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2013-06-03

POEMA SONHADO - Alphonsus de Guimaraens Filho

Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis [do assombro.

Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade? 

 Alphonsus de Guimaraens Filho (Mariana, MG, 3.6.1918 — RJ, RJ, 28.8.2008)

Ler do mesmo autor, neste blog: Soneto da Ausência; O Poeta e o Poema

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2011-06-03

O Poeta e o Poema - Alphonsus de Guimaraens Filho

Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.

Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.

(...)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.

Alphonsus de Guimaraens Filho (Mariana, MG, 3.6.1918 — RJ, RJ, 28.8.2008)

Ler do mesmo autor, neste blog: Soneto da Ausência

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2010-06-03

Soneto da Ausência - Alphonsus de Guimaraens Fº.

Minha amada tão longe! Com franqueza,
eu penso sempre em me mudar daqui,
pôr na sacola o pão que está na mesa,
sair vagabundando por aí.

A luz do quarto ficará acesa
(foi neste quarto que eu me conheci...).
Deixarei um bilhete sobre a mesa,
dizendo a minha mãe por que parti.

Ah! ir cantando pelo mundo afora
como um boémio amigo das cantigas,
alma febril que a música alivia!

Se perguntarem, digam: "Ainda agora
saiu buscando terras mais amigas,
mas é possível que ele volte um dia".


ALPHONSUS DE GUIMARAENS Fº. é o pseudónimo de Afonso de Guimarães, filho do poeta do mesmo nome e nascido em Mariana (MG) a 3 de Junho de 1918. Bacharel em Direito por Belo Horizonte (1940), foi também jornalista e, em 1936, auxiliar directo do presidente Juscelino Kubitschek. Publicou "Sonetos com Dedicatória" em 1956. Apesar da filiação, a fidelidade à memória do pai não o impediu de cantar com voz própria. O poeta faleceu no Rio de Janeiro em 28 de Agosto de 2008.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004. A nota sobre a biografia do poeta foi completada por nós com a inclusão da data do seu falecimento.

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2008-07-24

Quando eu disser adeus... - Alphonsus de Guimaraens Filho

flor vermelha daqui

Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.

Afonso Henriques de Guimarães Filho nasceu em 03 de Junho de 1918 em Mariana - Minas Gerais; faleceu a 28 de agosto de 2008 no Rio de Janeiro - RJ

Ler do mesmo autor:
Soneto da Defunta Formosa
Soneto: Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto

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