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2011-08-01

Canção da lua que lava - Murilo Araújo



Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;

lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;

oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!

lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar —
nos terraços lageados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar —

lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar —

vem, lua, e lava minha alma!

Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.

Murilo Araújo (nasceu na cidade de Serro, Minas Gerais, Brasil, em 26 de outubro de 1894; m. em 1 de Agosto de 1980).

Ler do mesmo autor:
Na Praia
Viajante Estrangeiro
Visão

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2010-10-26

Na Praia - Murilo Araújo

Casal na praia contemplando o mar
imagem daqui

A tarde corava no ar...
Coravas tu, mais ainda
que a tarde. Cismavas. Linda,
cismavas diante do mar.

Não escreveste na areia
teu nome? - Pois com um olhar
escreveste-o mais, sereia,
no meu sonho. E vinha o mar...

A maré pôs-se a aumentar:
subiu... consumiu teu nome;
mas qual o mar que o consome
no meu sonho? qual o mar?

Cá tem de ficar escrito...
Sim: Nada o pode apagar,
nada: nem meu infinito
mar de lágrimas - um mar!

In: Carrilhões (1917)

Murilo Araújo (nasceu na cidade de Serro, Minas Gerais, Brasil, em 26 de outubro de 1894; m. em 1 de Agosto de 1980).

Ler do mesmo autor: Viajante Estrangeiro, Visão

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2009-10-26

VISÃO - Murilo Araújo

Tenho à noite a visão de que as estrelas de ouro
vão descendo ao meu sonho e vêm dançando em coro.

Sinto-as numa nevrose...
numa fascinação... numa alucinação!
– quer agonie ou goze —
eu as sinto nevoentas,
lânguidas e luarentas,
uma por uma dando o pálido clarão!

Uma diz: “chamo-me Apoteose!”
Outra diz: “chamo-me Afeição!”
Outra é, levíssima, a Confiança,
Outra — a Lembrança
Outra — a Ambição...

E assim tenho a visão de que as estrelas de ouro
Vêm, dançando, ao meu sonho e vão descendo em coro.

Mas choro de aflição...
pois falta a estrela que procuro em choro,
falta a que foi na terra um vulto louro,
falta a que está nos céus, e acha desdouro
descer e iluminar-me o coração!...

Murilo Araujo (nasceu na cidade de Serro, Minas Gerais, Brasil, em 26 de outubro de 1894; m. em 1 de Agosto de 1980).

Ler do mesmo autor: Viajante Estrangeiro

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2008-08-01

O Viajante Estrangeiro - Murilo Araújo

Minha viagem na terra
é a de um viajante num país desconhecido,
Não encontro ninguém do meu país.

Os que viajam comigo nesse trem estrangeiro
uns com os outros conversam como amigos...
Que falam eles? - Sei que falam uma linguagem
que, para mim, ai!, nada diz.

Todos podem comprar em aprazíveis paradas
frutos bons como beijos
ou braçadas de flor de um aroma tão bom!

Eu, porém, o forasteiro,
não obtenho esses gozos;
e olho-os, só com o Desejo,
imóvel, escutando a fuga surda do wagon.

Entram as jovens na estação. Que risos claros!
Não são, porém, do meu país.
E viajarei até o final sem nos falarmos,
sem conhecê-las, sem encontrar a frase-chave
com que dizer-lhes quanto me fariam feliz.

Sou de outro reino, onde se fala em melodia
intraduzível neste mundo para alguém.
Falo a música das ondas,
falo a música dos pássaros...
Uma estrela do céu, porém, me entenderia...
porque no céu é assim que se fala também.

Murilo Araujo (n. na cidade de Serro, Minas Gerais, Brasil, em 26 Out. 1894; m. no Rio de Janeiro a 1 Ago. 1980)

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