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2015-11-26

a um rato morto encontrado num parque - Mário Cesariny

Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas - tão junto ao focinho! -
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário

Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo - com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa - e aos médicos - ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos - vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?

Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?

Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

(Pena Capital)

Extraído de Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um panorama
Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores, Rio de Janeiro

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 de agosto de 1923; m. em Lisboa a 26 de novembro de 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
you are welcome to elsinore
Outra coisa
Em todas as ruas te encontro
Pastelaria
história de cão

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2014-11-26

you are welcome to elsinore - Mário Cesariny

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 de agosto de 1923; m. em Lisboa a 26 de novembro de 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
Outra coisa
Em todas as ruas te encontro
Pastelaria
história de cão

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2014-08-09

história de cão - Mário Cesariny


Pintura de Manuel Cesariny

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada.

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia.

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar.

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo.

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada.
mas de nós não há memória.

dos lados não ficou nada.

extraído de Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, um panorama, organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Agosto de 1923; m. em Lisboa, 26 de Novembro de 2006)

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2012-08-09

OUTRA COISA - Mário Cesariny

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa.
Exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo Mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

(Poemas de Londres 1971)

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Ago 1923; m. em Lisboa a 26 Nov 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
Em Todas as Ruas te Encontro
Pastelaria
história de cão

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2011-08-09

Em todas as ruas te encontro - Mário Cesariny



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Ago 1923; m. em Lisboa a 26 Nov 2006)

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2009-08-09

história de cão - Mário Cesariny


Pintura de Manuel Cesariny

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada.

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia.

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar.

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo.

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada.
mas de nós não há memória.

dos lados não ficou nada.

extraído de Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, um panorama, organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Agosto de 1923; m. em Lisboa, 26 de Novembro de 2006)

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2007-11-26

Pastelaria - Mário Cesariny

Na passagem do primeiro aniversário da morte do poeta e pintor português

Quadro de Mário Cesariny

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao
precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
Porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 de Agosto de 1923; m. em Lisboa a 26 de Novembro de 2006).

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2007-08-09

Em todas as ruas te encontro - Mário Cesariny





Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Ago 1923; m. em Lisboa a 26 Nov 2006)

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