 e faleceu em Lisboa a 24 de agosto de 2018

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2021-04-08

Egito Gonçalves - Com Palavras

Woman with a Flower - 1932 by Pablo Picasso (nasceu em Málaga a 25 Out 1881 e m. em Mougins, França a 8 Abr. 1973)
 
 
 
Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
E saio para a rua.
Com palavras — inaudíveis — grito
Para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
Em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
Para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
Roxas de silêncio. De que servem
Asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
As que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
As poderei navegar; se alguma vez
Dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
E faltam-me palavras para contar...
 
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"'
 
José Egito de Oliveira Gonçalves (Matosinhos, 8 de abril de 1920; Porto, 28 de janeiro de 2001)

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Sara Correia - Mais uma estrela no Fado

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2021-03-18

Carta ao Oceano - António Nobre

Ó Grande Alma trágica e sombria!
Quando hás-de enfim, na campa repousar?
Após a luta persistente e fria,
Ah, quanto é bom morrer... dormir... sonhar...

Estrebuchas nas ânsias da agonia,
Há mil e tantos séculos, ó Mar!
E nunca cessas de lutar, um dia,
E nunca morres, Alma singular!

Mas, ao chegar teu último momento, 
Quando zurzir nos ares a metralha
Da tua alma desfraldada ao vento:

Envolto nessa líquida mortalha,
Tu cairás prostrado, sem alento,
Como um guerreiro ao fim d'uma batalha!


António Nobre  (n. 16 agosto de 1867, Porto ; m. 18  de mar 1900 Porto (Foz do Douro))
Poesia Completa, 1867-1900
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

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2021-03-04

TUA FRIEZA AUMENTA O MEU DESEJO - Eugénio de Castro

Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Enquanto sinto para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei,
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com esp'rança,
Amar sem esp'rança é o verdadeiro amor.

Eugénio de Castro (n. em Coimbra a 4 Março de 1869; m. em Coimbra, a 17 de Agosto de 1944)

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