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2012-06-30

Vivo na esperança de um gesto - Reinaldo Ferreira

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).
Duma outra infância inventada
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Quem dorme à noite comigo

Meu Quase Sexto Sentido
Uma Casa Portuguesa
Passemos Tu e Eu Devagarinho

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POETAR É PRECISO - Raimundo Zurel

Ser poeta às vezes é engraçado;
é quando a gente pensa estar pardo
e vai viver apenas o dia a dia
e a singeleza de um beija-flor
ou a criança na rua, sem amor
nos faz ressuscitar a poesia.
E quando a gente pensa em Drummond,
que, além de ser poeta, era o BOM,
que fez a poesia ser linda,
a gente ainda insiste em ser poeta
e não desiste de alcançar a meta
alcançada por Elisa Lucinda.
Quando a gente pensa que há o amor,
mas que também ainda existe a dor,
ainda existe o triste preconceito,
então percebe que a poesia
tem que lutar, ainda, dia a dia,
pelo que é certo, pelo que é direito.
Algumas vezes faço um poemeto
bobo, outras vezes um soneto
obedecendo às regras da gramática.
De repente eu faço versos livres,
não metrifico, não rimo,
apenas sigo o ritmo,
deixo fluir a inspiração.
Estão vendo? Pelo menos no momento
não consigo palavras pra rimar
com a palavra gramática;
a não ser que eu diga
que sempre fui bom em português.
Em história, em inglês, em francês
E ruim em matemática.
Caramba! Consegui!
Mas se não conseguisse, não desistiria.
ainda assim, pra mim, o que eu faço
o tempo todo, todo dia, é pura poesia.
Por isso, continuo com amor
a fazer versos bons ou sem valor,
porém que fazem a minha alegria;
não sei se vale a pena, se há razão,
mas enquanto bater meu coração,
eu vou fazendo a minha poesia.
Eu vou fazendo a minha poesia,
vivendo a todo instante essa magia
de transformar a dor em um sorriso.
E faço isso porque simplesmente
não consigo tirar da minha mente
que, com certeza, poetar é preciso.

Raimundo Zurel Correia Borges, nasceu em 30 de junho de 1937 em Aracajú-SE, e faleceu em 25 de janeiro de 2011

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2012-06-29

Soneto: Dou-te esperanças que não tenho... - Clodoaldo Freitas

Nota do webmaster:
 Soneto inspirado pela situação de doença do filho Lucídio de Freitas
 (1894-1921), padecendo de  tuberculose no que seria o leito da morte.

Dou-te esperanças que não tenho, e ponho
Nessa doce ilusão minha ventura...
Mártir do amor de pai, quanta amargura
Me punge ao despertar de cada sonho!

Eu nunca me postei ante os altares
Nem jamais invoquei de Deus o nome;
Vendo entretanto o mal que te consome,
Ergo, contrito, ao céu tristes olhares!

Bem sei que as leis fatais da natureza
Não se amolgam jamais ao nosso pranto,
Não têm jamais da nossa dor piedade!

Na agonia mortal dessa certeza,
Contemplo a definhar, cheio de espanto,
Gênio, glória, beleza e mocidade!

Extraído daqui

Clodoaldo Severo Conrado Freitas nasceu em 7 de Setembro de 1855, em Oeiras, Piauí – m. em Teresina, Piauí, a 29 de junho 1924)

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Zingarella - Afonso Schmidt

Certa noite, na Itália, quando eu vinha
para meu quarto, achei-a junto à porta;
era tão bela, mas tão pobrezinha!
De sono e frio estava quase morta.


Ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto:
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!


Ofereci-lhe o quarto de estudante,
de minha estreita cama fiz a sua,
e, enquanto ela dormia, palpitante,
eu vagava, sem teto, pela rua.


De manhã, voltando à casa,
perguntei o nome dela:
- Como ti chiami, regazza?
-Io mi chiamo Zingarella.


Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...


Foi o quadro mais risonho
desta vida fugidia:
— Zingarella, sei mio sogno!
— E tu sei la vita mia!


Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
não encontrei seus olhos de veludo:
o quarto estava gélido e vazio.


Grito embalde o nome dela,
Numa tristeza infinita:
— Dove sei, o Zingarella?
— Dove sei, o mia vita?


E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
de recordar ainda aquela história,
quase desvanecida como um sonho:


ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto...
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!


Publicado no livro Janelas abertas (1911)

Afonso Schmidt nasceu em Cubatão, Estado de São Paulo, a 29 de junho de 1890, m. em São Paulo a 3 de abril de 1964).


Ler do mesmo autor, neste blog:
Cubatão
Chromo
O Poema da Casa Que Não Existe
Simpatia (Poema infantil)

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2012-06-28

PRECISA-SE - Arita Damasceno Pettená

Precisa-se de uma senhora
Sem hora…
Sem… ora – digamos…
Plena de vida,
Cheia de vida,
Para ocupar
Um espaço a dois.
Paga-se bem!
- Bem pra lá…
Bem pra cá.
E que ame tão bem.
E seja também tão amada!
Que um dia,
Ainda que longe,
Possamos dizer
Cheios de saudade:
Nunca estivemos sós!
Precisa-se de uma senhora
Sem hora…
Sem… ora – digamos…
Plena de vida
Para encher de vida
Alguém sedento de amor!




Arita Damasceno Pettená nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, em 28 de Junho de 1932

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