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2015-12-29

Terra Bárbara - Jáder de Carvalho


Na minha terra,
as estradas são tortuosas e tristes
como o destino de seu povo errante.
Viajor,
se ardes em sede,
se acaso a noite te alcançou,
bate sem susto no primeiro pouso:
— terás água fresca para sua sede,
— rede cheirosa e branca para o teu sono.

Na minha terra,
o cangaceiro é leal e valente:
jura que vai matar e mata.
Jura que morre por alguém — e morre.

(Brasil, onde mais energia:
na água, que tem num só destino
do teu Salto das Sete Quedas
ou na vida, que tem mil destinos,
do teu jagunço aventureiro e nômada?)
Ah, eu sou da terra do seringueiro,
— o intruso
que foi surpreender a puberdade da Amazônia.


Eu sou da terra onde o homem, seminu,
planta de sol a sol o algodão para vestir o Brasil.
Eu nasci nos tabuleiros mansos de Quixadá
e fui crescer nos canaviais do Cariri,
entre caboclos belicosos e ágeis.


Filho de gleba, fruto em sazão ao sol dos trópicos,
eu sou o índice do meu povo:
se o homem é bom — eu o respeito.
Se gosta de mim — morro por ele.
Se, porque é forte, entender de humilhar-me,
— ai, sertão!
Eu viveria o teu drama selvagem,
eu te acordaria ao tropel do meu cavalo errante,
como antes te acordava ao choro da viola...

Jáder Moreira de Carvalho (Quixadá, Ceará, 29 de dezembro de 1901 — Fortaleza, Ceará, 7 de agosto de 1985)

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2015-12-28

Nel Mezzo del Camin... - Olavo Bilac


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada
e alma de sonhos povoada eu tinha...

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha

Hoje, segues de novo... Na partida
nem o pranto os teus olhos umedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Extraído de "Os poemas da minha Vida" - António Lobo Xavier - Público

Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac (n. no Rio de Janeiro em 16 de dezembro 1865; m. 28 de dezembro de 1918)

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2015-12-24

Dia de Natal - António Gedeão

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros — coitadinhos — nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra — louvado seja o Senhor! — o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

Extraído de Cem Poemas Portugueses sobre a Infância, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria. Terramar, 2004

António Gedeão (pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, n. em Lisboa a 24 Nov 1906; m. 19 Fev 1997)

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2015-12-22

Legenda para nada - José Régio



Senhora Dona Lua
No céu de focos esventrado se apagou.
Murcha, caiu à rua
A pálida camélia;
E a casa das valetas a levou.
Que fantasma de Ofélia
No lago escoado de água se afogou?

in Cântico Suspenso, 1968

José Régio [José Maria dos Reis Pereira] (n. em Vila do Conde a 17 de setembro de 1901 — m. Vila do Conde, 22 de dezembro de 1969)

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2015-12-21

Ditado entre as agonias do seu trânsito final - Barbosa du Bocage (na passagem dos 210 anos sobre a sua morte)




Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

in Cem Sonetos Portugueses; selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria; Terramar

Manuel Maria Ledoux de Barbosa du Bocage (n. 15 Set 1765 em Setúbal; m. Lisboa, 21 Dez 1805)

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2015-12-20

Dá-me as Tuas Mãos - Vítor Matos e Sá



As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

in Companhia Violenta

Vítor Matos e Sá, pseudónimo literário de Vítor Raul da Costa nascido a 20 de dezembro de 1927, em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique e falecido em Espanha, 1975.

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2015-12-19

O apanhador de desperdícios - Manoel Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel Wenceslau Leite de Barros (n. Cuiabá, Masto Grossso, 19 de dezembro de 1916; f. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014)

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2015-12-18

Ao sopé da Borborema - Rodrigues de Carvalho


Ao sopé da Borborema
Onde um eterno poema
Vai cantando o sabiá
Erguem-se as rudes cabanas
Como as tabas indianas
Da minha aldeia Tauá

in Poemas de Maio


José Rodrigues de Carvalho nasceu no dia 18 de dezembro de 1867, no povoado de Tauá, município de Alagoinha, no antigo território de Guarabira, Paraíba; faleceu no dia 20 de janeiro de 1935, no Recife, capital de Pernambuco

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2015-12-17

RENOVO - Conceição Carraça




Despida de alma
Debaixo da neblina, o corpo seminu no areal
O espírito flutua entre os gritos das gaivotas e o burburinho das ondas
Sou parte da natureza, sou real
Estou tão serena, tão calma
O passado não volta
Ontem não mais existe
Vivo o hoje e o agora
Não quero mais ficar triste
Lavei a alma, o coração já não chora
Reencontrei-me!

Conceição Pires Nuno Carraça, de nome literário Conceição Carraça, nasceu a 17 de dezembro de 1956 em Santiago do Cacém nasceu

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2015-12-16

XXXI [Longe de ti, se escuto, porventura ] - Olavo Bilac (na passagem dos 150 anos do nascimento)



Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (nasceu no Rio de Janeiro a 16 de dezembro de 1865 e morreu na mesma cidade a 28 de dezembro de 1918).

Neste blog pode encontrar do mesmo autor, mais os seguintes poemas:
Delírio
Vita Nuova
Por Estas Noites

Nel Mezzo del Camin
Por tanto tempo
Um beijo
Ao coração que sofre
Como Quisesse Livre Ser

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2015-12-15

Declaração - António José Forte




Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-Ia
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado

in Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.

António José Forte (Vila Franca de Xira, Póvoa de Santa Iria, 6 de fevereiro de 1931 – Lisboa, 15 de dezembro de 1988)

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2015-12-14

Marinha - Luís de Magalhães


É tarde. As barcas vão entrar- Em toda a praia,
as mulheres, fitando o mar iluminado
e calmo, falam, num sussurro entrecortado
pelo troar da vaga que se espraia.

A canastra à cabeça. arregaçada a saia
caminham pela areia e,m passo cadenciado.
Ao largo, no horizonte, em névoas esfumado,
cruzam-se a bordejar latinas de catraia.

Uma aragem do mar, balsâmica e salgada,
espalha um cheiro d'alga em torno. Desmaiada,
evapora-se a luz num nevoeiro loiro...

Risca o fundo sanguíneo e ardente do arrebol
um voo de gaivota. E, no ocidente, o Sol
fulge, radiante, como uma panóplia d'oiro.

Luís Cipriano Coelho de Magalhães nasceu em Lisboa a 13 de setembro de 1859 e morreu no Porto a 14 de dezembro de 1935

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2015-12-11

Uma pedra na infância - Manuel Gusmão (na passagem do septuagésimo aniversário)


Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância
Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas e o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite no poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.

in Migrações do Fogo, Editorial Caminho, Lisboa, 2004.

Manuel Gusmão nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
O rio divide-te
Já ali não estavas
As Claras Imagens
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2015-12-10

Legado - Lindolf Bell


Deixarei por herança
não o poema
mas o corpo no poema
aberto aos quatro ventos

Pois todo poema
é verde e maduro,
em areia movediça
de angústia, solidão
Onde me debato
ainda que finja o contrário
em busca da verdade
e seu chão

Deixarei por herança
não o poema
Mas o corpo repartido
na viagem inconclusa

Pois todo o poema maduro
é um verde poema
E, mesmo acabado,
se estriba na inconclusão
Claro, sem esquecer,
o estratagema da paixão

daqui

Lindolf Bell (n. em Timbó, Santa Catarina a 2 de novembro de 1938 - m. Blumenau, 10 de dezembro de 1998)

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2015-12-09

Voz e Aroma - Almeida Garrett

A brisa voga no prado,
Perfume nem voz não tem.
Quem canta é o ramo agitado.
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar...

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

in Folhas Caídas, 1853

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de fevereiro de 1799; m. em Lisboa 9 de dezembro de 1854)

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2015-12-08

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha - Florbela Espanca


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca (n. Vila Viçosa, 8 dez. 1894; m. Matosinhos em 8 dez. 1930)

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2015-12-07

Tríptico do Trabalho 3 - O Futuro - José Carlos Ary dos Santos

Isto vai meus amigos... isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não que gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos... isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos... isto vai.

José Carlos Pereira Ary dos Santos (n. em São Sebastião da Pedreira, Lisboa, a 7 de dezembro de 1936 — m. 18 de janeiro de 1984)

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Balada do VI Ano Médico de 1958 - Fernando Machado Soares

Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida



Fernando Machado Soares nasceu na vila açoriana de São Roque do Pico, em 3 de setembro de 1930 e faleceu em 7 de dezembro de 2014

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2015-12-04

A LIÇÃO PERPÉTUA - Filinto de Almerida



São Luís de Camões, patrono e santo
Que desde a infância venerar intento,
Como merece quem por mim fez tanto
Que até deu asas ao meu pensamento!

Da tua Musa o constelado manto,
Da poeira d'astros que arremessa ao vento
Alguma cai sobre o sorriso e o pranto
Dos breves poemas que a rimar invento.

Meu Pai espiritual, meu Guia e Mestre,
Nesta passagem rápida terrestre
Em que só cantam almas peregrinas,

Ao fim da vida, ainda, em sobressaltos,
Canto, graças a ti, nos moldes altos
Da perpétua lição que tu me ensinas.

Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 de dezembro de 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1945).

Ler do mesmo autor:
Amor e Razão
Chama da Vida
Misteriosa
Funesta
Último Apelo

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2015-12-03

O Génesis da Mulher - Adeodato Barreto

Deus, logo que fez as flores,
Parou e pôs-se a cismar…
– Falta a flor dos meus amores.
Vou outra flor inventar.

Colheu lírios e boninas,
Rosa… cravo e malmequer,
Mogarins, zaiôs e cravinas…
E fez de tudo a mulher.

Viu, porém, que a nova flor
Era a que mais graça tinha
Disse, então, cheio de amor:
– Não és só flor, és rainha!

Pôs-lhe na fronte a pureza,
Na boca um terno sorriso,
No coração a firmeza…
Esqueceu dar-lhe… juízo.

 Júlio Francisco António Adeodato Barreto nasceu a 3 de dezembro de 1905, em Margão, concelho de Salcete, arquidiocese de Goa, Índia e faleceu em Coimbra em 1937

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2015-12-02

Os meus olhos são Índias de segredos - Alfredo Guisado

Os meus olhos são Índias de segredos.
É Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas mãos, bandeiras tremulando.
Seus gestos lembram lanças. E ela passa…
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.
O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que não existe
Maior mistério do que o de prendê-lo.
Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, às vezes, quando chora, põe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.

Alfredo Pedro de Meneses Guisado nasceu a 30 de outubro de 1891 em Lisboa, onde faleceu a 2 de dezembro de 1975.

Ler do mesmo autor:
Apagou-se por fim o incerto lume
Recordar
Outrora
O Baloiço
Um Poema de "Elogio da Desconhecida"
As Exéquias da Princesa II A Princesa a Seus Lábios Durante a Morte

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2015-12-01

Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe - Pedro Tamen

Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe
que o princípio da rua não existe. O que tu vês
não é calçada ou casa, sequer esquina,
o que tu vês não é alegre ou triste,
o que tu vês arrasa os próprios olhos
porque os vês vazios.

E apenas há quem julgue que chegaste
porque pesas um peso que soltaste
pelo caminho por onde nunca andaste.

(Guião de Caronte)


in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama
Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores, Rio de Janeiro

Pedro Mário Alles Tamen (nasceu em Lisboa a 1 de dezembro de 1934)

Ler do mesmo autor neste blog:
Escrito de Memória
Regando Lentamente as Flores do Rio
Os Dias
Não sei, amor, se te consinto
O mar é longe mas nós somos o vento

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Amnésia - Fernanda Botelho

Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

Maria Fernanda de Faria e Castro Botelho (Porto, 1 de dezembro de 1926 - Lisboa, 11 de dezembro de 2007)

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