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2016-03-03

Moysés - Simões Dias


Estranho vulto, em pé, dos serros de Moab,
Lança o enturvado olhar às regiões fronteiras!
Sorri-lhe Manassé e as veigas de Judá
Acenam de Sêgor as virides palmeiras!

Vão-se-lhes os olhos d'alma, a voz lhe embarga o pranto,
Não lhes permite Deus na terra amada entrar!...
Tal qual sem alcançar-te, ó meu sonhado encanto
Vai morrer a teus pés meu derradeiro olhar!

in Peninsulares

José Simões Dias nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de março de 1899.

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2016-02-05

A Tua Roca - Simões Dias



Quando te vejo, à noitinha,
Nessa cadeira sentada,
O xaile posto nos ombros,
Na cinta a roca enfeitada,

Os olhos postos na estriga,
Volvendo o fuso nos dedos,
Os lábios contando ao fio
Da tua boca os segredos,

Eu digo sempre baixinho
Pondo os olhos na tua roca:
«Se eu pudesse ser estriga,
Beijaria aquela boca!»

Eu nunca te vi fiando
Sem invejar os desvelos
Com que desfias do linho
Os brancos, finos cabelos.

E aquela fita de seda
Que se enleia no fiado?
Eu nunca vejo essa fita
Que me não sinta enleado

Parece aquilo um abraço
Dum amor que é todo nosso,
A trança do teu cabelo
Em volta do meu pescoço.

Eu digo sempre baixinho
Vendo a fita que se enreda:
«Quem me dera ser a estriga,
E ela a fitinha de seda!»

Eu por mim não sei que
sinto,
De tristeza, se ventura,
Mal que suspendes a roca
Da tua breve. cintura.

Penso que fias nos dedos
Os dias da minha vida:
Ao pé de ti sempre curta,
Ao longe sempre comprida.

Pareces-me um ramilhete
Sentada nessa cadeira,
E a fita da tua roca
A silva duma roseira.

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga,
E ouvires por alta noite
Em voz baixa uma cantiga,

Sou eu que estou a lembrar-me
Dos beijos da tua boca,
E penso que em mim são dados
Os beijos que dás na roca.

José Simões Dias nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de março de 1899.

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2014-03-03

O Teu Lenço - Simões Dias

imagem daqui

O lenço que tu me deste
Trago–o sempre no meu seio,
Com medo que desconfiem
Donde este lenço me veio.

As letras que lá bordaste
São feitas do teu cabelo;
Por mais que o veja e reveja,
Nunca me farto de vê-lo.

De noite dorme comigo,
De dia trago – o no seio,
Com medo que os outro saibam
Donde este lenço me veio.

Alvo, da cor da açucena,
Tem um ramo em cada canto;
Os ramos dizem saudade,
Por isso lhe quero tanto.

O lenço que tu me deste
Tem dois corações no meio;
Só tu no mundo é que sabes
Donde este lenço veio.

Todo ele é de cambraia,
O lenço que me ofereceste;
Parece que inda estou vendo
A agulha com que o bordaste.

Para o ver até me fecho
No meu quarto com receio,
Não venha alguém perguntar-me
Donde este lenço me veio.

A cismar neste bordado
Não sei até no que penso;
Os olhos trago – os já gastos
De tanto olhar para o lenço.

Com receio de perdê-lo
Guardo – o sempre no meu seio,
De modo que ninguém saiba
Donde este lenço me veio.

Nas letras entrelaçadas
Vem o meu nome e o teu;
Bendito seja o teu nome
Que se enlaçou com o meu!

Por isso o trago escondido,
Bem guardado no meu seio,
Com medo que me perguntem
Donde este lenço me veio.

Quanto mais me ponho a vê – lo,
Mais este amor se renova;
No dia do meu enterro
Quero levá-lo p'ra cova.

Vem pô-lo sobre o meu peito,
Que eu hei-de tê-lo no seio;
Mas nunca digas ao mundo
Donde este lenço me veio.


José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor: Sol entre nuvens

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2014-02-05

Felicidade - Simões Dias (na passagem dos 170 anos sobre o seu nascimento)

Feliz quem descuidado a vida passa
No seio da opulência e do prazer
Quem nunca soube quanto amarga a taça
De empeçonhado e eterno padecer.

Feliz quem tem no coração ainda,
De um Deus piedoso, a abençoada paz,
Feliz quem nunca viu em face linda
Pérfidasd rosas de um amor falaz.

Venturoso na terra é por mil modos
Quem remorso não sente arfar-lhe o seio;
Feliz quem já morreu, mas sobre todos
Feliz quem nunca à luz do mundo veio!


José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil, a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor neste blog:
Sol entre nuvens
O Teu Lenço

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2013-02-05

A Mocidade - Simões Dias


Eu tinha um berço de rosas
Que minha mãe embalava;
Lembram-me ainda as cantigas
Que ao pé do berço cantava:

«Quem me ouvir assim cantando
Cuidará que estou alegre
Trago o coração mais negro,
Que a tinta com que se escreve.»

«Mas quem tem filhos pequenos
Por força lhe há de cantar
Quantas vezes as mães cantam
Com vontade de chorar!»

Ainda agora se escuto
Ás vezes esta cantiga,
Riem-se todos e eu choro
Não sei por que, doce amiga!

Lembram-me os dias felizes,
Os dias da mocidade,
As infantis inocências
Da minha primeira idade.

Lembra-me a face vermelha,
Que tinhas, quando me deste
Um dia de manhã cedo
Aquele beijo celeste!

Era o primeiro: coraste,
O beijo fez-te mais linda.
Depois fugiste. Recordas-te?
Eu lembro-me tanto ainda!

Da fita do teu pescoço
Pendia a cruzinha d'oiro;
Colete branco velava
Das pomas o alvo tesoiro.

Vê se te lembras: que tempos!
Nem tu sabes que saudades
Eu tenho, quando medito
Nessas primeiras idades.

Tu só me vales; se às vezes
Me vês triste e pensativo
Tu que me doiras os ferros,
Em que me vejo cativo!

Se te vejo, vejo a boca
Daquela que me beijava
Se cantas, ouço as cantigas
Que minha mãe me cantava.

Se me aconchegas ao seio
Os seios dela senti;
Se me levas à tua cama
Vejo o berço onde nasci.

Bendita sejas. No mundo
Vales-me tu na suadade
Tu só me tornas aos dias
Felizes da mocidade.

in O Mundo Interior, 2ª Edição melhorada, págs. 82 a 85
Coimbra. Imprensa da Universidade 1867

José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil, a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor neste blog:
Sol entre nuvens
O Teu Lenço

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2010-03-03

O TEU LENÇO - Simões Dias

imagem daqui

O lenço que tu me deste
Trago–o sempre no meu seio,
Com medo que desconfiem
Donde este lenço me veio.

As letras que lá bordaste
São feitas do teu cabelo;
Por mais que o veja e reveja,
Nunca me farto de vê-lo.

De noite dorme comigo,
De dia trago – o no seio,
Com medo que os outro saibam
Donde este lenço me veio.

Alvo, da cor da açucena,
Tem um ramo em cada canto;
Os ramos dizem saudade,
Por isso lhe quero tanto.

O lenço que tu me deste
Tem dois corações no meio;
Só tu no mundo é que sabes
Donde este lenço veio.

Todo ele é de cambraia,
O lenço que me ofereceste;
Parece que inda estou vendo
A agulha com que o bordaste.

Para o ver até me fecho
No meu quarto com receio,
Não venha alguém perguntar-me
Donde este lenço me veio.

A cismar neste bordado
Não sei até no que penso;
Os olhos trago – os já gastos
De tanto olhar para o lenço.

Com receio de perdê-lo
Guardo – o sempre no meu seio,
De modo que ninguém saiba
Donde este lenço me veio.

Nas letras entrelaçadas
Vem o meu nome e o teu;
Bendito seja o teu nome
Que se enlaçou com o meu!

Por isso o trago escondido,
Bem guardado no meu seio,
Com medo que me perguntem
Donde este lenço me veio.

Quanto mais me ponho a vê – lo,
Mais este amor se renova;
No dia do meu enterro
Quero levá-lo p'ra cova.

Vem pô-lo sobre o meu peito,
Que eu hei-de tê-lo no seio;
Mas nunca digas ao mundo
Donde este lenço me veio.


José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor: Sol entre nuvens

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2008-02-05

Sol entre Nuvens - Simões Dias

Barco (foto tirada daqui)

Se ‘inda te apraz ouvir falar de um morto,
que em vida foi do amor favorecido,
verás nos versos meus o desconforto
de um ânimo à desgraça enfim rendido!

Barco sem leme, sem farol, sem porto,
de mil contrárias ondas combatido,
tal me tem sido a vida que hei vivido,
no escuro isolamento do meu horto.

Hoje, que morto estou para a alegria
que nesse teu sereno e brando olhar
em tempos mais ditosos me sorria,

‘inda uma crença faz meu peito arfar:
é supor que os teus olhos, algum dia,
sobre estes versos meus hão-de chorar!

José Simões Dias nasceu em Benfeita (concelho de Arganil) a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899. Concluído o bacharelato em Teologia pela universidade de Coimbra (1868), renunciou à via eclesiástica e optou pelo magistério. Além de professor do ensino secundário, foi jornalista e deputado. Contista e poeta neo-romântico, os seus versos têm um cariz popular, bem-humorado e até, por vezes, brejeiro, situando-se à beira da transição para o Realismo e Parnasianismo. O seu soneto foi extraído do vol. «As Peninsulares» (1870; ed. definitiva, 1876).

(Soneto e nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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