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2013-12-27

Poema X de Uma Noite em Duíno (1990) - Domingos de Oliveira

- a lentidão dos anos
deixa-me
cada vez mais longe
o teu silêncio

mas sofro ainda
qual mensageiro cego
num labirinto sendas
de deserto em Beja

por onde poderiauma última vez
ver-te deixares-me
para sempre? -

in DEVASTAÇÕES E OUTROS FASTOS poemas escolhidos (pág. 42). Edição da UNICEPE, Porto, 2010-11-19

Domingos de Oliveira nasceu em Silvalde, Espinho, em 27 de Dezembro de 1936.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Ao Luar
Soube de ti na primavera

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2013-09-10

Neste leito de ausência em que me esqueço - Ferreira Gullar

Rio - foto daqui

Neste leito de ausência em que me esqueço,
desperta um longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,

de silêncio e silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


José Ribamar FERREIRA GULLAR nasceu em São Luís do Maranhão a 10 de Setembro de 1930, mas, a partir de 1951, fixou-se no Rio de Janeiro. Aí, publicou um poema de vanguarda, «A Luta Corporal» (1954), que está na origem do movimento concretista, e participou, em São Paulo, na Exposição de Poesia Concreta (1956). Mais tarde, tornou-se dissidente do concretismo, dando origem ao neo-concretismo (1957/58) e insurgiu-se contra a Ditadura Militar (1964), pelo que foi processado, preso e exilado na Argentina, só regressando à Pátria em 1977. Entretanto, publicara o «Poema Sujo» (1975). Poeta, dramaturgo e ensaísta, a sua poesia é rica de substância e densa de sentido político.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Nota: A Ferreira Gullar foi atribuído o Prémio Camões 2010. O soneto que hoje se revisita no Nothingandall, relembrando a data do nascimento do poeta, e que, como se vê acima, faz parte de uma extraordinária colectânea de sonetos da língua portuguesa da editora Unicepe, fora divulgado aqui no blog em 10 de setembro de 2008 ou seja anteriormente à atribuição ao autor do maior galardão literário da língua portuguesa.

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
No Corpo
Cantiga para não morrer
Um Instante
Traduzir-se

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2011-10-24

Rios - Amadeu Amaral


Rio Douro imagem daqui

Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios – árvores e tectos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;

vão reflectindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios predilectos;

fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.

Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado nasceu em Capivari (SP) a 6 de Novembro de 1875 e faleceu em São Paulo a 24 de Outubro de 1929. Chegou em 1888 à capital do estado e, em 1921, abordou o Rio de Janeiro, mas depressa regressou a São Paulo. Foi jornalista e conferencista, dedicou-se ao magistério particular, notabilizou-se pelos seus estudos folclóricos e foi pioneiro de estudos dialectológicos. Como poeta, integrou-se na transição do parnasianismo para o simbolismo.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto da Serpente
Lua
Voz Íntima
Versos Nevoentos
Sonho der Amor

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2011-07-20

Não tenho paz nem posso fazer guerra / Pace non trovo e non ho de far guerra - Francesco Pretrarca

Não tenho paz nem posso fazer guerra;
temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
e voo para o céu, e desço à terra,
e nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
nem me retém nem solta o duro laço;
entre livre e submissa esta alma erra,
nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
e sonho perecer e ajuda imploro;
a mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
a morte como a vida enfim deploro:
e neste estado sou, Dama, por vós.


Francesco Petrarca (n. em Arezzo 19 Jul 1374, m. em Pádua 20 Jul 1304)

Tradução de Jamil Almansur Haddad, do original:


Pace non trovo e non ho da far guerra;
e temo e spero, ed ardo e son un ghiaccio;
e volo sopra'l cielo e giaccio in terra
e nulla stringo e tutto 'l mondo abbracio.

Tal m'ha in prigion che non m'apre nè serra,
nè per suo mi ritien nè sciogle il laccio;
e non m'ancide Amor e non mi sferra,
nè mi vupl vivo nè mi trae d'impaccio.

Veggio senz'occhi, e non ho lingua e grido;
e bramo di perir e chieggio aita;
e ho in odio me stesso ed amo altrui.

Pascomio di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiacecmorte e vita:
in questo stato sion, donna, per vui.


Francesco Petrarca

Retirado de "A Circulatura do Quadrado"- Alguns dos mais belos sonetos de poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa"; introdução, coordenação e notas António Ruivo Moutinho - Edição Unicepe

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2011-06-25

Soneto - Rodolfo Alves de Faria


A sombra geme aqui. Ruínas este soneto.
A arcaria da frase é um esgarado momo
e, sobre este papel, erguem-se os versos como
velhos muros de pedra ou restos de esqueleto.

A imagem lembra um curvo e triste cinamomo,
onde a hera da dor se enrosca ao tronco preto
e passeia, através da quadra e do terceto,
a saudade que reza, em religioso assomo.

Senta-se a mágoa sobre os escombros dispersos
do hemistíquio onde bate o coração dos versos
e em derredor rasteja o verme dos gemidos;

e como um braço, amor, que no outro braço arrima,
cai, em música estranha, a rima sobre a rima,
num sonoro rumor de mármores partidos.

Rodolfo Alves de Faria (Maceió, AL 23/3/1871 - Maceió AL 25/6/1899)

Poema extraído de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2011-06-13

Ser e Não Ser - José Bonifácio

Se te procuro, fujo de avistar-te
e, se te quero, evito mais querer-te;
desejo quase... quase aborrecer-te,
e, se te fujo, estás em toda parte.

Distante, corro logo a procurar-te
e perco a voz e fico mudo ao ver-te;
se me lembro de ti, tento esquecer-te
e se te esqueço, cuido mais amar-te.

O pensamento assim partido ao meio
e o coração assim também partido,
Chamo-te e fujo, quero-te e receio.

Morto por ti, eu vivo dividido;
entre o meu e o teu ser sinto-me alheio
e, sem saber de mim, vivo perdido!


José Bonifácio Ribeiro de Andrada Machado e Silva nasceu em Santos (SP) a 13 de junho de 1763 e faleceu em Niterói (RJ) a 6 de Abril de 1838. Bacharelou-se em Direito Civil e Filosofia Natural pela universidade de Coimbra e doutorou-se em 20 de junho de 1801. Entretanto, recebera uma bolsa de estudo (1790), que lhe permitiu viajar, durante uma década, por França, Alemanha, Itália, Inglaterra e Escandinávia, onde frequentou universidades, museus, bibliotecas, instituições científicas, laboratórios, minas e instalações fabris de fundição de metais, e contactou os maiores sábios, desde Lavoisier a Alexandre von Humboldt, tornando-se assim um naturalista, mineralogista e geólogo de reputação internacional. Dominava, aliás, meia-dúzia de línguas. Leccionou Geognosia e Metalurgia na universidade onde se formara, chegou a tenente-coronel do batalhão académico durante as invasões francesas, foi intendente da polícia no Porto e secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa (1812/1819). Nesta última data, regressou ao Brasil e, em 1822, era Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas conheceu o exílio em França, de 1823 a 1829. Foi então que aproveitou para publicar os seus poemas, sob o pseudónimo de Américo Elísio, «Poesias Avulsas» (Bordéus 1825), revelando-se um autor de transição entre o Arcadismo e o Romantismo. Devido à sua acção no domínio político, é considerado o Patriarca da Independência Brasileira.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2011-05-11

Lembrando DOROTHY HODGKIN

Na próxima quinta-feira, dia 12 de Maio, pelas 19H 45, a Unicepe leva a efeito, amanhã, pelas 19H45, na cidade do Porto, o 113º. Jantar de Amizade, sob a epígrafe "Lembrando DOROTHY HODGKIN”, a propósito do 101º. aniversário da laureada com o Prémio Nobel da Química de 1964, que descobriu a estrutura tri-dimensional da Pepsina, da Penicilina, do Colesterol, da Vitamina B12 e da Insulina; na sessão serão abordados outros vultos, a propósito do Ano Internacional da Química, pela Professora Doutora RAQUEL GONÇALVES MAIA (CV aqui)

imagem daqui

Dorothy Mary Crowfoot (mais tarde Hodkin), nasceu no Cairo, Egito em 12 de Maio de 1910 e faleceu em 29 de Julho de 1994, em Ilmington, Warwickshire, Inglaterra.

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2010-12-27

No aniversário de Domingos de Oliveira

Soube de ti na primavera.
O puríssimo arroio parecia eterno.

Mas já nas dunas do verão senti
demasiado grande a espera.

Nas cidades de outono procurei
incessante, de rua em rua, de rosto em rosto.

Só à entrada do inverno, caía a noite,
na neve vi que passaste.


in DEVASTAÇÕES E OUTROS FASTOS poemas escolhidos (pág.89). Edição da UNICEPE, Porto, 2010-11-19

Domingos de Oliveira nasceu em Silvalde, Espinho, em 27 de Dezembro de 1936.

Ler do mesmo autor, neste blog, Ao Luar

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2010-11-19

Ao Luar - Domingos de Oliveira



Luar

Vamos por ruas pejadas de solidões fúteis
e sempre nos acontece voltar mais velhos,
ou cansados, ou vazios, frios, com espelhos
quebrados mil bocados inúteis.
Nada há, nem palavras, que dilua
por um momento este sarro de imagens
gastas de saudades de viagens
em praias que há no lado de lá da lua.
E nem esses cafés que sem ver bebemos
em três golpes mal medidos, sumidos
no sorvedouro da boca, freiam os sentidos
dos ressequidos lábios dos nervos.
A lua, que é tão real à noite, silente,
ilumina o vazio céu, indiferente.


in Devastações e Outros Fastos, poemas escolhidos de Domingos Oliveira, Unicepe, lançado hoje 19 de Novembro de 2010 na passagem do 47º aniversário da Unicepe.

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2010-08-24

Incitamento - Oliveira Guerra

Eu sei, poeta, que não lograrás
matar a fome negra com o talento
e que, por certo, um dia morrerás
imerso num profundo esquecimento.

Mas também sei que, se o Destino faz
mercê a alguém dum bem de que é avarento,
dessa mercê mal digno tu serás
se lhe não deres emprego e valimento.

Trabalha a tua língua com fervor
que, embora tarde, um dia o teu valor
há-de ser tido como maravilha.

...Se um diamante se perder na estrada,
há-de encontrá-lo mão aventurada,
porque entre as pedras negras ele brilha.


Manuel de Oliveira Guerra nasceu a 24 de Agosto de 1905 em Oliveira de Azeméis e morreu subitamente no Porto a 5 de Julho de 1964. Autodidacta, estreou-se nas letrasem 1932 com a edição do livro de poemas "Padre Nosso", a que se seguiria a escrita de "Ave Maria", só publicado em 1960. Não se trata, porém, de poesia religiosa, conforme se poderia deduzir dos títulos, mas antes de obras anticlericais, de sátira à Igreja, na senda do autor de "A Velhice do Padre Eterno". Publicou mais um livro de contos, "Caminho Longo" (1960) e novos volumes de poesia: "Algemas" (1962) e "Coisas desta Negra Vida" (1963). No ano de 1960 fundara, no Porto, o Círculo de Estudos Galaico-Portugueses, que viria a editar a revista "Céltica", dedicada à cultura luso-galaica-brasileira.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2010-06-03

Filomena Cabral nasceu no Porto em 3 de junho de 1944

Mar

Kurikutela que passas,
Kurikutela me leva,
me leva p'ra ver o mar.
Diz qu'é azur como o céu
mas não pode acreditar.
Kurikutela, pruquê?
Pruquê não foste parar?
Só quiria ver kalunga
só quiria ver o mar!


(Kurikutela = comboio
Kalunga = mar)

in MUXIMA, Poemas, 1979
incluido em Angola NO ENTRETANTO DO TEMPO Urila-o-Kimbi
DIFEL, Lisboa, 1994

Filomena Cabral nasceu no Porto a 3 de Junho de 1944. Poeta, ficcionista e jornalista, viveu em Angola na década de 60. Foi co-fundadora da revista Serpente. Apesar de ter começado pela poesia (1976), revela-se plenamente na ficção, sobretudo a partir do romance Tarde de mais Mariana (1985). Tem colaborado em vários jornais e revistas, destacando-se O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias, O Comércio do Porto, Diário de Lisboa, Jornal de Letras e Letras & Letras. Com três dezenas de títulos publicados, Filomena Cabral escreve regularmente em www.unicepe.com. O artigo de ontem intitula-se FERREIRA GULLAR - PRÉMIO CAMÕES 2010

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2010-05-26

Quatorze versos... - Ide Blumenschein

Quatorze versos; rimas e medida
para que a forma seja sem defeito;
e, na primeira quadra - 'inda escondida -
- a imagem sugestiva ou algum conceito.

Para à segunda quadra dar efeito,
o poeta, muita vez, tem dura lida;
pois, num ritmo melódico e escorreito,
a ideia deve ser compreendida.

O primeiro terceto vai subindo
a escala da emoção e é sempre lindo,
dela trazendo a máxima expressão.

Depois, a chave-de-ouro, enclausurando
a jóia num escrínio, e revelando
o poder imortal da Inspiração!


Poema extraído de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ide (Adelaide) Schoenbach Blumenschein (nasceu na cidade de São Paulo em 26 de maio de 1882, vindo a falecer na madrugada do dia 14 de Março de 1963)

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2010-05-01

Recordando Mário Beirão na passagem do 120º aniversário : Adeus

foto: Outono (extraída daqui)

Teu nome, que entalhei num tronco idoso
dum ermo onde as saudades me levaram
e os ventos que, contrários alteraram
a noite tumular em que repouso,

teu nome se debuxa no ar luminoso
em letras que memórias se tornaram;
nas campas dos que amando se finaram,
sorri como um sorriso milagroso...

Teu nome luz de Outono se há tornado
e, no voo do vento, adeus profundo
e, no Tempo, saudade do Passado...

Amor, por ti vaguei, vivo, morri;
teu nome, vem da Morte e acorda o Mundo:
sou eu, sou eu, sempre a chamar por ti!

Poema extraído de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Mário Pires Gomes Beirão (n. em Beja a 1 Mai 1890; m. em Lisboa a 19 Fev. 1965)

Ler do mesmo autor e neste blog:
O Vago
Ausência
Cintra

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2010-01-18

Estrela da Tarde - Ary dos Santos (na passagem do 26º. aniversário da sua morte)



Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

José Carlos Ary dos Santos (n. em Lisboa a 7 Dez. 1937; m. 18 Jan 1984)

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O 102º Jantar de Amizade UNICEPE a realizar hoje, segunda feira 18 de Janeiro, pelas 19h 45m tem por tema "ARY, saudade e combate".

O escritor César Príncipe intervirá sobre a obra de Ary - que sempre se recusou a ser um "poeta castrado" - e assinalará os 76 anos da Revolta da Marinha Grande, um marco na luta do povo português contra o salazarismo. A actriz Cidália Santos e o actor Amílcar Mendes darão voz a poemas de Ary. A entrada é livre.

Paralelamente decorre uma exposição fotográfica sobre o Poeta de Abril.

A partir das 21h30m a entrada é livre. Para o jantar, às 19h45m, é necessária a inscrição, pessoalmente ou para o e-mail Unicepe@net.novis.pt

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2009-09-23

Sugestões Culturais: Poesia e Fotografia

A Unicepe nas suas Noites de poesia e música dedica o programa desta noite das 21h30 as 23h00 a homenagear  Antero de Quental. Uma boa oportunidade para ouvir e dizer poesia na Praça Carlos Alberto, 128A, na cidade do Porto.

Entretanto, para quem gosta de fotografia e tendo como tema a India foi inaugurada no passado sábado uma exposição de Ester Afonso, nossa amiga da blogosfera. Tive oportunidade de assistir à abertura e há vastos motivos de interesse para fazer uma visita  ao salão nobre do Grupo Recreativo e Musical  A Flor do Infesta, sito a Rua do Padre Costa, 118, em São Mamede de Infesta, para poder partilhar de momentos fotográficos de côr, magia e exotismo. A exposição decorre até ao dia 2 de Outubro, no horário 9,30/12,30 e 14,30/18,00


Aproveito para reiterar os meus parabéns à autora, também webmaster do blog  Momentos Perfeitos.

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2009-09-09

...Depois - Guimarães Passos (no centenário da morte do poeta)

Para mim, pouco importa a recompensa
dos meus carinhos, quando te procuro;
dirão que tens um coração tão duro,
que pedra alguma há que em rijeza o vença.

Dirão que a calculada indiferença
com que tu me recebes, é seguro
condão que tens, de todo o meu futuro
trocar, sorrindo, em desventura imensa.

Dirão... Que importa a mim? Dá-me o teu leito.
Dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,
une os lábios aos meus, o peito ao peito,

que eu nem saiba qual seja de nós dois...
Mentem teus beijos? Mentem teus abraços?
Seja tudo mentira... mas depois.

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe

Sebastião Cícero dos Guimarães Passos nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 22 de março de 1867, e faleceu em Paris, no dia 9 de setembro de 1909.

Ler do mesmo autor, neste blog: Pubescência

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2009-06-23

100º. Jantar de Amizade UNICEPE - Quinta-feira, 25 de Junho

A UNICEPE no âmbito do desenvolvimento das suas acções culturais e de amizade promove na próxima quinta feira, a partir das 19:45 horas, o seu 100º. Jantar de amizade sob o tema:

"Viagem às Nascentes da Lusitanidade”

Recepção à caravana de brasileiros, na sua maioria escritores, conduzida pela Thesaurus Editora (de Brasília).

Com apresentação do livro Terra do Gado, pelo Autor AFONSO LIGÓRIO e palestra “Portugal colónia: capital Rio de Janeiro”, por RUI RASQUILHO.

Ementa: Sopa de alho francês, lombo de porco com castanhas, água, vinho maduro tinto Vila Régia, pão-de-ló de Ovar, café, Porto Poças. Preço: 15,00 €

Nothingandall congratula-se com a iniciativa, felicita a Direcção da Unicepe por tão longo e profícuo percurso e convida os seus leitores a associarem-se ao evento, podendo ainda (devendo, digo eu!) fazer a inscrição o mais rápido possível para:

UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL
Praça de Carlos Alberto, 128-A
4050-159 PORTO
Telefone (351) 222 056 660

Pode obter mais informações no sitio institucional UNICEPE.

Entretanto, já amanhã 24 de Junho das 21h30 às 23h, no mesmo espaço, há Noites de Poesia e Música (devido a ausência inadiável no estrangeiro do Associado Agostinho da Silva, quem virá entremear as suas canções com a poesia de Jorge de Sena será o Associado Ivo Machado). Participará a caravana brasileira da "Viagem às nascentes da Lusitanidade" (entrada livre).

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2008-11-01

O Canto dos Pastores - Silva Alvarenga

Flores no Campo imagem daqui

Que saudoso lugar!... Em roda, as flores
nascem por entre a relva; estes pinheiros
parecem suspirar também de amores...

O Zéfiro respira; o sol formoso
vai dos troncos as sombras aportando,
que já se inclina o carro luminoso...

O rouxinol te está desafiando;
querem-te ouvir os verdes arvoredos
que o vento faz mover de quando em quando;
e a musa que de amor sabe os segredos...

Risonhas flores, que um estreito laço
formais de vossos ramos na floresta,
sei que Glaura vos ama... Pela sesta,
deixai-vos desfolhar no seu regaço.


Manuel Ignácio da SILVA ALVARENGA nasceu, mestiço, em Vila Rica (MG) em 1749 e morreu no Rio de Janeiro a 1 de Novembro de 1814. Bacharel em Direito Canónico pela universidade de Coimbra (1771/ 76), aí publicou um poema herói-cómico, «O Desertor das Letras» (1774), e parece que chegou a exercer advocacia em Lisboa. Regressado ao Brasil em 1777, passou a advogar em Rio das Mortes (MG), de onde, em 1782, transitou para o Rio de Janeiro, como professor de Retórica e Poética. Aí escreveu e ensaiou várias peças de teatro. Pertenceu à Arcádia Ultramarina, com o nome de Alcindo Palmireno, e reuniu a sua obra lírica na «Glaura» (1799). Denunciado por ideias subversivas, conheceu o cárcere por mais de dois anos (1794/97), mas acabou libertado por falta de provas.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2008-10-30

Apagou-se, por fim, o incerto lume ... - Alfredo Guisado

Lume imagem daqui

Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguia.

Apagou-se, por fim, o lume incerto…
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr’a o além era o mais perto
e pr’a voltar a mim o mais distante.

Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.

Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.

Alfredo Pedro de Meneses Guisado nasceu a 30 de Outubro de 1891 em Lisboa, onde faleceu a 2 de Dezembro de 1975. De ascendência galega, completou o curso de Direito, em 1921, na sua cidade natal, mas nunca exerceu a advocacia, dedicando-se antes ao jornalismo e à intervenção cívica: deputado do Partido Republicano Português, chegou a ser governador civil substituto e director-adjunto do diário «República». Colaborador da revista «Orpheu», foi um poeta paúlico e sensacionista, mais afim de Sá-Carneiro do que de Pessoa. Bilingue, tanto escrevia em português («Distância», 1914) como em galego («Xente d' Aldea», 1921) e ora assinava Alfredo Guisado ora Pedro de Meneses.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2008-10-29

Sombra... - Bernardo de Passos

Rebanho imagem daqui

Nestes ermos, ouvindo a voz das fontes,
de humildes alegrias fui pastor;
meus rebanhos guardava com amor,
contemplando os longínquos horizontes...

Árvores maternais, que ergueis as frontes
verde-tristes, num gesto criador,
junto a vós semeei sonhos em flor,
que vestiram de rosas estes montes...

Mas tudo – riso e sonhos – me levaram...
Perdi meu gado, meus jardins secaram,
já neles não há rosas nem alfombras!

Doura a tarde estes ermos de abandono...
E eu passo – folha morta dum Outono,
sombra vaga a errar por entre sombras!


Bernardo Rodrigues de Passos nasceu em São Brás de Alportel (Algarve) a 29 de Outubro de 1876 e morreu cego em Faro a 1 de Junho de 1930. Começou por se dedicar à vida comercial e ao ensino particular mas, propagandista entusiasta da República, veio a ser administrador do concelho de Faro e, depois, secretário da respectiva Câmara Municipal. Bondoso, tímido e modesto, se tinha reduzida cultura e escassa leitura, não lhe faltava poder emotivo, sensibilidade artística, pureza de forma e elevação de pensamento. Como poeta, evoluiu do decadentismo para o neo-romantismo. A sua melhor recolha é de publicação póstuma: «Refúgio» (1936).

Ler do mesmo autor: Soneto e Quadras Soltas

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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