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2015-11-11

Vírgula - António Maria Lisboa

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama
Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores, Rio de Janeiro

António Maria Lisboa (nasceu em Lisboa, 1 de agosto de 1928 — m. Lisboa, 11 de novembro de 1953)

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2014-11-11

Conjugação - António Maria Lisboa


A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha

A construção dos poemas

A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS

é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente

NUM TÚMULO EXAUSTIVO.

António Maria Lisboa (nasceu em Lisboa, 1 de Agosto de 1928 — m. Lisboa, 11 de Novembro de 1953)

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
Z
Projecto de Sucessão
Rêve Oublié

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Poema H - António Maria Lisboa

Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.


in "Ossóptico e Outros Poemas"

António Maria Lisboa (nasceu em Lisboa, 1 de Agosto de 1928 — m. Lisboa, 11 de Novembro de 1953)

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
Poema Z
Projecto de Sucessão
Rêve Oublié

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2013-11-11

Z - António Maria Lisboa

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.


in "Ossóptico e Outros Poemas"

António Maria Lisboa (nasceu em Lisboa, 1 de Agosto de 1928 — m. Lisboa, 11 de Novembro de 1953)

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
Projecto de Sucessão
Rêve Oublié

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2010-11-11

Rêve Oublié - António Maria Lisboa

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.



in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Prefácio de Vasco da Graça Moura
Porto Editora

António Maria Lisboa (nasceu em Lisboa, 1 de Agosto de 1928 — m. Lisboa, 11 de Novembro de 1953)

Ler do mesmo autor, no Nothingandall: Projecto de Sucessão

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2009-11-11

Projecto de Sucessão - António Maria Lisboa

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


Extraído de Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção, prefácio e notas de Natália Correia, Antígona Frenesi, Lisboa.

António Maria Lisboa (n. Lisboa, 1 de Agosto de 1928 - m. Lisboa, 11 de Novembro 1953)

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