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2016-03-08

ADEUS - João de Deus


A ti que em astros desenhei nos céus,
A ti que em nuvens desenhei nos ares,
A ti que em ondas desenhei nos mares,
A ti, bom anjo, o derradeiro adeus!

Parto! Se um dia (que é possivel flor!)
Vires ao longe negrejar um vulto,
Sou eu que aos olhos desta gente oculto
O nosso imenso desgraçado amor.

Talvez as feras ao ouvir meus ais,
As brutas selvas, as montanhas brutas,
Côncavas rochas, solitárias grutas,
Mais se condoam, se comovam mais!

E lá daquelas solidões se aqui
Chegar gemido que uma pedra estale,
Que um cedro vibre, que um carvalho abale,
Sou eu que o solto por amor de ti...

De ti, que em folha que varrer o ar,
Em rama, em sombra que bandeie a aragem,
De fito sempre nessa cara imagem
Verei, sorrindo, sentirei passar!

De ti que em astros desenhei nos céus!
De ti que em nuvens desenhei nos ares!
De ti que em ondas desenhei nos mares,
E a quem envio o derradeiro adeus!


in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João de Deus de Nogueira Ramos, nascido em 8 de março de 1830 em São Bartolomeu de Messines (Silves) e falecido em Lisboa em 11 de janeiro de 1896.

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2013-03-08

De «A ViDA» - João de Deus

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!


(Campo de Flores, 1893)
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI, Porto Editora

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Ego Dormio, Et Cor Meum Vigilat
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
Agora
Miséria...
Soneto De «O Seu Nome» - João de Deus
Na Campa de Antero de Quental - João de Deus

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2012-03-08

Ego Dormio, Et Cor Meum Vigilat - João de Deus

I
Bebeste para esquecer
As mágoas do coração;
Mas ele é que não esquece,
Ele é que não adormece
Como adormecer a razão.

II
- Eu durmo, diz Salomão;
Mas durmo exalando ais!
Que o meu coração vigia
E sente como sentia...
Se ainda não sente mais!...


III
Não é com vinho que extrais
O veneno desse amor...
Apagas o pensamento,
E deixas o sentimento
Sem equilíbrio na dor!


IV
Tais nos fez o Criador,
Que sem a luz da razão
Bem se reclina a cabeça;
Mas embora ela adormeça,
Vela sempre o coração!

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernmando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora
Miséria...
Soneto De «O Seu Nome» - João de Deus
Na Campa de Antero de Quental - João de Deus

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2012-01-11

Soneto De «O Seu Nome» - João de Deus



Ela não sabe a luz suave e pura
Que derrama numa alma acostumada
A não ver nunca a luz da madrugada
Vir raiando, senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cansada,
A ela... única nuvem prateada,
Única estrela desta noite escura!

E mil anos que leve a Providência
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausência,

Ainda nesse instante apetecido
Será meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu último gemido.
[Campo de Flores, 1893]
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Na Campa de Antero de Quental
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora!
Miséria...

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2011-03-08

De «O SEU NOME» [Soneto] - João de Deus



Ela não sabe a luz suave e pura
Que derrama numa alma acostumada
A não ver nunca a luz da madrugada
Vir raiando senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cansada,
A ela... única nuvem prateada,
Única estrela desta noite escura!

E mil anos que leve a Providencia
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausência,

Ainda nesse instante apetecido
Será meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu ultimo gemido

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora Miséria...

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2011-01-11

Na Campa de Antero de Quental - João de Deus

Aqui... jaz pó, eu não; eu não sou quem fui...
Raio animado de uma Lua celeste
À qual a morte as almas restitui,
Restituindo à terra o pó que as veste.


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora.

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora
Miséria...

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2010-03-08

Miséria - João de Deus

Era já noite cerrada,
Diz o filho: "Ó minha mãe,
Debaixo daquela arcada
Passava-se a noite bem!"

A cega, que todo o dia
Tinha levado a andar,
A tais palavras do guia
Sentiu-se reanimar.

Mas saltam dois cães de gado,
Que eram como dois leões:
Tinha-os à porta o morgado
Para o guardar dos ladrões.

Tornam os pobres à estrada,
E aonde haviam de ir dar?
Ao palácio da tapada
Onde el-rei ia caçar.

À ceguinha meia morta
Torna o filho: "Ó minha mãe,
Ali no vão de uma porta
Passava-se a noite bem!"

- Se os cães deixarem... (diz ela,
A triste num riso amargo),
Com efeito a sentinela:
- "Quem vem lá?... Passe de largo!"

Então ceguinha e filhinho,
Vendo a sua esperança vã,
Deitaram-se no caminho
Até romper a manhã!...

in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância; selecção,organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora

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2010-01-11

Amor - João de Deus

Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
N'um teu olhar fortuito,
N'um teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado,
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges;

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idéia, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as fôrças te aniquila,
Que choras, mas tranqüila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo,
Lá quando à noite observo
O que no céo flutua;

Ou quando, à luz que adoro,
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo, e choro,

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

Extraído de Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos, prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho; Ministério dos Livros.

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A vida
Agora

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2009-03-08

ADEUS - João de Deus, na passagem do 179º aniversário


A ti que em astros desenhei nos céus,
A ti que em nuvens desenhei nos ares,
A ti que em ondas desenhei nos mares,
A ti, bom anjo, o derradeiro adeus!

Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)
Vires ao longe negrejar um vulto,
Sou eu que aos olhos d'esta gente oculto
O nosso imenso desgraçado amor.

Talvez as feras ao ouvir meus ais,
As brutas selvas, as montanhas brutas,
Côncavas rochas, solitárias grutas,
Mais se condoam, se comovam mais!

E lá daquelas solidões se aqui
Chegar gemido que uma pedra estale,
Que um cedro vibre, que um carvalho abale,
Sou eu que o solto por amor de ti...

De ti, que em folha que varrer o ar,
Em rama, em sombra que bandeie a aragem,
De fito sempre nessa cara imagem
Verei, sorrindo, sentirei passar!

De ti que em astros desenhei nos céus!
De ti que em nuvens desenhei nos ares!
De ti que em ondas desenhei nos mares,
E a quem envio o derradeiro adeus!

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João de Deus de Nogueira Ramos (João de Deus), nascido em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines (Silves) e falecido em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor:
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A vida
Agora

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2008-03-08

De dia a estrela de alva empalidece... - João de Deus

De dia a estrela de alva empalidece,
e a luz do dia eterno te há ferido!
Em teu lânguido olhar adormecido,
nunca me um dia em vida amanhecesse!

Foste a concha da praia! A flor parece
mais ditosa que tu! Quem te há partido,
meu cálice de cristal onde hei bebido
os néctares do Céu...se um Céu houvesse!

Fonte pura das lágrimas que choro,
quem tão menina e moça desmanchado
te há pelas nuvens os cabelos de ouro!

Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado!

JOÃO DE DEUS de Nogueira Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines (Algarve) a 8 de Março de 1830 e morreu em Lisboa a 11 de Janeiro de 1896. De 1849 a 1859, levou uma vida de boémio em Coimbra, até concluir o seu bacharelato em Leis. Paradoxalmente sensual e platónico, a sua poesia foi anti-ultra-romântica. Simultaneamente pedagogo e poeta, publicou a «Cartilha Maternal» (1876) e o «Campo de Flores» (1893). Em 8 de Março de 1895, foi alvo de uma manifestação apoteótica dos estudantes de todo o País e, quando faleceu, teve funerais nacionais.

Soneto e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2008-01-11

Agora! - João de Deus

Beautiful face

A luz que dá o teu rosto
É a luz da madrugada,
Mas vi-a quase ao sol posto
De uma vida amargurada...
Tão tarde vi o teu rosto!

Oh! Se na manhã da vida
Me raia logo essa aurora,
Quando folha e flor caída
me embelezara inda agora
O triste arbusto da vida!

Mas andei sempre às escuras...
Por onde nem se lobriga
Luz de estrelas nas alturas,
Quanto mais em face amiga...
Eu andei sempre às escuras!

E agora vendo a beleza
Dessa luz que me alumia,
Não sei se minha tristeza
É mais do que a minha alegria...
Vendo agora essa beleza!

João de Deus Ramos (n. em S. Bartolomeu de Messines a 8 Mar 1830; m. em Lisboa a 11 Jan. 1896).

Recomandamos do mesmo autor:
A Cigarra e a Formiga
A vida

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2007-04-17

Dia de anos

Com que então
Caíste na asneira
De fazer na terça-feira
Vinte e um anos. Que tolo
Ainda se os desfizesses
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo.

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo ? Coitado!

Não faças tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faz outra coisa : que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não te aconselho.

Mas anos, não caias nessa!
Olha que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

(João de Deus) com adaptação às circunstancias.

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2007-01-11

A Cigarra e a Formiga - João de Deus

Como a cigarra o seu gosto
É levar a temporada
De Junho, Julho e Agosto
Numa cantiga pegada,
De Inverno também se come,
E então rapa frio e fome!
Um Inverno a infeliz
Chega-se à formiga e diz:
- Venho pedir-lhe o favor
De me emprestar mantimento,
Matar-me a necessidade;
Que em chegando a novidade,
Até faço um juramento,
Pago-lhe seja o que for.
Mas pergunta-lhe a formiga:
"Pois que fez durante o Estio?"
- Eu, cantar ao desafio.
"Ah cantar? Pois, minha amiga,
Quem leva o Estio a cantar,
Leva o Inverno a dançar!"

João de Deus (n. em São Bartolomeu de Messines no Algarve, Portugal, em 8 de Março de 1830 e morreu em Lisboa em 11 Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor: A vida

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2006-03-08

A Vida - João de Deus

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

João de Deus Ramos (n. em S. Bartolomeu de Messines a 8 Mar 1830; m. em Lisboa a11 Jan. 1896).

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