Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Dionísio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Dionísio. Mostrar todas as mensagens

2015-11-17

XXV [Estamos agora em paz ] - Mário Dionísio

Estamos agora em paz
sabendo simular o esquecimento

sentados

com os olhos no vento
lá de fora atirado para antes
de nós as mãos caídas
nos joelhos mas nada suplicantes
só esvaídas

conformados
com não nos conformarmos

resignados
a esperando não esperarmos

como se tudo fosse um imenso tanto faz

in Terceira Idade, 1982

Mário Dionísio (n. Lisboa, 16 de julho de 1916 — m. Lisboa, 17 de novembro de 1993)

Do mesmo autor:
Arte Poética
Para ser lido mais tarde
Depois de Mim
Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro
Complicação

Read More...

2015-07-16

ARTE POÉTICA - Mário Dionísio

Mário Dionísio, O Músico, 1948,
 tinta de esmalte sobre tela, 130 x 97 cm 


A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

in Mário Dionísio Poemas, Colecção Novo Cancioneiro nº 2, Coimbra, 1941

Mário Dionísio (n. Lisboa, 16 de julho de 1916 — m. Lisboa, 17 de novembro de 1993)


Do mesmo autor:
Para ser lido mais tarde
Depois de Mim
Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro
Complicação

Read More...

2014-11-17

Para Ser Lido Mais Tarde - Mário Dionísio

Auto-retrato de Mário Dionísio 1945



Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar.

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara

1953
in O Silêncio Voluntário, 1966

Extraído de Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Selecção, organização, introdução e notas Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993)

Do mesmo autor:
Depois de Mim
Deitei agora mesmo o açucar no cinzeiro
Complicação

Read More...

2014-07-16

Depois de Mim - Mário Dionísio

Um dia (sei-o bem)
os campos ficarão eternamente floridos
e a chaga que me inquieta
deixará de sangrar em todos os peitos.
Os homens já não estarão curvados sobre as terras.
E a leiteira não virá mais trazer-me as bilhas com seu ar de humildade.
A mulher dos ovos e o homem da fruta,
o rapaz pobre envergonhado de dizer: eu sei,
o camponês prestando contas da estação,
os vultos negros do subsolo,
a linda mãe solteira,
deixarão de sorrir com humildade.
Humildade ficará nos dicionários como esqueleto em museu arqueológico.
Eu próprio nunca mais farei baixar as pálpebras
e deixarei que o sol me inunde bem nos olhos.
Um dia
(ah sinto-o bem para além das milhentas folhas de todos os tratados).
uma onda de amor invadirá tudo e todos.
E será uma primavera diferente de todas as primaveras
porque ainda não foram inventadas as palavras para exprimi-la.
Simplesmente, nesse dia primeiro da nova criação, eu já terei partido.
Minha carne estará funda de mais para sentir o beliscão da alegria.
E os olhos cheios de terra
não verão os campos levantados
nem os campos eternamente floridos
nem a leiteira sem o seu ar de humildade
Porém, que importa?
Um dia, sei-o bem, todos estarão até-que-enfim de acordo.
Que importa a minha ausência?
Que importa que eu não venha a saborear os frutos da própria árvore?
Que é isso -
ao pé da inabalável certeza desse dia admirável?

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993)

Do mesmo autor:
Deitei agora mesmo o açucar no cinzeiro
Para Ser Lido Mais Tarde
Complicação

Read More...

2013-11-17

Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro - Mário Dionísio (na passagem dos 20 anos do seu desaparecimento)

Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro
Caiu-me a cinza no café
Onde pensei azul vejo vermelho
E a linha como tonta alheia e brusca se desprende
e furta à intenção da mão que a traça

O que o dia todo desenhei
eu próprio olho espantado e espantado não sei
em verdade o que é

Rigoroso analista que nos outros tudo entende
que se passa?


in Memória dum pintor desconhecido, Portugália Editora, 1965

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993)

Read More...

2013-07-16

COMPLICAÇÃO - Mário Dionísio

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.


Mário Dionísio (Lisboa, 16 de julho de 1916 - Lisboa, 17 de novembro de 1993)

Do mesmo autor: Para Ser Lido Mais Tarde

Read More...

2012-07-16

Para Ser Lido Mais Tarde - Mário Dionísio

Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Um outro dia haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara

1953
(O Silêncio Voluntário - 1966)

Voz de Luís Gaspar (daqui)

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993)

Read More...

2011-11-17

Para Ser Lido Mais Tarde - Mário Dionísio

Auto-retrato de Mário Dionísio 1945



Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar.

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara


1953
in O Silêncio Voluntário, 1966

Extraído de Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Selecção, organização, introdução e notas Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993)

Read More...