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2014-09-15

O Relógio - Rubem Alves

Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas… De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio… De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: “Tempus fugit“. E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes húmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar “dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola“ de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência… O relógio batera aquelas horas – e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tomava num pedido de socorro: “Não quero morrer…“ Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda – (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) – subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir… Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam. O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. "Tempus fugit". O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir… Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do “Tempus fugit“ pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada.

Tenho saudades dele. Por sua tranqüila honestidade, repetindo sempre, incansável, “Tempus fugit“. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: “Estou atrasado, estou atrasado…“

Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de São Silvestre?

Correr para chegar, aonde?

Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão.

O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: “Tempus fugit“.

E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o ruído tranqüilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões…

Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: “Estou atrasado, estou atrasado…“

Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria:

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…


Extraído daqui dos Badulaques de Rubem Alves

Rubem Alves (Boa Esperança, Minas Gerais, 15 de setembro de 1933 — Campinas, São Paulo, 19 de julho de 2014)

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2010-09-15

Quando te vi amei-te já muito antes ou Cinderela para tempos modernos - Rubem Alves (no dia do 77º aniversário)

Era uma vez um casal que era feliz sem ser rico. O pai era professor, gostava de brincar com as crianças e achava que ler era a coisa mais divertida do mundo. A mãe era artista e tocava flauta doce. Moravam numa casa modesta com um jardim na frente e um pomar nos fundos. Tinham uma filha chamada Bruna. Bruna desde pequena dormia ouvindo sua mãe tocar flauta e o seu pai contar estórias. Cresceu, assim, amando música e leitura, coisas que trazem alegria e tornam bonita a alma.

Ao lado de sua casa vivia um casal que era rico e infeliz. A mãe se chamava Monique. Era muito bonita e adorava aparecer nas colunas sociais. A beleza requer cuidados constantes. Monique, assim, gastava o seu tempo e o seu dinheiro com cabelereiros, manicures, clínicas de estética, spas, regimes, operações plásticas, lojas, perfumes e jóias. Suas duas filhas se chamavam Michelle e Brigitte, nomes franceses que, para ela, eram o máximo de elegância. Monique foi uma educadora bem sucedida, tanto assim que suas filhas em tudo se pareciam com ela. Gostavam de tudo que sua mãe gostava e gastavam tanto quanto sua mãe gastava. Com vidas assim socialmente intensas não lhes sobrava tempo para coisas de somenos importância que nada acrescentavam à sua beleza, tais como poesia e música. O pai era um homem solitário deixado num canto pois não conseguia conversar nem com sua mulher e nem com suas filhas. Refugiou-se numa edícula que fez construir no fundo do quintal. Ali se trancava e se dedicava à leitura e à música. O livro de que mais gostava era A morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, porque julgava que ele e Quincas Berro Dágua estavam ligados por um destino comum.

Aconteceu, entretanto, que a mãe de Bruna morreu. Não houve sepultamento porque ela pediu para ser cremada e suas cinzas foram soltas ao vento sobre o mar.

Na mesma ocasião o marido de Monique resolveu seguir o exemplo de Quincas Berro Dágua. No dia da sua aposentadoria, que ele mantivera em segredo, voltou para casa do trabalho, foi para o seu quarto, pegou uma mala e nela colocou suas roupas. Encaminhou-se então sorrateiramente para porta da saída, no que foi visto por sua mulher e filhas. Elas começaram a esbravejar todas ao mesmo tempo pedindo explicações para aquele ato insólito: "Como se atreve a sair assim, sem permissão, carregando uma mala?" Ele as olhou em silêncio, lembrou-se de Quincas Berro Dágua, ficou vermelho e soltou um urro que foi ouvido em todo o querteirão: "Jararacas!" Com essa palavra serpentina saiu de casa e nunca mais foi visto.

Monique não sentiu a menor falta do marido. Sentiu mesmo um certo alívio. Mas mulher sem marido fica sempre numa situação embaraçosa em festas e jantares. Sem o marido era como se ela estivesse sem um sapato. Não ia socialmente bem. Por isso ela ficou logo de tocaia, à espera do momento oportuno para lançar o seu charme sobre o pai de Bruna, vizinho viúvo disponível. Ele seria o sapato que lhe faltava. E o impossível aconteceu. Roído pela tristeza, enfraquecido nos miolos, ele se apaixonou pela megera. Isso não é de se estranhar porque da mesma forma como os homens mais saudáveis podem, repentinamente, ficar gravemente doentes, os homens mais sábios podem, repentinamente, ter um surto de loucura. Contrariando os conselhos de Bruna que percebia o que estava acontecendo, seu pai se casou com Monique, em cuja casa foram morar, porque era muito maior.

Mas a felicidade durou pouco. Porque a felicidade depende da capacidade das pessoas de conversar longamente, mansamente, numa boa. Conversa é como frescobol, bola prá lá, bola prá cá. Bruna e o seu pai jogavam com livros, poesia, música, pintura, jardinagem. Mas Monique, Michelle e Brigitte só sabiam jogar com festas, vestidos e colunas sociais.

Bruna, então, era deixada nos cantos, sozinha. Passou a ser motivo de zombaria. Até que se cansou e tomou a decisão de se refugiar na edícula do fundo do quintal onde se dedicava a ler e a tocar flauta doce, de um jeito parecido ao da Gata Borralheira, que se refugiara na cozinha, longe da madrasta e suas filhas malvadas.

Vivia naquela cidade um empresário muito rico. Era viúvo e tinha um só filho que nascera cego. Seu pai, entristecido, deu-lhe um nome lindo, tirado de um antiqüíssimo mito grego. Era o nome de um sábio que era cego: Tirésias. Tirésias era um lindo jovem, corpo harmonioso, inteligente, culto e destinado a herdar a fortuna do pai. Seu pai se angustiava pensando que, com a sua morte, seu filho ficaria sozinho. Cego, ele precisava arranjar uma esposa que cuidasse dele. Com o que Tirésias concordava: "É certo, meu pai. Mas eu só me casarei com uma mulher com quem terei prazer em conversar até o fim dos meus dias, uma mulher que seja sensível e culta..."

Onde descobrir tal esposa para o seu filho? Ele teve, então, uma idéia: um baile! Tirésias dançava maravilhosamente! Flutuava no escuro! Dançando, tendo uma moça nos seus braços, eles conversariam... E, quem sabe, assim, ele descobriria a mulher com quem teria prazer em conversar pelo resto de sua vida!

Dito e feito. Anunciou-se o baile. Todas as jovens e suas mães se agitaram. As mães sonham sempre com um genro rico... Michelle e Brigitte fizeram vestidos novos, foram ao cabelereiro, à manicure, escolheram jóias e perfumes. Quando viram Bruna, caíram na risada. Bruna usava um velho vestido que sua mãe lhe fizera. E ela mesma penteara o seu cabelo. "Você não tem vergonha? Está parecendo uma mendiga. Todos vão rir de você!" Bruna não disse nada. Não tinha nada para dizer.

O salão de bailes estava cheio de moças lindas e chiques. A orquestra começou a tocar. As mães, esperançosas, traziam suas filhas até Tirésias. Ele as tomava delicadamente, começava a dançar e lhes fazia uma única pergunta: "Fale-me sobre as coisas de que você mais gosta!"

As jovens, que só conheciam o mundo da visão, falavam de vestidos, viagens, festas, televisão... Tirésias pensava: "Não, não terei prazer em conversar com essa moça até o fim de minha vida..." Pedia licença, parava de dançar e começava a dançar com outra jovem. E a mesma coisa se repetia. Tirésias já havia perdido as esperanças quando chegou a vez de Bruna. "Fale-me sobre as coisas de que você mais gosta", ele lhe disse. E ela começou a falar sobre livros, sobre poesia, sobre música... Tirésias ficou encantado. Não queria parar de dançar. Bruna ficou em silêncio. Tirésias então lhe disse: "Quando te vi amei-te já muito antes..." Esse é um verso de Fernando Pessoa, a mais linda declaração de amor jamais escrita! Bruna não deixou que ele terminasse. Completou o segundo verso: "Tornei a encontrar-te quando te achei..." O rosto de Tirésias se encheu de felicidade. Abriu-se num sorriso. Ah! Aquela moça conhecia o seu mundo! Com ela, ele poderia conversar pelo resto de sua vida!

Michelle e Brigitte, que observavam de longe, perceberam o que estava acontecendo e decidiram interferir. O relógio da igreja batia as doze badaladas: meia noite! As duas correram para Bruna e lhe contaram uma mentira: "Seu pai telefonou. Acabou de chegar de viagem. Está com dores no peito. Pode ser um um enfarto. Pediu que você vá para levá-lo ao hospital..." Bruna não hesitou. Saiu correndo deixando Tirésias com os braços vazios...

O rosto de Tirésias se cobriu de tristeza. Havia deixado escapar o amor que sempre procurara. E nem mesmo o seu nome sabia. Como encontrá-la? Parou de dançar e saiu do salão. E com isso a festa acabou.

Na cama, sem dormir, ele pensava: "O que fazer para encontrá-la?" Até que uma maravilhosa idéia lhe ocorreu. Convidou todas as moças a que viessem conhecer o seu jardim. Foi um alvoroço geral! Quem sabe uma delas seria escolhida!

Tirésias as recebia, uma a uma, assentado num banco do jardim. Os jasmins estavam floridos. O perfume era delicioso! Quando elas se assentavam ele dizia uma única frase. E ficava em silêncio. As moças se sentiam perdidas, sem saber o que dizer. Começavam a tagarelar, dizendo tolices. Ele, então, delicadamente as despedia e pedia que uma outra entrasse. E a mesma coisa acontecia.

Até que chegou a vez de Bruna. Tirésias não a reconheceu. Não podia ver o seu rosto. Disse, então, a mesma frase que dissera para todas:

"Quando te vi, amei-te já muito antes..."

E Bruna completou: "Tornei a encontrar-te quando te achei..."

Não precisaram dizer palavra alguma. Abraçaram-se, rindo de felicidade. A busca chegara ao fim.

O casamento foi marcado e todas as moças, suas mães e pais foram convidados.

A festa foi maravilhosa, com música, danças, fontes luminosas, sinos, fogos de artifício, e coisas deliciosas de se beber e comer.

E todas as jovens receberam, como recordação, um presente de Tirésias: um livro, embrulhado e amarrado com uma fita amarela: Obra Poética de Fernando Pessoa, com uma dedicatória que dizia assim: "Esperamos, Bruna e eu, que você aprenda a gostar de poesia. Pois é da poesia que nasce o amor."

Quanto a Tirésias e Bruna, viveram felizes muitos anos, até a velhice, conversando sempre alegremente sobre as coisas que tornam bela a vida... E mesmo depois de esgotados os fogos efêmeros do amor jovem, eles continuaram a se amar aquecidos pela chama suave da ternura, até o fim...

(Correio Popular, 28/09/2003)

Rubem Alves (nasceu em Boa Esperança, MG, a 15 de setembro de 1933)

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