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2015-10-30

SUAVE É A ESPERA - A. Estebanez


Deixa tua alma numa rosa
e um sonho no amanhecer
para ver minha esperança
que hoje espera te rever...

Tu não precisas do tempo
quando o amor acontecer.
O amor te chega na brisa
quando o sonho alvorecer.

Deixa o coração na porta
e um arco-íris no jardim...
A esperança se comporta
como flor dentro de mim.

Que suave é toda espera
para quem quer renascer
num sonho de primavera
que renasce sem morrer...

Afonso Estebanez Stael nasceu em 30 de outubro de 1943, em Cantagalo, Rio de Janeiro

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2015-10-29

DA MITOLOGIA - Zbigniew Herbert

Primeiro era um deus da noite e da tempestade, ídolo negro e sem olhos, diante do qual saltavam nus e lambuzados de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, eram imensos os deuses,com mulheres, filhos, camas desconjuntadas e raios que explodiam inofensivos. Por fim só os neuróticos supersticiosos carregavam nos bolsos pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. À época nao havia maior deus.
Vieram então os bárbaros. Também eles tinham em alta estima o pequeno deus da ironia. Esmagavam-no sob os calcanhares, adicionando-o depois aos seus manjares.

Tradução de Rui Knopfli

Zbigniew Herbert (n. Lviv, Polónia (hoje Ucrânia) , 29 de outubro de 1924 - m. em Varsóvia, Polónia, 28 de julho de 1998)

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2015-10-28

Surge et Ambula - Rui de Noronha


Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo...
O progresso caminha ao alro de um hemisfério
E tu dormes no outro sono o sono do teu infindo...

A selva faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo...
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo...

Desperta. Já no alto adejam corvos
Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne sonâmbula...

Desperta! O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a Voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz: - África, surge et ambula!



António Ruy de Noronha (n. Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique a 28 de outubro de 1909; m. Moçambique em 25 dezembro 1943).

Ler, neste blog, do mesmo autor:
Por Amar-te Tanto
Grito de Alma
Mulher

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2015-10-27

Decisão / Resolve - Sylvia Plath

Dia nublado: dia cinzento

fico
de mãos bobas
esperando o leiteiro

o gato de uma orelha
lambe a pata cinza

e ardem brasas em chamas

lá fora, vão ficando amarelinhas
as folhas da trepadeira
uma fina fita de leite
embaça garrafas vazias na janela

nenhuma glória provém

duas gotas se equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na casa ao lado

ó se arca de espinhos

o gato afia as garras
o mundo gira

hoje
hoje não irei
desiludir meus doze engalanados examinadores
nem cerrarei meu punho
na ironia do vento.

Trad. Elson Fróes


ORIGINAL VERSION

RESOLVE


Day of mist: day of tarnish

with hands
unserviceable, I wait
for the milk van

the one-eared cat
laps its gray paw

and the coal fire burns

outside, the little hedge leaves are
become quite yellow
a milk-film blurs
the empty bottles on the windowsill

no glory descends

two water drops poise
on the arched green
stem of my neighbor's rose bush

o bent bow of thorns

the cat unsheathes its claws
the world turns

today
today I will not
disenchant my twelve black-gowned examiners
or bunch my fist
in the wind's sneer.

Sylvia Plath (n. Boston, Massachusetts, 27 de outubro de 1932; m. Londres 11 de fevereiro de 1963)

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2015-10-26

Apelo à Poesia - Carlos Queirós


Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento...
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro (n. Lisboa em 5 de abril de 1907, m. Paris, 27 de outubro de 1949)

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