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2017-03-07

Saudade do teu corpo - António Patrício


Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

in Poesia Completa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989


António Patrício (n. no Porto a 7 de março de 1878, m. em Macau, China a 4 de junho de 1930)

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2017-03-06

Poema do Amor Impossível a Candice Bergen - Eduardo Alves da Costa


Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.

Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!

Eduardo Alves da Costa (Niterói, Rio de Janeiro, 6 de março de 1936)

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2017-03-03

Chuva de Estrelas - Marcelo Gama


Li uma vez em páginas antigas
que, se uma estrela cai do céu clemente,
concede tudo o que lhe pede a gente.
Como as estrelas são nossas amigas!

Por isso agora, insone e sem fadigas,
fito os céus toda a noite atentamente.
Chovem estrelas... E eu: – Astro fulgente,
quero que eterno o nosso amor predigas!

– Faze-me bom! Conserva-lhe a doçura!
– Estrela, dá-nos paz, serenidade!
– Que a nossa filha seja linda e pura!

Doiradas ambições! Como dizê-las,
se elas são tantas? Deus, por piedade,
manda que caiam todas as estrelas!


Marcelo Gama (n. a 3 Mar 1878 em Mostardas (RS); m. a 7 de Mar. 1915 no Rio de Janeiro)

MARCELO GAMA foi o pseudónimo de Possidónio Cezimbra Machado, que nasceu em Mostardas (RS) a 3 de Março de 1878 e morreu no Rio de Janeiro a 7 de Março de 1915. Teve uma morte insólita: caiu do eléctrico em que viajava, dormindo, alta madrugada, sobre os trilhos. Foi um epígono do simbolismo: poeta, teatrólogo, crítico, jornalista, empregado do comércio e boémio. Hipersensível, com uma imaginação plástica de grande originalidade, professava um socialismo utópico e sentia, a um tempo, ódio e amor à vida. Os seus versos, por vezes, másculos e cortantes, revelam influência de Cesário Verde.


Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2017-03-02

Tarde - Luís de Montalvor (na passagem do 70º aniversário do seu desaparecimento)


Ardente, morna, a tarde que calcina,
como em quadrante a sombra que descora,
morre − baixo relevo que domina −
como um sol que sobre saibros se demora.

Inunda a terra a vaga de ouro: fina
chuva de sonho. Paira, ao longe, e chora
o olhar errado ao sol que já declina
sobre as palmeiras que o deserto implora.

A um zodíaco de fogo a tarde abrasa,
em terra de varão que o olhar esmalta.
− Estagnante plaino de ouro e rosas − vaza

nele a sombra, sem dor, que em nós começa
e galga, sobe, monta e vive e exalta.
E a noite, a grande noite, recomeça!

LUÍS DE MONTALVOR era o pseudónimo literário de Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos, que nasceu em São Vicente de Cabo Verde a 31 de Janeiro de 1891 e pereceu afogado no rio Tejo, em Lisboa, juntamente com a família, num acidente automóvel aparentemente suicida, a 2 de Março de 1947. Viveu no Brasil de 1912 a 1915 como secretário da embaixada de Portugal. De regresso, foi um dos fundadores da revista «Orpheu» (1915) e, mais tarde, da editorial Ática, que deu início à publicação sistemática das obras de Fernando Pessoa (1942) e Mário de Sá-Carneiro (1946). Os seus próprios versos seguem uma estética simbolista-decadentista, que revela influência do poeta francês Mallarmé.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. EdiçõesUnicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2017-03-01

Tebedai - Alberto Osório de Castro


Bailemos, bailemos à luz do luar,
Que a vida não pára, lá vai passar.
Na sombras do verde gondão de mil braços
Já voam as moscas-de-fogo aos abraços.
Reparem! Lá dançam no luar as estrelas,
Sárão todo d’oiro, doiradas chinelas.
Era uma vez um malai português
Que em todo o batuque dançava por três.
Tanto bailou com as moças alegres
Tanto bailou que lhe deram as febres.
Tanto bailou e tornou a bailar,
Que até para a cova lá foi a dançar.
Bailemos, ao som dos sagueiros.
Não têm toada mis fina os ribeiros.
Suspiros das folhas do verde gondão,
Abraços e beijos, são do coração.
Bailemos, bailemos, à luz do luar,
Que a vida não pára, lá vai passar.

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1 de março de 1868 - Lisboa, 1 de janeiro de 1946)

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